PÃO, VOCAÇÃO E GRANDES PARCEIROS!

Curta temporada para Cachorro Enterrado Vivo: somente de hoje a domingo no Teatro João Ceschiatti. É imperdível! Produzido com recursos do próprio bolso, este primeiro solo de Leonardo Fernandes já amealhou dividendos artísticos inestimáveis: foi eleito um dos 11 melhores espetáculos de 2016 pelo Estadão; uma das melhores estreias do ano pelo Guia Folha de São Paulo; indicado em seis categorias do recente Prêmio Copasa/Sinparc (Iluminação, Trilha Sonora, Texto, Ator, Diretor e Cenário, premiado), em seis do Prêmio Aplauso Brasil (Iluminação, Trilha, Figurino, Espetáculo e Ator, que coloca Leonardo em disputa contra Caco Ciocler, Ando Camargo, Thiago Fragoso, Eriberto Leão e Fúlvio Stefanini; o resultado será divulgado em meados deste ano). 

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Cachorro Enterrado Vivo rendeu diversos prêmios e indicações a Leonardo Fernandes

Pela interpretação impecável dos três personagens do texto especialmente criado por Daniela Pereira de Carvalho, Leo foi eleito Ator do Ano pelo Blog do Arcanjo – Uol Entretenimento. Segundo o júri da Associação Paulista dos Críticos de Arte, também foi considerado o melhor ator da temporada teatral paulistana em 2016. Na primeira vez que uma produção mineira vence nesta categoria em 60 anos de premiação da APCA.

Carioca,  15 textos teatrais já montados, Daniela Pereira de Carvalho é uma das dramaturgas mais bem mencionadas do país. A materialização deste Cachorro ergue uma ponte de criação e afeições entre ator e autora. É ela quem o Blog da Cena entrevista nesta edição. E Leo faz questão de frisar a qualidade do trabalho da nova parceira, o valor da relação que estabeleceram. A dramaturgia da Daniela propõe sempre vários níveis de profundidade, e o bonito nisso é que ela consegue se comunicar com todo tipo de público. Ela aborda situações limites de forma poética e impactante. Há sempre algo de transgressor na dramaturgia dela que desafia o ator, o encenador, o espectador. Isso é um presente para a criação. Se ela escreve pensando em um ator, ela faz parecer que só aquele ator poderia fazer aquele texto. Seu processo criativo é intenso. Digo isso porque somos amigos, e às vezes ela me liga pra dizer um insight que teve, uma resolução, um título… e eu penso: “a cabeça dela não para”. Quer algo mais bonito numa parceira de trabalho?

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Mais sobre Daniela: https://pt.wikipedia.org/wiki/Daniela_Pereira_de_Carvalho

Logo abaixo, a entrevista.

Pensava que vc fosse uma atriz que derivou para a dramaturgia…

Eu fiz CAL (Centro de Artes de Laranjeiras), mas não considero que tenha sido uma formação de atriz. Foi uma formação em Teatro. Eu era muito nova e naquela época – nos anos 90, no Rio – não tinha nenhum curso de formação em dramaturgia. Na verdade, ainda não tem. Em São Paulo tem. Eu fazia aula com o Domingos Oliveira e fui fazer CAL. Aprendi muito, muito mesmo, sobre Teatro e conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida: o Bruce (Gomlevsky), Os Dezequilibrados, Pedro Garcia Netto, Pedro Osório. Muitos amigos mais! Logo depois, entrei na graduação de Teoria do Teatro na Unirio. Tive uma sorte muito grande nessa faculdade! Um curso muito bacana mesmo! Eu nunca fui, nem nunca vou ser, uma autora afastada da “feitura” da cena, da construção do jogo com o ator, com a linguagem da direção… Isso tem uma certa origem na formação que a CAL me proporcionou.

O que lhe despertou para a dramaturgia, como um hobby ou como uma carreira? Quando vc se convenceu que tinha talento para isso, tinha algo a acrescentar?
Não é hobby de jeito nenhum. É a minha vida. Minha formação é toda em Teatro. Desde 2002, quando estreou a primeira peça que escrevi, “Vida, o filme”, são mais de 15 peças montadas. É meu trabalho, como ganha pão e vocação. Não tenho nenhuma outra “atividade”. O Teatro entrou na minha vida quando eu tinha 12 anos e nunca me direcionei para outros interesses. Naturalmente, porque foram interesses menores. Essa coisa de talento é muito complexa – de “se convencer que tem talento”. É sempre bom pensar em uma medida entre autoconfiança e arrogância. Cedo, o Teatro me deu uma turma. Pessoas como o Tomás Ribas, iluminador, meu grande amigo da vida. Os Dezequilibrados todos. O Bruce. Ir desenvolvendo minha formação ao lado deles foi fundamental  na consolidação da confiança nas minhas palavras escritas. E também parcerias fundamentais que foram acontecendo – com a Xuxa Lopes, por exemplo. Além dos professores que me formaram e me dão muito apoio até hoje. Flora Sussekind, Ângela Materno, Tânia Brandão.
O Movimento NOVA DRAMATURGIA CARIOCA, que o Roberto Alvim, no início
dos anos 2000, realizou na Sala Paraíso do Teatro Carlos Gomes tem que –  obrigatoriamente  – ser citado por muitos dos dramaturgos do Rio de Janeiro como uma espécie de start point ou marco inicial, em alguma medida. Nenhum outro artista trabalhou tanto, em tantas vertentes, quanto o Roberto. Ele é ‘o cara’ – e não digo isso porque ele é meu irmão. Não, ele é mesmo ‘o cara’.
Não tenho qualquer dúvida sobre a minha vocação. E aguento as partes dolorosas da escolha em seguir essa vocação estruturalmente. É uma entrega absoluta. Minha vida é completamente sustentada pelo Teatro em todos os aspectos. Meus afetos estão profundamente ligados ao Teatro. Meus irmãos neste mundo, por exemplo, Roberto Alvim, Daniel Tendler, Marcelo Pedreira, vieram da relação com o Teatro,

Poderia citar quais as partes dolorosas da sua relação com o teatro?

Tem um texto do Caio F(ernando Abreu), chamado “Primeira Carta Para Além dos Muros”,
em que ele diz: “É com terrível esforço que te escrevo. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras – como Clarice, feito Pessoa. Em Carson McCullers doía fisicamente, no corpo feito de carne e veias e músculos. Pois é no corpo que escrever me dói agora. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado, com suas veias inchadas, feridas, cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que, dizem, vão me salvar. Dói
muito, mas eu não vou parar. A minha não-desistência é o que de melhor posso oferecer a você e a mim neste momento. Pois isso, saiba, isso que poderá me matar, eu sei, é a única coisa que poderá me salvar. Um dia entenderemos talvez.” É lindo esse texto do Caio. Muito lindo!
Escrever, no meu caso, escrever peças de Teatro, potencializa, em alguma medida, um estado de desassossego que dói. No corpo e no espírito. Estar o tempo todo absorvendo ideias, sentimentos. O pensamento nunca para. Não é um trabalho com expediente determinado. Invade todo tempo e espaço da vida, das relações. Você vai tentando
separar – tempo e espaço – dentro do que é possível. Tem que aprender a lidar com as épocas que ganha bastante dinheiro e com aquelas em que ganha pouquíssimo.
Como diz a Nina de “A Gaivota”: “É preciso ter fé e saber carregar a cruz”.

Este texto do Caio é de Pequenas Epifanias (Ed. Agir), né? Adoro este livro, tem uns textos nele que deveriam ser levados à cena…

Eu queria fazer alguma coisa em torno do Caio. O Gawronski, meu parceiro em três espetáculos, era muito próximo a ele. Ano passado nos reunimos parar ler coisas e pensar. Mas acabou não acontecendo, não chegamos a uma conclusão. Mas tem tanta coisa linda do Caio.

Algo lhe estimula em particular ao escrever uma peça? os diálogos, as situações, a trama, o tema, o pensamento que norteia a obra?

Já fui bem mais apegada a diálogos do que sou hoje. Na época do Tudo é Permitido, do Não Existem Níveis Seguros Para o Consumo Destas Substâncias falavam muito bem dos meus diálogos. Mas o Cachorro, por exemplo, é um exercício de não-diálogo… Hoje, o mais importante pra mim, o que mais me move ao escrever, é a questão da peça, o pensamento estrutural dela, escolher a melhor estrutura narrativa. Cada peça acaba sendo uma questão a desenvolver, uma ideia, um pensamento em cima do qual a obra se estrutura. E não tenho nenhum vínculo formal com nenhum tipo de militância específica. A ideia de categorização me incomoda muito e não mantenho esse tipo de perspectiva no meu trabalho. Gosto da liberdade mesmo, cada peça abrindo novas fissuras e/ou possibilidades. Por isso pensei várias vezes antes de aceitar o convite da Marcia Zanelatto para integrar o grupo de autores da Rio Diversidade. Acabei aceitando por conta do horror deste conservadorismo ressurgente, deste ano de franco retrocesso das liberdades! Acho lamentável tudo o que limita e aprisiona o pensamento e o afeto – em qualquer âmbito. É um presente histórico bem perturbador esse que pretende cassar liberdades e penalizar diferenças. Horrível.

Algum diálogo, situação, algum personagem em algum dos seus textos lhe agrada sobremaneira aos demais? E na dramaturgia de outros autores, o que lhe soa insuperável, que vc desejaria ter escrito?

Gosto de várias coisas que escrevi – ficaria auto elogioso dizer especificamente. E acho que não existe nada mais bobo do que o autoelogio. Queria escrever como o Domingos Oliveira. Sempre vou querer. Como o Edward Albee. Como o Jon Fosse. E como o Samuel Beckett, é óbvio, meu objeto de estudo, não ingenuamente.

Como vc costuma lidar com suas percepções? qdo sente que o texto está pronto? é algo racional ou mais intuitivo? ou é o retorno de companheiros para os quais vc está escrevendo?

Nunca vem de fora. Tem uma hora que, de fato, eu percebo que está pronto. Não existe isso – pelo menos para mim – de qualquer tipo de avaliação externa ditar qualquer tipo de “limite” ao meu trabalho.

E o que lhe ocorre quando o texto parece superior a todo o resto de alguma encenação que vc assiste?

Que o texto sempre pode ser remontado! Uma encenação ruim é só uma experiência ruim para aquele texto. Outras seguirão, em outros sentidos. Pessoalmente, nunca me senti assim em relação às minhas peças. Talvez por trabalhar sempre com diretores parceiros. Alguns em mais de uma peça, como o Ivan Sugahara, durante os anos em que integrei a Cia Os Dezequelibrados. O Tato Consorti em Tudo é Permitido e Não Existem Níveis Seguros Para o Consumo Destas Substâncias”. E meu amado e ídolo Gilberto Gawronski em Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária, As Próximas Horas Serão Definitivas e Nem Um Dia Se Passa Sem Notícias Suas. Mas não acho que apenas a repetição da parceria seja fator determiante nessa harmonia. Minha experiência com o Mauro Mendonça Filho em Renato Russo  – O Musical é o que me dá plena consciência disso. Não nos conhecíamos até começar a trabalhar e foi intenso, muito intenso. E o Maurinho virou uma referência para mim – de trabalho de direção, de pensamento de encenador. Além de um irmão
na vida – de verdade. Mas é injusto não dizer que trabalhar com João Fonseca, Daniel Herz,
Pedro Henrique Neschling e Henrique Tavares também não é uma plenitude! Eles são incríveis. Parceiros incríveis. Tenho orgulho de cada peça que construí com cada um desses diretores. Cachorro Enterrado Vivo me proporcionou um outro tipo de experiência – em
relação à vertente da encenação e à minha relação como autora.  Não conhecia o diretor e não tive qualquer contato com ele até o dia da estreia. Para minha concepção como autora, o grande diálogo foi sempre a construção da interpretação do Leo – que pude assistir passo a passo, mesmo de longe, em leituras via Skype. Fizemos isso desde o começo. Escrevi a primeira parte da peça e lemos. Seguimos assim até o final. Várias vezes. Antes de sequer começar os ensaios e mesmo depois. Nessa peça, nesse processo especificamente, minha relação com a encenação está intrinsecamente vinculada à composição do ator, Leonardo Fernandes. Ao trabalho minucioso, rigoroso, muito, muito apurado dele. Embora, eu adore tudo na peça! Luz, cenários, figurinos, música. A fantástica direção de movimento da
Eliatrice Gischewski. Tudo!

O sucesso de Cachorro Enterrado Vivo em Belo Horizonte e em São Paulo vem consolidar de que maneira as relações pessoais e artísticas que vc passou a manter com Leo e com a cena teatral mineira?

Um encontro muito, muito feliz na minha vida, o Leonardo Fernandes. CACHORRO ENTERRADO VIVO é uma peça que me deu um enorme prazer. Quer dizer… O processo de escrita foi doloroso. Me consumiu, foi duro mesmo. Mas desde que fui a BH para estreia, é só felicidade. O Leo é precioso! A gente tem muita coisa parecida, de pensamento e
referência. Então, jogamos bem juntos. Temos planos para várias coisas, além de continuar com o CACHORRO… Nossa próxima peça, se chama COMPORTAMENTO. É sobre pedofilia. Também está sendo punk trabalhar nela. Desde 2015 tenho tido alguns encontros com Belo Horizonte e espero continuar tendo…Tem sido muito prazeroso.

Que outras relações vc manteve com a cena mineira?

Na verdade, o encontro que se deu, de fato, foi com o Leo. Mas em 2015 ministrei uma oficina muito bacana no CCBB e em 2016 teve a temporada de Contra o Vento, também no CCBB!, também muito bacana!!!!!. Mas o Leo e o Cachorro são o ponto principal. Eu tive um final de semana de “trabalho” com a Rita Clemente. Não fomos em frente, mas foi bacana mesmo assim (sobre este encontro, Rita Clemente falou ao blog: “A princípio não temos nenhum projeto em comum, mas a Daniela é uma grande autora, além de uma artista
profunda, comprometida com aspectos estéticos muito especiais. Um tipo de artista que admiro, pois não está aliada conceitualmente à esse surto de ‘atualidade’ a que temos sido bombardeados e sim em buscar dar um passo à frente”.)

O número de dramaturgOs é nitidamente superior ao de dramaturgAs no Brasil, quem sabe, no mundo. O fato de ser uma das mais atuantes, conhecidas e bem mencionadas sobrecarrega seu senso de responsabilidades? de alguma maneira vc se sente comprometida a falar das opressões às mulheres no Brasil e no mundo?

Comprometida me sinto, sim, é claro. Mas sobrecarregada, não. Há uma boa quantidade de dramaturgas mulheres na minha geração… Marcia Zanelatto, Julia Spadacccini e Carla Faour, por exemplo, minhas grandes amigas. Grace Passô, Verônica Stigger… Só para dizer alguns nomes cujo trabalho acho bem bacana. Tem muitas outras. O número de homens em qualquer cargo – fora do campo doméstico – é sempre superior ao de mulheres. Não é uma questão do teatro ou da dramaturgia, evidentemente. É do mundo como o mundo  – historicamente – se organizou até hoje… Há pouco tempo li uma matéria sobre uma sitcom
americana protagonizada pela Lily Tomlin e pela Jane Fonda – duas grandes estrelas – chamada Grace and Frankie – nome dos personagens delas – e os salários das duas era o mesmo dos personagens coadjuvantes…. Isso não aconteceria se os protagonistas fossem
masculinos certamente….  Robin Wright teve que fazer jogo duro para receber o mesmo que o Kevin Spacey, num seriado em que os dois dividem as narrativas principais. Enfim, muitas questões sobre o feminismos estão sendo revisitadas nesses dias de agora – isso é bem estimulante. E vejo uma produção bem profícua de dramaturgas. Quando eu era jovem e comecei a me interessar por teatro, a única referência que tive foi a Bia Lessa. Uma referência foda, obviamente. O trabalho dela é incrível. Mas, lá pelos anos 90, tinha toda aquela geração de encenadores… E a única artista que – pessoalmente, é claro – foi, e sempre será, muito importante como formação inicial de “espectadora que estava começando a fazer teatro” foi a Bia mesmo.

A situação política e econômica do país permite pensar que cenários para a produção artística? que perspectivas vc alimenta para sua obra em 2017?

O que, nesse momento, se insinua mais imediato é a necessidade de resistência – de luta mesmo. Ainda mais aqui, no Rio. Um Estado falido, a entrada de um prefeito que gera muitas dúvidas… Mas isso não é desanimador. É só a realidade (já conhecida) do país em quase todas as conjunturas. Quem faz teatro tem que lutar. Assim como professores e médicos e garis lutam no serviço público. Não há como fugir desse enfrentamento. Haverá pouco dinheiro – é fato. E um espaço enorme para se pensar e construir e agir. Não é momento para esmorecer, não. Sinto meus amigos e parceiros muito despertos – e isso
dá uma sensação boa apesar do cenário em trevas. Estou concluindo uma dissertação de (…) e isso vai ocupar – intensamente – meu começo de ano. Mas já tenho três projetos para
2017. Uma peça com a Xuxa Lopes. Uma nova parceria com o Leonardo Fernandes e o Adriano Saboya (de Tudo é Permitido e Não Existem Níveis Seguros…) chamada Comportamento. E um novo trabalho com o Bruce Gomlevsky.  Renato Russo – O Musical
voltou agora em janeiro, no Rio, e Cachorro Enterrado Vivo agora em março, em BH. Estas duas peças devem viajar mais durante o ano. E a Mostra de Dramaturgia LGBT, Rio Diversidade, também voltou em janeiro, no Rio. O país está muito complicado… Mas vamos em frente!

O Brasil ficou em sexto lugar no ranking da pesquisa sobre o nível de ignorância da população em 40 países. Seu teatro teria algo a dizer aos ignorantes ou aos que não estão computados nestes números?

Bom, é preciso tentar discernir conceitos diferentes de ignorância. Pensando no Brasil, restritamente. Há uma enorme parcela da população sem acesso à educação – educação básica mesmo. Citando aqui uma matéria do site UOL de um ano atrás:
“Apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. (…) Numa situação ideal, os estudantes que completam o ensino médio deveriam alcançar esse nível — no Brasil, o ensino médio completo corresponde a 12 anos de escolaridade.”  A matéria que citei está aqui: https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/02/29/no-brasil-apenas-8-escapam-do-analfabetismo-funcional.htm
Essa precariedade educacional certamente contribuiu para o alto índice de ignorância apontado nesta pesquisa – onde a Holanda possui o menor grau. Este quadro – de deficiência austera de formação – evidentemente impõe limites severos à recepção das obras de arte e seu efeito estético. Pensamento e sentimento, em alguma medida, estão estruturalmente ligados. Mas – e, talvez, eu esteja seja um pouco ingênua raciocinando
assim – algumas obras de arte enfrentam e detonam essas barreiras criadas pela falta de informação e acesso à cultura – impostas pelo subdesenvolvimento educacional à população brasileira.
A Legião Urbana – para usar um exemplo relacionado a uma peça minha – atravessou os últimos 30 anos, com três acordes básicos, levando gerações a se perguntarem “Que país é esse?”. As letras do Renato Russo são muito elaboradas, sofisticadas mesmo – e tem grande alcance. Nossa peça, Renato Russo – O Musical nos faz viver isso – a cada
apresentação. Num país de analfabetos e analfabetos funcionais, a música forma o pensamento e as emoções . E o teatro também  – que é uma arte oral-visual, em síntese – ajuda a suprir as lacunas, a preencher os vácuos. Há outro modo de ignorância, entretanto. A ignorância da parcela de “letrados” que  – apesar da capacidade de articulação de ideias e
mentalidades – são preconceituosos e intolerantes. O teatro – e toda arte – deve enfrentá-los sempre – com atenção e força. Cada peça que escrevo compactua com esse enfrentamento.

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O espetáculo retorna ao cartaz após dez anos

Sintetize seu envolvimento acadêmico, seu objeto de estudo no mestrado e o que vc objetiva com esta graduação.

Samuel Beckett escreveu em 1930, quando era ainda bem jovem, um ensaio chamado Proust sobre À La Recherche Du Temps Perdu. O crítico alemão Wolfgang Iser – em seu ensaio When Is the End Not the End? The Idea of Fiction in Beckett – levanta a hipótese de que, ao escrever sobre a obra proustiana, Beckett estaria delineando alguns princípios da própria poética que constituiria futuramente em sua obra. Alguns outros estudiosos de Beckett também levantam esta hipótese, como James Knowlson, por exemplo. Meu trabalho é sobre essa relação entre o ensaio Proust, a dramaturgia beckettiana e  procedimentos narrativos usados por Proust em sua À La Recherche Du Temps Perdu. Estou estudando especificamente três peças: A Última Gravação de Krapp, That Time
e Embers (uma peça radiofônica). E a memória é a questão em torno do qual o mote do trabalho se estrutura. Nesse momento, minha aspiração é concluir! É um trabalho pesado, muito pesado, duríssimo. Tenho uma orientadora incrível. Minha professora e amiga muito amada há 20 anos, desde a graduação, Flora Sussekind. O que aumenta consideravelmente minhas responsabilidades. Aliás, na Unirio, os professores do Depto de
Estética e Teoria Teatral são pessoas muitos importantes na minha formação, na minha vida: Ângela Materno, Tânia Brandão, Beti Rabetti, Ana Maria Bulhões, José da Costa.   Ronaldo Brito e Luiz Camilo Osório – que já não estão mais lá. Foi uma graduação e está sendo uma pós-graduação estruturalmente importante. Quero ter forças para ir em
frente – talvez, quem sabe, um dia, dar aulas lá, nesse departamento que me é tão caro. E a intensidade dessa interlocução com a academia causa transformações profundas na minha relação com a escrita dramatúrgica – com toda certeza.

Os títulos dos seus textos teatrais são são especialmente chamativos, instigantes, raros, o próprio processo de criação lhe ‘impõe’ estes títulos ou eles são uma fonte de prazer? demora a encontrá-los?

Tenho uma relação seriamente obsessiva com os títulos das minhas peças. Começo a pensar numa coisa – sobre uma coisa que quero transformar em peça. Uma ideia, uma questão e, desde este ponto, enquanto vou formulando a estrutura narrativa, também vou formulando o título. Às vezes, encontro rápido. Noutras, passo por várias hipóteses até encontrar. Muitos dos meus títulos são referências – a um álbum, aquela frase ao lado das caixinhas de cigarro, um filme. É um prazer – como escrever a peça também é. Mas um prazer desvinculado da ideia de relaxamento, de certo modo. “Um desespero agradável”, citando Caio F.

Se eu lhe pedisse para destacar um grande parceiro em sua carreira, que nome primeiro lhe viria à mente?

Trabalhei com grandes parceiros. Os Dezequilibrados, por exemplo. E a Liliana Castro, com quem fiz três espetáculos muito importantes para mim. Poder chamar a Xuxa Lopes de parceira, hoje em dia, me deixa, atordoadamente, vibrante. E é uma realidade. Estamos, neste momento, construindo um espetáculo novo, A MULHER LARANJA, e temos planos,
muitos planos pela frente. O iluminador Tomás Ribas é um grande parceiro também. Um interlocutor precioso nas peças em que faz e mesmo nas que não faz a luz. Ele é uma
espécie de voz na minha consciência. Está sempre em mim. E tem o Bruce Gomlevsky! Meu cara em cena desde a primeira peça. Talvez até antes disso, porque eu já o amava na época da CAL. É um ator, um artista faminto. Não descansa e não me dá descanso um segundo sequer em sei lá quantos anos de amizade… Mais de 15 certamente! Muito culto, muito
febril, muito comprometido e muito determinado a realizar. A sensação de vê-lo interpretar uma cena de um personagem chamado Andy, na minha primeira peça, Vida, o filme, viverá em mim para sempre. Foi quando aceitei e compreendi o conceito de milagre
como uma subversão extraordinária das possibilidades. É meu irmão. Meu parceiro na vida. Já temos uma história… Renato Russo – O Musical voltou em cartaz dez anos depois de estrearmos pela primeira vez. É uma experiência inebriante, para mim, olhar o Bruce em cena, com o violão, falando e cantando e me transpassando em sua composição do
nosso ídolo Renato. E que sorte!  Temos a vida pela frente – certamente juntos. Uma peça
nova – que já começa a se desenhar na minha cabeça – é/será um solo para ele, que já está sabendo disso… Rs!

Os prêmios e as indicações à sua obra contribuíram de que maneira à sua carreira, à sua vocação de dramaturga?

Os prêmios e as indicações são bacanas porque, em alguma medida, são o reconhecimento de um certo grau de excelência naquela obra, que, certamente, demandou muito esforço, sangue, ar, uma quantidade quase indecente de pensamentos e um abrangente imaginário do autor – e de todos que a compuseram, é claro. Isso é legal. Mas a vocação vem antes
disso. Antes de qualquer outra pessoa te dizer que você é boa no que faz. A vocação é uma víscera que não pode ser extirpada pela vontade ou opinião alheia.

Se costuma afirmar que o nível dos diálogos no teatro e no cinema argentinos é bastante superior ao do teatro e do cinema brasileiros. vc também acha?

Olha, eu não sou nada fã de generalizações… Essa suposição – sobre a superioridade dos diálogos no teatro e no cinema argentinos – me parece uma generalização… Acho bobagem ficar criando ou estimulando uma rivalização exacerbada entre Brasil e Argentina… Até no futebol acho bobagem.

CACHORRO ENTERRADO VIVO – curta temporada no Teatro João Ceschiati do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537, Centro, BH/MG. fone: 3236-7400). De 9 a 12/3/2017. Quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 19h. Ingressos: R$ 30 e 15 (meia). Preparação corporal: Eliatrice Gischewski. Trilha sonora original: Márcio Monteiro. Cenário e figurino: Cícero Miranda. Criação de luz: Wladmir Medeiros. Técnico de luz: Daniel Hazan. Voz off: Bruna Chiaradia. Produção executiva: Eliatrice Gischewski. Produção: Marcelo Carrusca e Leonardo Fernandes. Texto: Daniela Pereira de Carvalho. Direção: Marcelo do Vale. Atuação: Leonardo Fernandes.

EU RE/COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ

Rodrigo Robleño é o convidado da vez das entrevistas do Blog da Cena.

Para quem já o conhece e para quem ainda não, melhor que ele mesmo se apresente.

Aos 12 anos, tive a sorte de conhecer as duas grandes paixões de minha vida: Teatro e Escotismo. Este ano, celebrando 50 anos de vida e 25 como palhaço Viralata do Brasil, dá uma vontade danada de relembrar minha trajetória. Fiz Teatro amador em Betim (onde também fundei um grupo escoteiro), aos 15 anos de idade. Depois cursei o T.U. (UFMG), onde conheci a técnica do clown, num curso de extensão. Aos poucos, me dediquei a isso.

Entre 1993 e 1995, passei o chapéu nas ruas da Espanha para sobreviver – e acabei aprendendo mais sobre o que é ser palhaço. Ao voltar ao Brasil, comecei a fazer intervenções e a oferecer cursos esporádicos sobre palhaço. Trabalhei com vários grupos de Belo Horizonte, trabalhei num programa de TV durante dois anos e, em 2006, entrei para o Cirque du Soleil, no espetáculo Varekai. Em 2010, voltei ao Brasil para continuar fazendo as coisas que mais gosto: ser palhaço, dar aulas, dirigir espetáculos.

Desde 2012, dirigi espetáculos de palhaços, de circo social, de teatro de rua e de teatro de bonecos. Ministrei vários cursos e criei o Projeto Uniclown, um projeto de palhaços ‘visitadores’, que atuam em hospitais e lares de idosos da Grande BH. Tenho participado de vários festivais pelo Brasil, dentre eles o Circovolante, em Mariana (MG), no qual fui homenageado em 2015, mesmo ano em que lancei um livro sobre a minha trajetória e sobre ser palhaço. Tenho participado ativamente das discussões sobre política cultural, participado de comissões, colegiados, seminários, congressos etc.

Sempre tenho alguns projetos engatilhados (que eu chamo de ‘sonhobjetivos’): criar um novo espetáculo para palco, dirigir um texto de minha autoria para teatro, criar o Museu Escoteiro, criar um Centro de Referência Para Palhaços e Palhaças, escrever um novo livro sobre a técnica do palhaço e celebrar este meio século entre amigos.
Como 2017 é um ano de celebração, espero fazer mais espetáculos, dar oficinas, comemorar trabalhando! Para saber da minha agenda ou comprar meu livro, vá ao site www.viralatadobrasil.com
Para conhecer mais vida, obra e cabeça do artista, leia a entrevista abaixo.
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Foto: Leo Lara

 Tantos anos depois, onde vc coloca a experiência do Soleil na sua trajetória pessoal e profissional? 

Trabalhei no Soleil entre 2006 e 2010 e tive bem pouco contato com a Companhia depois disso. Foi uma experiência única, maravilhosa, mas ela é apenas uma parte de minha carreira. Reconheço aspectos mais fundamentais em meu trabalho como palhaço, nas ruas, como professor de palhaçaria, como diretor de teatro.

A propósito, vc voltaria a fazer tudo o que fez com/pelo Soleil?

Gostaria de voltar ao Soleil se fosse para participar de um novo espetáculo e poder gravá-lo, registrar minha passagem por lá desta maneira, e criar algo diferente. É muito bom você poder viajar o mundo com seu trabalho. Ou seja, sim, eu voltaria.

O riso é um destino, uma vocação ou um aprendizado?

Por que não tudo isso? O riso tem ao menos dois lados a serem estudados, o ‘fazer rir’ e o ‘riso em si’. O riso chacoalha a gente, move e comove. Neste aspecto, ele é revolucionário, provocador, libertador. Já o ‘fazer rir’ é a combinação destes aspectos: aprendizado, vocação e destino, talvez até mais coisas. No meu caso, percebi uma vocação, por isso fui aprender. E quanto mais aprendia, mais percebia e decidia que este seria meu destino.

O que você aprendeu de mais importante até hoje sobre a arte do palhaço?

Que é um aprendizado permanente, que precisamos estar entregues, que é um árduo e delicioso ato artístico e social.

Explique para quem é leigo como é possível fazer rir sendo ou estando triste, às vezes muito triste.

É como sintonizar duas rádios diferentes. Uma toca música alegre e a outra, triste. Na pessoa, como são duas sintonias diferentes no mesmo rádio, elas não se chocam. E ser palhaço é sintonizar com outra maneira de olhar o mundo, que nos distancia de nosso cotidiano, ainda que continuemos o mesmo.

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Foto: Lincon Zarnietti

É fato que as pessoas vivem exigindo de quem faz rir ser bem humorado sempre?

Sim, parece que sim. Às vezes estou explicando algo sério para alguém e ele pede para repetir tudo porque estava esperando alguma piada. Mas a gente vai levando a vida assim, entre ser palhaço e ser humano, que não é a mesma coisa, mas é igual…

Voltando ao Soleil, o que pode haver de menos benéfico ao artista estar numa condição profissional bastante confortável?

É importante nunca se contentar com o sucesso. Eu descobri caminhos para não ‘cristalizar’, para não ‘automatizar’ minhas apresentações. Imagine, eram mais de 30 apresentações (de Varekai) por mês. Ao todo, fiz aproximadamente 1.500 apresentações. Então, devemos ter cuidado para que isso não nos torne uns morto-vivos em cena.

Se de repente vc perdesse tudo o que juntou e aprendeu até hoje, recomeçaria tudo, a fazer arte, a fazer rir ou não recomeçaria?

Se eu perdesse tudo, acredito que apenas daria o primeiro passo em alguma direção e, se isso me fizesse bem, daria o passo seguinte. Fosse em direção às artes ou a qualquer outro caminho.

Vc se imaginaria contente, feliz fazendo outra coisa completamente diferente do que já fez até aqui?

Com certeza, eu acredito muito nisso, que podemos transformar o que já fizemos em algo que nos dê prazer. Lembro de um trocador de ônibus, que se divertia trabalhando e fazia a todos os passageiros se sentirem felizes, mais bem humorados. Por outro lado, há de se lembrar que ser artista não é viver no paraíso, ele enfrenta muitas dificuldades também…

Em que medida o riso pode ou dever ser politicamente correto ou incorreto?

Na medida de seu tempo e lugar. O palhaço é um ser mutante, que se adapta a diferentes culturas (e microculturas) ao longo dos séculos, em diferentes países. Não podemos condenar o humor feito há 20 anos com os olhos de hoje. Hoje o humor passa por outros critérios, sofre outras ressalvas. Limites sempre existiram. Existem palhaços que foram decapitados pelo rei por terem falado algo que era politicamente incorreto naquele momento e lugar. Falaram algo que não devia e perderam a cabeça!

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Foto: Leo Lara

O que lhe faz pensar que está diante de um grande talento da palhaçaria, mesmo quando se trata de alguém desconhecido ou principiante?

O público, a conexão entre o palhaço e o público. Quando fui curador do FIT-BH, em 2006, eu tive a chance de recuperar para o Brasil o palhaço Biribinha, por exemplo. É um dos maiores palhaços do Brasil, mas estava esquecido. Ele comoveu a plateia e a mim.  Agora, há uns dois anos, vi alguns garotos porralocas dando seus primeiros passos na palhaçaria, a Cia. Pé de Cana. Eles também comoveram o público. Nestes dois exemplos, e em outros, o que vemos é que palhaço tem de ter uma conexão única com o público, a partir do riso. E não só por esse exemplo. Olhando a reação do público e as nossas próprias reações, a gente sabe quando está diante de um grande palhaço.

Ter conteúdo político torna o palhaço (ou comediante ou humorista) ainda mais importante ou nem sempre?

Não precisamos ter conteúdo político, principalmente porque o palhaço não tem compromisso com nada, nem consigo mesmo, nem com sua obra. A própria essência/existência do palhaço já é um forte conteúdo político. Claro, se eu puder usar o espaço midiático que tenho – graças à minha repercussão como artista – para colocar minhas posições políticas, vou usá-lo. Vou dizer: Fora Temer! Mas o palhaço já é ‘marginal’ por natureza, já é uma provocação política em si. Em sua maneira inusitada de ser e estar, o palhaço vem nos tocar em pontos de contestação e revolução, ele pode nos fazer ver que o mundo não tem tanta lógica assim, que as leis são estranhas, que a vida é menor do que deveria ser.

 

AQUILO QUE O JORNAL NÃO ALCANÇA

Lucianno Maza é o novo convidado das entrevistas do Blog da Cena. Carioca radicado em São Paulo, ele é dramaturgo, diretor, crítico e curador de teatro. Um multi talentoso já biografado pelo dicionário virtual https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucianno_Maza . O site oficial http://www.luciannomaza.com documenta seu trabalho.

Lançamento do Livro Kiwi

Lucianno Maza em São Paulo no lançamento do livro Kiwi de Daniel Danis com sua tradução em Novembro de 2016. Foto: Daniel Guimarães/Ritratto

Escreveu quinze textos, publicados em parte na Coleção Primeiras Obras (Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em organização de Ivam Cabral), indicada ao Prêmio Jabuti de Literatura de 2010, na categoria Arquitetura e Urbanismo, Fotografia, Comunicação e Artes. Uma coletânea de sua dramaturgia também foi lançada no volume intitulado Teatro (https://www.chiadoeditora.com/livraria/teatro), em Portugal e demais países de língua portuguesa, pela Chiado Editora, em 2015.

Já dirigiu 11 espetáculos. Destaques para a montagem do seu texto Carne Viva, em 2015, pelos 30 anos da Cia Tetro Estúdio Fontenova, em Portugal, sua estreia internacional; e para a seu mais recente trabalho, Kiwi. Criado a partir do texto do canadense Daniel Danis, obteve avaliação máxima da crítica da Folha de São Paulo e indicações aos prêmios São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem (FEMSA/Coca Cola) e Aplauso Brasil. Também dirigiu peças de Gabriela Mellão (A História Dela e Parasita), Fernando Ceylão (Quarto do Nada) e Zen Salles (Agridoce e 1,26, este, especialmente para a Internet).

Encenou diversas leituras dramatizadas de autores contemporâneos, como Alcides Nogueira, Walcyr Carrasco, Caesar Moura e Dionisio Neto, além de obras clássicas de Rainer Werner Fassbinder, Samuel Beckett, Paul Zindel e Sarah Kane.

Como crítico, manteve o site Caderno Teatral e frequentou os principais festivais de teatro do Brasil. Atuou como crítico interno em festivais de Itajaí (SC),  Juiz de Fora e Rio de Janeiro. Colaborou em diversos portais de notícias e para a Folha de São Paulo.

Como curador artístico, colaborou para renomadas instituições como o SESI Paraná, a Secretaria Municipal de Cultura de Curitiba e a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Foi curador da Mostra Especial do Festival de Teatro Cidade do Rio de Janeiro e jurado do Festival de Teatro Cidade de São Paulo. Criou o projeto Drama Tempo, no Rio de Janeiro, no qual 60 peças contemporâneas brasileiras tiveram leitura dramatizada, mobilizando cerca de 250 artistas em dois anos de programação. Também integrou o DLIP – Portal de Dramaturgia da Língua Portuguesa, do Festival de Teatro da Língua Portuguesa, com apoio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Nele, participou do II Encontros Culturais, ao selecionar dez autores da nova dramaturgia brasileira e mediar um debate com encenadores do Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Portugal.

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Lucas Lentini e Rita Batata em cena do espetáculo Kiwi dirigido por Lucianno Maza em 2016. Foto: Bob Sousa

O teatro que vc vê no Brasil te anima, inspira, comove ou passa longe disso?
O teatro brasileiro me comove em sua resistência, me inspira em suas expressões e me anima em suas conquistas. Todos nós sabemos o quão difícil é fazer arte e valorizar a cultura em nosso país – sobretudo em dias como os que correm. Ainda assim, seguimos com qualidades criativas, superando as dificuldades com inventividade. É impressionante que num contexto tão duro como o nosso, tenhamos atores, dramaturgos, diretores, cenógrafos etc. tão bons. Devemos nos orgulhar de nossa produção.
Quando vc diria que um criador em qualquer arte deveria pensar seriamente em parar?
Naquele momento que ele próprio acreditar que não tem nada a dizer, em que nada o estimula verdadeiramente a criar. Sem esse desejo, sem essa necessidade, melhor parar. Mas se uma ideia o acordar, que volte!
O que te estimula a prosseguir no ambiente teatral, apesar dos tempos tão difíceis para quem lida com artes no país?
A necessidade. Eu não acordei e pensei: “vou fazer teatro”. É uma necessidade. Faço teatro para aplacar esse desejo: de me expressar pelo canal que conheço e me interesso.
Entre o “salve-se quem puder” iminente e um governo que bancasse rigorosamente todas as tentativas de fazer arte no país, o que seria justo e possível em termos de política cultural do governo?
Seria incrível se existissem meios do governo bancar todas as tentativas de fazer arte no país. Mas é impossível, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Então, acredito que precisamos continuamente repensar as políticas públicas para a cultura, a fim de adaptar as ações às demandas de cada momento histórico. Hoje me parece justa uma maior clareza nas políticas que se destinam a grupos e artistas que não tiveram oportunidades anteriores e outras voltadas a quem tem uma trajetória antecessora. Além disso, considero importante que comissões e curadorias de prêmios, editais e fomentos públicos tenham uma maior rotatividade e diversidade em suas constituições.
Curiosidade: a escassez de talento é irrecuperável ou também se pode aprender, como em outros ofícios?
Não existe talento que resista sem aprendizado. Então acredito, sim, que vocação, estudo e dedicação são capazes de trazer a tona talentos inesperados.
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Cena de Kiwi dirigido por Lucianno Maza em 2016. Foto: Bob Sousa

Com Kiwi vc tem vivido as alegrias de um espetáculo bem recebido por público e crítica, indicado a prêmios importantes, depois de um longo tempo sem trabalhos concretos. Esta é mais uma realidade inerente ao teatro e aos artistas ou outra consequência da realidade oscilante de quem vive no Brasil, da mão de obra de qualquer área?

Sem dúvida a situação do artista tem suas especificidades, como a ausência de longos contratos ou da relação trabalhista convencional. Então acredito que a instabilidade a que você se refere atinge não só a mim como a esmagadora maioria dos profissionais das artes. No geral, sem outros trabalhos, mesmo que dentro da área (como no ensino ou no setor administrativo) o artista está sempre à margem e enfrentará dificuldades como o desemprego cíclico e a consequente falta de crédito financeiro que o afetará em várias esferas. Tudo se torna ainda mais complicado dentro da atual realidade, onde até profissionais de áreas antes tidas como “seguras” encontram-se agora, em meio a crise, em situação de vulnerabilidade.
O que o diretor ensinou de muito importante ao crítico e dramaturgo que vc também é, ou vice-versa?
A dramaturgia e direção foram fundamentais para a formação da minha crítica: a compreensão interna dos mecanismos que operam o teatro criativamente e tecnicamente. Aprendi a ser crítico como artista e tento nunca me distanciar da horizontalidade que esta condição me proporciona no diálogo com meus colegas. Já meu trabalho como crítico me permitiu colocar em reflexão minhas escolhas como artista e não me permitir ser auto-indulgente.
Vc diria que existe algum tema ou objeto de pesquisa ainda injustamente estudado ou visitado pelo teatro brasileiro?
Felizmente existem muitos! Os temas são inesgotáveis, porque um olhar novo pode revelar uma experiência completamente inédita com algo. Acho que o teatro poderia ser um pouco mais rápido no retrato factual, por exemplo, mas as dificuldades de produção exigem um tempo longo para que algo chegue aos palcos.
Que importância vc dispensa ao teatro que privilegia as questões relativas aos gêneros, aos preconceitos, às minorias, aos tabus de natureza moral etc. tão exercitados nos últimos anos?
Importância total! Estas questões todas são as minhas questões. E – ao menos uma que seja – de absolutamente todos nós!
Vc concorda com quem sentencia que o chamado “teatrão” está morto e/ou que o teatro que promove experiências de linguagem sempre seria de suma importância?
Um país só tem bom teatro quando tem teatro de todos os tipos. É de uma arrogância sem fim achar que só um caminho é correto. Naturalmente, cada um tem seus gostos e preferências, mas não dá para dizer que algo está morto só por não admirarmos ou acreditarmos naquilo. Porque há quem acredite e assim o faz vivo. Da mesma forma, não é apenas uma estética ou gênero que fará automaticamente algo importante ou não.
Vc diria que quais interrogações e certezas poderiam nortear quem pretenda fazer arte de qualidade, comprometida com seu tempo e com seus espectadores?
O que me parece indispensável mesmo é o desejo, a necessidade. Sede. Com isto, se buscarão, encontrarão e perderão as certezas e, pelo caminho, novas interrogações.
Em que medida o teatro pode colaborar nesta realidade de abuso e abandono de crianças e jovens no país?
O teatro atinge o público por outros meios, com poesia, analogia etc., alcançando lugares que a notícia de jornal não chega. Então, as pessoas acabam se relacionando com os temas de outras formas e esta experiência resulta em reflexão e transformação do indivíduo que forma o coletivo.
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Cena de Kiwi dirigido por Lucianno Maza em 2016. Foto: Bob Sousa

Quanto vc julgava ser necessário para montar um espetáculo antes de levantar Kiwi?
Já fiz peças sem nenhum centavo e outras com orçamento de meio milhão – dois extremos na minha carreira. Acreditava antes, e ainda mais agora com Kiwi, que não é o quanto um espetáculo possui que define sua qualidade… Mas que seria bom termos mais dinheiro para respirar, sem dúvida, seria!
Pra encerrar, os chamados grandes festivais do país ainda cumprem papel fundamental para quem ainda pretende fazer um teatro potente e interessante hoje ou já não são mais parâmetros definitivos para o que é importante e avançado?
Qualquer bom festival estará ligado à noção clara de uma curadoria de recorte e aprofundamento dentro do mesmo, então é impossível que reflita a enorme diversidade de produção. Dessa forma, um festival com sua projeção e as relações que dentro dele se criam é um instrumento poderoso para amplificar o alcance de uma obra. São veículos importantíssimos, mas não devem ser tidos como parâmetros pois, como disse, representam apenas um recorte de nosso teatro.

A DÁDIVA DA INQUIETAÇÃO, AOS 25

Talvez seja desnecessário apresentar Rita Clemente, atriz, diretora e dramaturga de destacados trabalhos no teatro e na TV. Indicada aos prêmios Shell e Qualidade Brasil da temporada teatral paulista de 2008 pela direção de Amores Surdos (do grupo Espanca!), também elaborou e dirigiu Dias Felizes, de Samuel Beckett (indicado em cinco categorias do Prêmio Questão de Crítica/RJ) e dirigiu uma porção de outros espetáculos importantes na cena mineira nos últimos anos. Exemplos de Delírio e Vertigem (do Oficinão Galpão Cine Horto), Dias de Verão (do coletivo O Clube), Nesta Data Querida (da Cia. Luna Lunera), O Rinoceronte (do Cefar), dentre outros. Muitos outros.

Além dos notáveis trabalhos citados, seus 25 anos de atividades artísticas estão sendo homenageados no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte – CCBB BH, que desde 21/10 coloca em cartaz quatro trabalhos com sua assinatura: Amanda, Matinê, 19:45!,  …Ricochete!. Um a cada semana. É hora de conferir …Ricochete!, que estreia dia 10/11, e segue em curta temporada até segunda, 14/11, finalizando a mostra comemorativa.

É uma estreia nacional. Nela, Rita assina direção, dramaturgia, cenário, figurinos e está em cena com Ramon Brant e Márcio Monteiro, parceiro constante em alguns dos seus últimos trabalhos. Dura 55 minutos e, em termos dramatúrgicos, mantém parentesco com 19:45! ao frisar o quanto o acaso pode precipitar situações importantes, mesmo definitivas nas vidas dos seus personagens. A Mostra mobiliza 25 artistas da cena local: dois novos diretores, 11 atores recém-formados, seis atores e mais cinco criadores mais experimentados.

Abaixo, Rita fala em entrevista por email sobre teatro, artes, criação, resistência política etc etc, entre outros assuntos. Não perca!!

Quando e onde o teatro (e o seu teatro) lhe parece mais importante, possuir mais virtudes?

O que me move é o desejo: o desejo de inventar, o desejo de me ligar ligar à vida e às pessoas através do trabalho de criação… Minha profissão, e a forma como lido com ela, estão intimamente ligadas às questões existenciais que me acompanham desde sempre.

Que colaborações importantes o teatro poderia propor à redefinição de um país melhor, de uma sociedade mais plural, mais aberta inclusive às variadas realidade, a outros desejos, a mais configurações de gênero?

O teatro é uma plataforma de criação e é absolutamente democrática. Cabe a cada artista identificar-se ou não com causas sociais, políticas, estéticas e existenciais, todas elas com seu grau de importância. O teatro é uma plataforma de criação, usá-lo como ferramenta ideológica é uma escolha, mas não é obrigatório e não resulta necessariamente em bem comum ou em arte. Há quem faça tudo isso junto, sem querer virar herói de nada, e eu gosto. Há quem tenha a criação como ideologia, este é o meu caso. Se eu tiver de falar alguma coisa panfletária em uma obra vou falar, mas não será, com certeza, para convencer ninguém a votar ou a não votar… Hoje vejo ficção como o mais potente dos universos ideológicos.

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Rita Clemente em foto de Paulo Maffei

Como vc se situou em relação à onda de repúdio aos artistas por parte de setores do governo Temer? está segura que a classe não é composta por preguiçosos, bajuladores e oportunistas dos cofres públicos? 

Há gente de todo tipo, em todas as áreas, em todas as funções e até na família de cada um de nós. O julgamento generalizado, sem provas, a condenação compulsória que atinge a todos, sem discriminação, costuma ser tão injusta e criminosa quanto os jogos de poder de usurpadores da coisa pública. Temos que aprender a ler, nem tudo é o que parece. De toda forma, Fora Temer!, com toda certeza.

As tensões e discussões políticas recém-vividas no país merecem mais espaço no teatro ou estariam mais bem contempladas nas redes sociais, por exemplo? 
Acho que estão bem contempladas nas redes sociais e podem mais. Podem sair das redes sociais, pois deveriam ir para as plataformas de criação como ferramenta política e fundamentalmente fazer parte do dia a dia: na hora de ir na padaria, na hora de lidar com o colega de trabalho, na hora de fazer uma curadoria isenta e justa, na hora de aprovar um projeto com isenção partidária, no trânsito, nas relações pessoais… Quer dizer, não adianta só falar, né? O que mais tem é hipocrisia! Sim, falar já é um primeiro caminho que nosso jovem país está aprendendo aos poucos, aos trancos e barrancos. Dar voz e ter voz são fundamentais para avançar, mas me interessa o dia a dia! O segundo passo vai ser ainda mais lindo: saber ler e ouvir!!! A gente tem que aprender a interpretar o post do Facebook, conseguir enxergar o equívoco no pensamento extremista que, generalizador, se esquece, irresponsavelmente, que somos ‘diferença’. A ideia generalizadora de igualdade, por exemplo, é injusta e não contempla o bem comum. Enfim, há tanto para caminharmos, não é?
A classe artística já teria superado a noção, tão difundida após a ditadura militar, que o teatro de ambições políticas seria um gênero datado, esteticamente limitado, artisticamente menor? ou a classe teatral deveria confrontar-se ao golpe e à crise que se esboça no país, inclusive nos palcos? 
Acho que a um artista não cabe o julgamento da arte: talvez a quase ninguém caberia. Tenho pela arte e por quem se propõe a fazer arte um respeito imenso. Então não vejo como dizer que isto ou aquilo é menor ou maior. Não dá! No meu caso, me interesso fundamentalmente pela plataforma de criação e vejo na inventividade uma ferramenta transformadora por si só. Mas transformadora do quê? Sempre vem a pergunta: Quem quer transformar quem ou o quê? Eu gostaria de uma sociedade mais inteligente, criativa, respeitosa e profundamente libertadora, em que fosse possível coexistir com um grau mais elevado de satisfação, respeito e prazer. Mas meus critérios de felicidade e justiça não são mais importantes do que os de outras pessoas: do empresário, do professor, do vendedor, do mecânico, do médico… O bem comum não pode ser determinado por uma classe apenas. Existem questões sócio políticas importantes e graves, no momento, mas existem questões humanas anteriores, arquetípicas e que ainda são muito graves, neste momento: respeito, preconceito, mau caratismo de toda ordem.. Talvez sejam essas questões, as humanas, que movem meu interesse político, mas não me imagino panfletando em cena. Me interessa salvaguardar o ‘lugar’ da arte como plataforma de criação e liberdade, e em nada moralizante. Se abrirmos mão da ‘metafísica”, perdemos, todos!
Nestes 25 anos, em que mudou o seu teatro, sua maneira de enxergar e fazer arte, o lugar que seu trabalho ocupa na sociedade? 
Ocupamos, todos, nossos lugares. Não somos heróis ou deuses. Este imaginário está na obra. A obra de arte tem sua alteridade e fala por si. Este é o lugar que eu quero: o de fazedora de artes, este é meu ofício. Não é o lugar mais importante de toda a sociedade, mas é tão importante quanto qualquer outro.

Vc considera suficientemente compreendido o teatro que pratica? e se ele não fosse, estaria disposta a facilitaria o que pretende dizer para ter mais público?

Sou compreendida, sim. Quem não compreende está procurando entender o que não está ali e desnecessariamente se distrai em sua própria vaidade. Está preocupado, ou seja, está se ocupando da coisa errada na hora errada. E isso é um problema de quem se preocupa. Não precisamos fazer esforços demasiados para sermos compreendidos e nem o contrário. Não se ganha nada em querer parecer hermético. Meu trabalho muda, vai mudando comigo porque estou viva e muito inteira neste ofício. É tudo o que posso: oferecer minhas inteirezas. Sou só artista, ofereço ali minha obra. Como esteta tenho outros planos e pontos a apresentar e não me furto de expandir minha percepção para ser aceita, mas minha expansão inclui estabelecer contato, de alguma forma. Desejo que a plateia seja tocada, mas escolho como. Escolho tudo e quero levar para onde escolhi e não para o lugar que o espectador, supostamente, acha que deveria ir ou está acostumado a ir. Mas quero pactos criativos com a plateia. A presença das pessoas na sala de espetáculo me transforma e acho que estar ali já transforma um pouco as pessoas também. O teatro é poderoso, sim

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Márcio Monteiro, Ramon Brant e Rita em Ricochete. Noutra foto de Paulo Maffei.

Antônio Cícero, o filósofo e letrista, afirmou que o desejo pelo novo é indevido ao ambiente das artes porque o novo sempre é transitário, que os artistas deveriam perseguir o eterno. No caso, o gosto pelo novo também lhe mobiliza? caso sim, que importância o novo traria às artes? 

O novo é sempre bem vindo, a novidade, não. O novo pode estar em tudo, o ineditismo é apenas uma pretensão tola. A novidade é moda. Confunde-se, também, novo com jovem. Mas isso não é tão importante, não. A essa coisa de novo, prefiro o verbo inventar: inventar dá valor a tudo. Envolve tudo, amplia e não dá nome. Abre para a ação.

Vc investe em se reinventar ou sua linguagem, sua assinatura artísticas já estariam consolidados e lhe agradam como são? 

Sou inquieta, sim. Sou inquieta comigo e por causa disso mudo também caminhos no trabalho. Quando mudo , meu trabalho muda. Não há o que consolidar. O viver implica em ter a morte caminhando ao lado da gente e é muito bom porque nos lembra, a toda hora, de nossa vulnerabilidade. É bom ser vulnerável, não há o que consolidar, assim intimamente, honestamente. Espero que meu trabalho fale sobre isso, sobre os sentidos e sobre a falta de sentidos na vida, porque isso é o que me importa.

Transitar mais pelo eixo Rio/SP, sobretudo trabalhando, mexeu com alguma das convicções que vc já possuiu? 

Não há nada de tão diferente noutro estado, noutro país. Por entender que é sobre o ser humano a minha matéria de trabalho, então é sempre pela percepção mais refinada que me guio. Os modos de fazer são ‘culturais’, não necessariamente artísticos.

Vc avalia que os novos coletivos teatrais de BH mantiveram o caminho tão promissor que o Espanca! apontava ao surgir com tanto sucesso com Por Elise? 

Dirigi o Amores Surdos, que foi um sucesso, mas um sucesso naquela hora. O teatro se desfaz… É assim. Eu sou muito bem sucedida porque não fico buscando que alguma coisa vá me catapultar para ‘os píncaros da glória’. Gosto de processo, gosto de carreira, valorizo tudo o que fiz até agora e acho que é isso. Procuro ter muita clareza daquilo que realmente criei e não me escondo no sucesso de ninguém. Isso me dá uma paz, uma segurança! Segurança sobre meu caminho e a legitimidade do que faço!!!! Sobre os novos coletivos, acho que cada um tem a sua configuração. Alguns podem ter sido influenciados por um grupo ou outro, mas isso é natural. Olha, não sei muito. Vejo às vezes grupos de duas pessoas e até de uma pessoa só rs. Mas se dizem grupo e tal… Enfim, que seja, não entendo a lógica. Acho que vale a pena se arregimentar para realizar seus projetos artísticos, isso faz sentido. Não faz sentido é forçar a barra para virar grupo só pra ter visibilidade e entrar em projetos de lei. Oportunistas sempre serão assim e a legitimidade de um trabalho está na carreira e ali, na cena, querendo ou não. Não há nada de errado. E mais: as pessoas mudam, os grupos vão mudando, não é? Acho que sim.

Curiosidade: como vc reagiria a um hipotético convite para dirigir o Galpão: pronta e capaz ou insegura, ou não é um sonho que vc alimente especialmente, ao menos não por agora?

Não tenho nenhuma insegurança especial ou diferenciada. Dirigir ou atuar em qualquer grupo ou com qualquer profissional depende mais do projeto mesmo, das ideias, das propostas que ligam os profissionais. Tenho inseguranças diárias, que dizem respeito às escolhas que o cotidiano da criação vai nos impondo. É assim, inseguranças necessárias. Sobre o Galpão, tenho muito respeito e admiração, pois é uma trajetória de muito trabalho, em todos o sentidos. Eu fiquei impressionada com o Galpão em “Nós”. Impressionada com a obra. Bem impressionada e feliz em vê-los ali.

O ator Leonardo Fernandes lhe formulou esta pergunta: Rita, nesses 25 anos de teatro, tem alguma coisa que você não fez e que gostaria de ter feito ou tempo não permite mais? O que são os anos para uma atriz? 

Para um ator (atriz) a idade pode ser uma dádiva, pra mim é. Estou onde quero estar. Assim de relance não me lembro de nada que estivesse no plano do não realizável. Algumas coisas foram deixadas pelo caminho, mas são tantas, tantas e por serem tantas ficaram assim, meio desimportantes. Deixaria de feito ter algumas coisas, escolheria melhor os parceiros, talvez, mas há perdas maravilhosas: o tempo não me permite mais passar por cima dos meus mais legítimos desejos. Deixei para trás ilusões sobre mim mesma e não as quero de volta, então o que me interessa é só aquilo que me diz respeito.

O que lhe parece mais interessante neste instante: trabalhar mais, ocupar mais frentes e espaços, ou trabalhar menos, depurar melhor o que pretende frisar? 

Ahhhh, depurar, depurar, depurar,  depurar. Com certeza.

A propósito, que tendências o teatro experimentou nos últimos anos lhe soam mais férteis, interessantes? 

Há uma realidade bem instigante que podemos chamar de tendência contemporânea, ou melhor, atual: a dramaturgia experimentada de forma mais aberta, contaminada pelo processo. Muitos autores vão surgindo, são autores da cena. Dramaturgia do espaço, do gesto, do texto, da linguagem teatral propriamente. Atores e diretores como dramaturgos e autores de textos redimensionando também a linguagem literária. Lindo momento!

…RICOCHETE! – Dramaturgia, direção, cenário e figurinos: Rita Clemente. Assistente de direção e fotos: Paulo Maffei. Com Márcio Monteiro, Ramon Brant e Rita Clemente. Assistente de cenografia e figurinos: Mônica Andrade. Visagismo: Gabriela Dominguez. Preparação corporal: Cristiano Reis. Trilha sonora: Márcio Monteiro. Criação de luz: Leonardo Pavanello e Paulo Maffei. Classificação etária: 14 anos. No Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte/CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). De 10 a 14 de novembro de 2016. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Informações CCBB BH: (31) 3431-9503.

UM VIGILANTE (QUASE) INCANSÁVEL

Agora em setembro, só a análise de “My Fair Lady” publicada no blog Crítica Teatral teve 3.500 acessos em menos de 24 horas!! São números muito impressionantes mesmo para um ambiente tão agigantado da web principalmente se pensarmos que eles são números relativos a teatro e a uma crítica de SETE PÁGINAS que, ainda assim, teve 19 compartilhamentos, no mesmo período, no Facebook, onde é quase uma heresia escrever mais de um parágrafo.

É o que Rodrigo Monteiro chama de sucesso. Ele já publicou avaliações de mais de 1000 (mil!) espetáculos, majoritariamente em cartaz no Rio de Janeiro: pouco mais de 100 neste ano e 198 em 2013!! Seu blog (http://teatrorj.blogspot.com.br/) já somou quase um milhão de visualizações.

Portanto, é o que se pode chamar de um crítico atuante, um vigilante (quase) incansável da cena teatral brasileira. Talvez nem Bárbara Heliodora, sinônimo da crítica durante  décadas, conseguiu ser tão assídua, tão presente. Isso não é pouco!!

Gaúcho radicado no Rio, licenciado em Letras, bacharel em Comunicação Social, mestre em Artes Cênicas, além de crítico, Rodrigo é professor de História do Teatro na faculdade Senai CETIQT/RJ. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012, e doutorando em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro desde o último verão, ele pesquisa  o teatro espanhol do século XVII.

Ciente do papel importante que cumpre na cena teatral, Rodrigo recém instituiu o que chama de “primeira aventura dramatúrgica”, convocando quem escreve a submeter seus inéditos ao vivo, em tempo real, no Facebook. “Vou dar o desafio e as regras e cada um vai ter um tempo pra trabalhar. Depois faremos as análises juntos. A participação é gratuita. Só precisa de disponibilidade.” A primeira experiência foi dia 14/10, a partir das 13h. Fique atento às próximas aventuras em https://www.facebook.com/rodrigo.monteiro
Vocês já perceberam que Rodrigo Monteiro é o nosso entrevistado de hoje? Aproveitem!
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Rodrigo Monteiro em visita às obras de restauração do Teatro Riachuelo, na Cinelândia, Rio de Janeiro, em julho de 2016. (foto: arquivo pessoal)

Que procedimentos uma crítica deve adotar para colaborar mais na dimensão artística de uma obra ou na contextualização do tempo (e dos seus pertences) em que ela se insere?

Nenhum procedimento. Quem a escreve e quem a lê, no entanto, devem ter em mente que toda crítica é sempre escrita a partir do ponto de vista de quem a elaborou e esse por sobre um dia de apresentação de um espetáculo (que, sendo teatral, é perene e irrepetível). Por mais que pareça ser uma avaliação absoluta, ela é sempre subjetiva e isso não lhe tira o brilho. Sobre essa questão do brilho da crítica, vale talvez refletir sobre o antes e o depois da internet. Antigamente, havia pessoas legitimadas por jornais a darem a sua opinião sobre teatro. Com o advento da internet e das redes sociais, os jornais perderam espaço para a mídia espontânea e, consequentemente, a crítica de arte teve (e tem) seu espaço (cada vez mais) reduzido. Mas veja bem, o que diminuiu, dos anos 90 pra cá, foi a legitimação ou a existência de críticos legitimados pelos editores de jornais e não a crítica teatral e muito menos a participação de críticos legítimos. Hoje em dia, muita gente escreve sobre teatro, compartilha suas opiniões na rede. E quem lhes outorga o mérito disso é o público que lê e compartilha. Quem dá o brilho a uma crítica não é quem autoriza o crítico a publicar a sua opinião, pois todo mundo tem essa autorização livre. Quem faz isso é o público leitor. Por isso, o caráter subjetivo da crítica, penso eu, ficou mais notório e o texto, assim, menos pretensamente absoluto. E isso é bom, né?

A crítica deveria priorizar o diálogo com o ambiente artístico ou o leitor/espectador?

Sendo a crítica uma resposta ao espetáculo visto, ela é parte do diálogo inevitavelmente. Há críticas que se estruturam mais sobre o espetáculo, outras sobre o processo que o gerou, mas é sempre parte dessa conversa entre a obra (e os contextos de sua realização) e o público (do qual o crítico faz parte).

A seleção brasileira já teve um técnico (muito respeitado, por sinal, inclusive pela visão e pelos métodos avançados), Cláudio Coutinho, que nunca havia jogado futebol. Você o considera um caso extraordinário e acha que os críticos também deveriam ter alguma formação teatral ou não lhe parece tão importante assim ter alguma aproximação com o ambiente teatral antes de se tornar um analista?

Em primeiro lugar, a crítica não é privilégio desse ou daquele profissional, mas um gesto permitido a qualquer pessoa que assiste ao espetáculo e se sente motivado a ir além do aplauso, procurando entendê-lo. Uma análise de vinte páginas é uma crítica, um comentário de duas linhas no Facebook ou simplesmente a cotação de cinco estrelas também. A qualidade de uma crítica, por outro lado, é medida a partir de uma série de critérios e a formação de quem a escreve é um deles. Eu acredito que uma pessoa que tenha formação em teatro e já o tenha experimentado de uma maneira mais íntima desperte sobre o leitor de sua crítica maior confiabilidade.

Ter amigos e/ou admirar alguns dentre os artistas que se analisa pode interferir na parcialidade do crítico e do que ele escreve?

Influencia, sim, mas eu procuro valorizar, porém, aqueles que se esforçam em separar, no quanto for possível, a vida pessoal da profissional, tentando ser um deles.0

Você já se arrependeu do que escreveu sobre algum espetáculo ou artista?

Não, não me arrependi, mas já mudei a minha opinião. É aquele exercício de, sendo leitor de mim mesmo, contextualizar a minha opinião. Como todo mundo, eu sou alguém atravessado por tudo aquilo que acontece. E me dou ao direito de me modificar e de me perdoar também. 

Vinicius de Moraes escreveu críticas de cinema muito singulares, abertas às subjetivações, mais próximas da poesia que da crítica que se praticava até então. E você, atribui mais valor aos textos críticos diferenciados dos demais ou aos que comentam com mais pertinência no que se debruçam?

Não sei se entendi a pergunta, mas talvez haja nela um convite à reflexão sobre críticas mais poéticas e outras mais frias. Eu escrevo crítica teatral há oito anos. Nesse período, já fui mais poético (tentando criar um gênero textual para cada tipo de espetáculo), mais subjetivo (compartilhando minhas memórias pessoais como contextualização do argumento) e mais objetivo (em um esforço de apagar as marcas do eu). Para mim, o terceiro modo de fazer é mais fácil de escrever e mais interessante também de ler. (As outras duas me soam mais egóicas.) Por isso, a valorizo em relação às outras.

Ao escrever sobre um espetáculo, algum dos elementos da encenação lhe parece mais importante que outros?

Sim, a dramaturgia. Quando falo em dramaturgia, não penso apenas no texto que talvez tenha sido escrito antes da encenação, mas no modo como o espetáculo se dá a ver como um todo para o público. Isso porque eu escrevo depois da peça ter terminado e, nesse sentido, elaboro uma avaliação a partir da impressão que eu tive do todo em direção às partes e não das partes em direção ao todo. Ou seja, eu penso: de que modo a luz contribui para o todo? De que maneira os diálogos participam da construção do sentido da peça? De que jeito a trilha colabora? Em segundo lugar, depois da dramaturgia, me chama a atenção na análise a interpretação dos atores, porque é aí que está o teatro propriamente dito (um homem diante de outro tornando algo teatral). Sobre essa questão, talvez vale citar o conceito de signo teatral. A pintura tem as cores e as formas; a música tem os sons e a melodia; o cinema tem a imagem em movimento; a culinária tem o sabor; a moda, o vestuário, etc. O teatro não tem nenhum signo que seja unicamente seu. Tudo pode ser tornado teatral. E quem torna? O ator diante do público. Por isso, as interpretações vêm, para mim, imediatamente depois da análise do espetáculo como uma obra completa.

Você imagina algum caminho que fizesse a crítica avançar, ser mais importante e oportuna?

Acho que quanto mais as pessoas exercitarem o hábito de ler e pensar sobre o que estão lendo, melhor vão conseguir se afastar do que é mal escrito ou superficialmente desenvolvido e, nesse sentido, mais haverá valorização de quem se dedica a uma reflexão mais profunda. Ou seja, o futuro da crítica passa inevitavelmente por quem a consome. Em um mundo em que as pessoas compartilham links que não leram, espalhando lixo, um fazer mais intelectual fica comprometido, infelizmente.

Silvero Pereira afirmou, aqui em BH, que 98% do teatro que se pratica em Fortaleza trata os gays de modo jocoso, desrespeitoso, sem humanizá-los. E que, neste aspecto, o teatro teria uma dívida muito grande com as minorias. Que lhe parece esta afirmação?

Acho vaga. A sociedade tem uma dívida com as minorias e o teatro faz parte da sociedade. Na história do mundo, o teatro sempre foi a última arte a se organizar enquanto produção sistematizada e a primeira a desaparecer. “BR-Trans” é um excelente espetáculo, mas seu sucesso não se pautou apenas nos seus méritos estéticos. Sua produção está envolvida por uma série de acontecimentos midiáticos que geraram o interesse do público por ele. Acho triste uma sociedade que trata os gays de forma jocosa e concordo que o teatro precisa aumentar a sua parte na transformação desse comportamento.

Você acha que o teatro deveria ter voz ativa na discussão política que sacode o país sobretudo nos últimos três anos?

Acho que tem. Se não tem uma voz mais alta, é porque o momento político que o Brasil vive, na minha opinião, não é muito claro. A hashtag #foratemer fez sucesso entre os artistas, mas a grande população não aderiu à causa. E é preciso entender a complexidade disso antes de refletir sobre a participação do teatro nesse contexto.

Que contribuições o teatro poderia oferecer na configuração do país somos, do país que projetamos e do país que poderemos construir?

Bueno, o conceito de país é muito pantanoso, sobretudo em se tratando de um Brasil enorme como o nosso. Acho que o teatro não deve perder a oportunidade de se conectar com o público, embora também não deva perder a chance de levá-lo a refletir. E, nessa linha tênue entre produções comerciais e mais investigativas, o teatro vai bem no Brasil, o que não quer dizer que não pode melhorar. No que diz respeito à academia e à crítica, valorizar as duas extremidades, e não apenas o centro, poderia contribuir.

Mudando o rumo da prosa, os grandes festivais colaboram em que medida com o teatro nacional? E, se você fosse curador de um deles, que personalidade artística gostaria de imprimir?

Os festivais colaboram na medida em que providenciam ao público a chance de entrar em contato com obras que não fazem parte de seu contexto, oferecendo-as como possível enriquecimento linguístico. Acho que o Brasil deveria se voltar mais para a América Latina, a África e o Oriente, lugares que historicamente são pouco valorizados por nossa cultura, que privilegiou sempre mais os Estados Unidos e a Europa. Em termos de nação, o Norte é a região mais esquecida e mereceria maior atenção. Não sei que personalidade artística eu imprimiria, sabe? Mas certamente seria alguém representativo dessas culturas pouco conhecidas e, graças a um evento como esse, teria a chance de vir pra cá e nós a chance de conhecê-lo.

 

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NÃO COSTUMO GOSTAR DE CARTILHAS

Atriz formada no Cefar/Palácio das Artes, em 2005, Cris Moreira atuou no teatro em “Festa de Casamento” (além de assistente de direção de Eid Ribeiro), “Cósmicas ou Quando Cosmo Lançou-se numa Viagem” (direção de Lenine Martins), “Quando o Peixe Salta” (direção de Rodrigo Campos e Fernando Mencarelli), “Suba na Vida” (direção de Rogério Araújo) e “Rosa Choque” (direção de Cida Falabella). Beth Néspoli comentou assim este admirável espetáculo sobre percepções de gênero.

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Foto: Daniel Protzner

Também atuou e dirigiu no cinema, colaborou na criação de performances, integrou comissões de seleção de espetáculos, produziu e coordenou projetos do C.A.S.A. (Centro de Arte Suspensa Armatux) e da Cia Luna Lunera. Fundou e integra o coletivo os conectores desde 2009, onde é atriz e produtora, ainda elabora e gerencia projetos.

Graduada no curso de Gestão de Organizações do Terceiro Setor (UEMG), é estudante de Ciências Sociais (UFMG). Além de valiosa no ambiente artístico, mantém voz distinta nas redes sociais: alguém que se pronuncia de maneira independente, lúcida e insubmissa. Uma personalidade ímpar e aguerrida, mas sem perder de vista o que são direitos da vida cidadã e a poesia que a vida jamais deixa de transbordar.

Por tudo, Cris Moreira é a nossa entrevistada da vez.

O Elvécio Guimarães morreu recentemente e vc o saudou como um mestre. Se anos de  escola nem sempre conseguem tornar alunos em bons atores, em que medida os  exemplos de um artista podem ser transformadores?

“Entendi que Elvécio foi meu mestre muito tempo depois de ter sido aluna dele. Quando eu era mais jovem, tinha certa dificuldade em aceitar modelos mais tradicionais como exemplo. Elvécio foi um ator incrível e um professor muito dedicado. Fazia questão de tentar passar todo seu aprendizado para seus alunos. Foi um grande mestre do texto e um grande exemplo de dedicação e crença no teatro. Sobre a transformação, eu admiro os atores, e os artistas em geral, por conhecer os obstáculos que enfrentam e ainda fazerem o que fazem. Obviamente, também admiro os bons atores, como Odilon Esteves, Camilo Lélis, Grace Passô, Marina Viana, dentre outros. Acho muito bonito e importante o trabalho técnico e sensível que eles desenvolvem. Porém, quando assisto a espetáculos não é a atuação o que mais me impressiona. É o discurso do artista, o que ele tem a me dizer com o seu trabalho, com a obra que desenvolve. Quando digo discurso não é necessariamente um teor político, mas sua relação com os parceiros de trabalho e com sua arte, sua posição no mundo, sua visão de mundo, sua entrega ao que acredita. Observo muitos artistas como formadores de opinião e isso está para além do palco. Acho que é dessa forma que se transforma o mundo, modificando suas próprias estruturas, no palco e fora dele.”

Vc consegue enxergar e mencionar suas deficiências como atriz e que  atitudes tomar para progredir ou só um outro olhar, de fora, saberia apontá-­los?

Nunca me considerei uma boa atriz, talvez porque sempre estive mais preocupada com o que gostaria de dizer ao público do que com a minha performance (e não que uma coisa não esteja relacionada à outra). Acho que posso apontar isso como uma deficiência, mas certamente não saberei todas. Meus companheiros de trabalho me situam de coisas que posso melhorar e tento ficar atenta a elas. Busco ouvir muito o Rogério (Araújo, ator e iluminador), meu companheiro e integrante dos conectores, o coletivo do qual faço parte. Ele tem mais experiência que eu nos palcos e um olhar incrível para a cena. Acho importante saber ouvir e exercitar essa escuta, por mais difícil que seja. O teatro tem a fama de ser um lugar de egos, mas acho que é também um lugar de encontros, escuta e crescimento. Além dos parceiros de trabalho, também acho muito importante estar atento ao que o público tem a dizer. Muitas vezes, a visão do público é mais certeira no que devemos melhorar e no que buscar atingir.

O teatro lhe parece capaz de mudar o mundo e as pessoas?

Acho que o teatro, somado a muitas outras coisas, pode ajudar o mundo a se tornar um lugar mais humano, pode contribuir para a sensibilidade e o senso crítico do espectador. Acho que o artista pode mudar o mundo (muitas dúvidas neste momento) quando ele propõe se mudar. Como lugar de afeto, a arte pode contribuir para mudanças nas relações de trabalho durante os processos de criação e para mudanças pessoais, e isso pode se desdobrar em uma obra que também afete o público. De outro ponto de vista, quando um espectador diz que ficou impactado com seu trabalho e irá rever conceitos e formas de agir, acho que isso já é uma mudança de mundo ou um caminho para alguma mudança.

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Foto:  Daniel Protzner

Vc escolheu o teatro pelo exercício da vaidade, por atrair pessoas interessantes ou pela hipótese de transformar o mundo?

Comecei a fazer teatro por acreditar em sua função social. Ainda no Cefar eu já queria fazer “teatro político”, embora eu não soubesse exatamente do que se tratava e acho que não sei até hoje. O meu caminho no teatro sempre foi com pessoas e em trabalhos nos quais eu acreditava. Minha primeira figuração foi no espetáculo “A cada dia nos alegramos de continuar vivendo e já estarmos mortos”, do Marcelo Gabriel, em 2001. Depois fiz figuração nos espetáculos “Livro de Jó” e “Apocalipse 1,11”, do Teatro da Vertigem/SP, e desde então tenho atuado em espetáculos com os quais me identifico, principalmente no conectores. Com certeza, além de acreditar na potência do teatro como questionador e provocador, o encontro com pessoas do teatro é maravilhoso. Tenho encontrado no teatro um espaço de muito afeto e potência discursiva. Isso, com certeza, contribui para o meu amadurecimento e ampliação da minha visão de mundo. Teatro é um lugar tanto para provocar o espectador quanto para se sentir provocado. Sinto que no teatro eu me permito mais às reflexões e às mudanças que elas proporcionam.

Num momento de grande necessidade vc venderia produtos ou ideologias que não admira? Ou seja, qual seu limite ético como artista?

Eu não gostaria, mas não digo que não. Acho que depende muito de qual tipo de necessidade estamos falando. Sou muito crítica, mas acho que a realidade pode romper ideologias. Não deixaria meu filho numa situação de necessidade extrema, por exemplo. Ao mesmo tempo, acredito que em nenhuma situação eu faria um espetáculo que contribuísse para a manutenção de preconceitos e violência contra minorias.

Que caminhos éticos e estéticos o teatro tomou nos últimos tempos que lhe parecem mais interessantes?

Posso falar mais sobre o teatro produzido em Belo Horizonte, o que acompanho mais. Acho que esteticamente temos uma variedade enorme de propostas: Primeira Campainha, Toda Deseo, Espanca!, Luna Lunera, Armatrux, Quatroloscinco, Trama, ZAP 18, dentre outras. Todas com estéticas e linguagens próprias, que buscam comunicações distintas com o espectador e formas muito diferentes de criação, do lugar da direção, da atuação etc. O que acho incrível é perceber que, apesar das diferenças, todos esses grupos se retroalimentam, dialogam, buscam entender os processos criativos do outro. Acredito que isso reverbere em todos os trabalhos e amplie possibilidades para próximos espetáculos ou projetos. Sobre os caminhos éticos, nos últimos anos tenho percebido uma politização muito forte nos artistas e grupos. Não que não houvesse antes, claro que havia, mas acho que isso se potencializou e atingiu mais grupos, seja na forma de se organizarem, seja no discurso de seus espetáculos; seja nos projetos que desenvolvem em suas sedes; seja nos processos colaborativos ou coletivos, cada vez mais abertos a parceiros e ao público, durante a criação dos espetáculos; seja nos projetos, que envolvem minorias e espaços de periferia ou marginalizados; seja nos espetáculos, com forte discurso também sobre minorias, sobre representatividade, sobre a história do país, dentre outros temas que perpassam claramente questões ideológicas. Tudo isso pode gerar uma ampla discussão, pois quem optar por fazer um espetáculo que contenha alguma forma de preconceito também estará adotando uma posição ideológica. Inclusive, ao perceber essa crescente produção de espetáculos com esse cunho, os conectores idealizaram a 1ª Mostra de Teatro e Direitos Humanos, realizada em agosto deste ano, em parceria com os queridos da ZAP 18.

Usei os termos “ideológico” e “político” por falta de opção melhor, que caracterize esse teatro engajado, questionador de uma estrutura social elitista, machista, homofóbica, sexista etc.

A propósito, que mundo vc sonha para o João, seu filho?

Gostaria muito que meu filho crescesse em um mundo mais tolerante, de mais entendimento e respeito ao outro, de mais amor. Tento realizar no teatro trabalhos que busquem esse mundo, que nos tornem mais humanos e menos alheios às necessidades do outro. Trabalhos que sejam potentes em seus discursos, mas também sensíveis e que pretendam gerar empatia no espectador e proponham reflexões sobre como a nossa sociedade está estruturada hoje e o que mantém essa estrutura desigual. Penso também que, para além de querer um mundo melhor para meu filho, eu gostaria muito de criar uma boa pessoa para o mundo. Como esse trabalho ainda não acabou, não posso dizer o resultado dessa tentativa, só que continuarei tentando.

Vc acha que o teatro que se pratica hoje no país é um gênero de primeira necessidade ao espectador ou é mais uma oferta do mercado de entretenimento?

Acho que temos as duas ofertas e não sou crítica a nenhuma das duas. Vejo o teatro, assim como as artes em geral, como um gênero de primeira necessidade. A arte como um fator importante de desenvolvimento humano, de potencialização do sensível, de humanização, de autocrítica e de auto reflexão. Acredito que a arte de entretenimento, que não prevê necessariamente um discurso engajado, em muitos casos é realizada com grande qualidade artística e deve continuar sendo realizada (desde que não seja propagadora nem mantenedora de preconceitos). No teatro, vejo espetáculos dessa oferta do entretenimento acessíveis a uma grande parte da população que não é frequentadora ou “entendedora” das artes, e que funcionam como formadores de público. Claro que esse assunto é mais complexo do que dá para colocar no papel. Temos grandes produtoras e grandes eventos que, infelizmente, contribuem para a formação de um público acostumado a apenas um tipo de espetáculo. Mas até nisso noto mudanças: vejo essas produtoras e eventos abrindo espaço para novas possibilidades e a outros tipos de teatro, dando assim mais opções para o espectador.

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Foto: Flávio Charchar

Laura Cardoso afirmou em entrevista que é dever de todo ator, de todo artista ser culto, instruído, informado, conhecer a natureza humana e a realidade do mundo. É uma afirmação que vc compartilharia?

Não costumo gostar de cartilhas. Acho que todo ator deve procurar o que é melhor para o seu trabalho, onde se sente mais à vontade, os parceiros com os quais gosta de compartilhar seus processos. Acredito que a busca pelo crescimento profissional e humano deve ser pessoal, única. O que serve para mim não necessariamente serve para o outro. No meu caso, penso que me informar, entender o contexto onde estou inserida, ver outros trabalhos, conhecer outros artistas, compartilhar o processo, é importante para realização de um trabalho mais maduro, mais consciente e empático. Estar aberto ao outro é sempre um aprendizado, mas não apontaria isso como algo que, necessariamente, deva ser seguido.

Como o setor público deveria se comportar em relação às demandas artísticas?

A cultura, claramente, não é uma prioridade nos programas de governo. Ainda é entendida como algo supérfluo, por isso há uma descontinuidade de políticas públicas para a cultura, um esvaziamento do sentido de alguns programas ou até mesmo sua extinção, principalmente os relacionados à arte e educação, como o BH Cidadania. Os mecanismos de financiamento, como as leis de incentivo, atendem a profissionais e grupos muito específicos, mais consolidados, com mais renome, o que não seria uma questão se a leis atendessem também a grupos iniciantes, a artistas com menos experiência, a projetos de pesquisa. A interferência da iniciativa privada nesse processo contribui para certa privatização do resultado final dos projetos, fazendo com que eles, muitas vezes, sejam realizados conforme as necessidades da empresa e não necessariamente do público. Acredito que a construção do pensamento sobre as políticas públicas não deve ignorar os grandes projetos, que necessitam e conseguem captação, como não deve ignorar os projetos que não têm caráter comercial. Como forma de solucionar essa priorização da iniciativa privada, existem os fundos e prêmios, que considero ideais para projetos que não geram lucro aos grupos e artistas, como a manutenção de espaços e grupos, montagens cênicas, residências, pesquisas e experimentações. Além das questões relacionadas às leis de incentivo, temos os festivais, que considero muito importantes para a formação de público e para a solidificação de um calendário cultural e artístico na cidade. Porém, não conseguem abarcar toda a oferta artística da cidade e não têm, obrigatoriamente,uma continuidade de pensamento, nem artístico, nem de gestão. Para além dos festivais e dos grandes eventos, a cidade necessita de políticas públicas continuadas, ações semanais, mensais, nos centros urbanos, nas periferias, nos centros culturais da prefeitura e nos demais espaços da Fundação Municipal de Cultura, nas sedes dos grupos de teatro – inclusive, acredito que elas deveriam receber algum incentivo fixo para sua manutenção, pois desenvolvem projetos de arte e educação nas comunidades, sendo responsáveis por uma demanda que deveria, prioritariamente, ser atendida pelo Estado.

Para realizar um programa de governo cultural próximo da realidade da cidade, a primeira ação dos responsáveis pela pasta da Cultura deveria ser convocar os artistas e a sociedade civil para uma reunião pública. Para entender as ofertas e as demandas da cidade, respeitando a diversidade e entendendo as necessidades e a realidade dos artistas e dos diversos públicos existentes.

Para encerrar, Cris respondeu assim ao pedido para se alongar sobre Rosa Choque:

É um espetáculo que amo fazer, tanto pelo tema quanto pelas pessoas que ele envolveu. Tenho imenso prazer em levar adiante a discussão da violência contra a mulher, através de uma obra artística, porque estamos, a cada vez que nos apresentamos (refere-se a Guilherme Théo, seu parceiro de cena), entendendo a potência crítica e sensível deste trabalho e aprendendo muito com o retorno do público.

Fazer um espetáculo que aborda esse tema é uma necessidade, tanto porque a violência contra a mulher é diária, crescente (ou mais aparente) e muito próxima de nós, quanto porque as mulheres precisam, cada vez mais, terem voz, se empoderarem e porque precisamos que a sociedade enxergue e não ignore as diversas formas de violência. Precisamos falar sobre isso, dialogar sobre isso, inclusive para a desconstrução do homem como ser privilegiado em nossa sociedade e para a nossa desconstrução nas relações que estabelecemos com nossos pais, irmãos, filhos, amigos. Para não nos calarmos, não nos subestimarmos nem aceitarmos estar em uma condição inferior. Para entendermos que estamos juntas e que a desconstrução e a reconstrução são coletivas.

Rosa Choque foi construído pelo Coletivo os conectores, através do Prêmio Cena-Espetáculo, do Galpão Cine Horto, em parceria com Cida Falabella, Marcos Coletta e Assis Benevenuto, e ainda contou com a participação da Raquel Pedras, Cata Preta, Daniel Nunes e Andreia Quaresma.

O INTERLOCUTOR DA BICHA OCA

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Rodolfo Lima esteve prestes a vir a Belo Horizonte mostrar seu teatro: Bicha Oca, um dos espetáculos que ele criou e mantém em carreira, foi limado da grade da última edição do FIT-BH no imbróglio da troca de curadores. Pena. Baseado na obra do pernambucano Marcelino Freire, a peça é no mínimo perturbadora. Despudorada e incendiária, mas sem perdas de teatralidade.

Paulista, 38 anos, ele é ator, dramaturgo e diretor. Responsável por trabalhos teatrais como Réquiem Para um Rapaz Triste e Todas as Horas do Fim, amparados na obra literária do gaúcho Caio Fernando Abreu; Cerimônia do Adeus, inspirado em diversas referências literárias; Desamador, baseado em crônicas do gaúcho Fabrício Carpinejar; e o citado Bicha Oca.

Como jornalista e crítico, mantém o blog http://www.escritossobreaausencia.wordpress.com, colaborou com diversos veículos de mídia on-line (Mix Brasil, Aplauso Brasil, Revista Bacantes, Gay Brasil, Guia Gay Brasil, entre outras), jornais e TV; debruçou-se sobre o Homoerotismo na Dramaturgia Nacional enquanto estudou Comunicação e pesquisa atualmente a Representatividade de Homossexuais nas Artes Cênicas como projeto de doutorado: também produziu em São Paulo o evento “Em Busca de um Teatro gay”, em que recebeu artistas e acadêmicos para discutir o assunto.

É um artista múltiplo e militante, portanto. Sem meias palavras como o teatro que concede vez e vozes às demandas LGBTIs, cada vez mais presente e reivindicativo. Em Minas e no país. Por tudo isso, convidamos Rodolfo para a entrevista publicada abaixo. Desfrutem.

O teatro ameniza a mensagem incômoda, como um salvo conduto àquilo que o público ainda não se julga preparado para ver e ouvir?
Creio que não, vide a polêmica envolvendo Silvero Pereira por sua personagem em BR Trans (em cartaz no CCBB-BH). Uma transexual acusou o ator de se apropriar de um papel e de um discurso que não lhe pertence. Isso abriu margem para duas questões: o empoderamento de um ator cis e o do teatro interpretado por transexuais e travestis. Entre esses polos há o trabalho do ator, que se apropria justamente de um discurso que pode não lhe pertencer na vida real. Algo similar ocorreu com o ator Eddie Redmayne , na época do lançamento do filme A Garota Dinamarquesa. O teatro ainda pode incendiar um assunto. Outro bom exemplo foi o que ocorreu com o dramaturgo Lucas Arantes, que escreveu Edifício London – no enredo, uma criança é jogada pela janela – e está sendo proibido e processado pela mãe de uma garota com uma história similar na vida real. Ou seja, as pessoas ainda temem o teatro.
O que se produz no teatro é suficiente para destacar a diversidade sexual ou ainda está aquém  que vemos na sociedade de hoje? 
Sempre haverá a turma do: isso não me representa. Ou seja, é um caminho sem linha de chegada. No caso da diversidade sexual, creio que acontecem dois fenômenos: ou a peça exalta a liberdade sexual, com nudez, referências sexuais em abundância, afetações, brilho, cultura pop etc ou a peça traz uma trama mais “limpa”, onde a sexualidade do(s) personagem(ns) não desencadeia a trama da história. Recentemente, numa leitura da peça Tem Alguém que nos Odeia,  de Michelle Ferreira, isso ficou bem nítido. Um casal de lésbicas se muda para um apartamento e supostamente são perseguidas. Supõe-se que é por causa da relação delas, mas o texto não diz isso, não aponta efetivamente um  caso de homofobia. A questão é: estaremos nós tão habituados ao preconceito que já o associamos de imediato? No final de leitura, a autora não assumiu um discurso panfletário e, de certa forma, desviou-se dele, disse não lhe ser interessante. Quando questionada (por mim, que ressaltei os poucos exemplos de peças sobre a homossexualidade feminina) quais seriam seus referenciais, ela resumiu: a vida. Ou seja, é legal a peça fugir do óbvio e ao mesmo tempo é uma pena ela não levantar a bandeira e assumir a peça como gay. É um dilema, creio que subjetivo e inevitável, não tem como correr dele.
O sexo explícito é recurso importante, até necessário à cena em quais ocasiões?
É difícil no teatro tal recurso. Mas cada vez mais se vê produções que ousam essa escolha. Os Satyros, um grupo de São Paulo, é um exemplo com a sua A Filosofia na Alcova, onde há um cena de sexo oral. Um dos atores também se masturba e aparece de pênis ereto. No universo do Marques de Sade isso pode ser crível, bem como no universo do grupo. Zé Celso e sua trupe ofereceram bons momentos de provocação assim. Se não me engano, numa das partes da epopeia dos Sertões, um dos atores também se masturbava. Em Cacilda, um ator gozava em cena. Ou seja, é preciso analisar o contexto. Mas é fato que o sexo, a nudez e as práticas sexuais estão banalizadas nas novas tecnologia. Daí me pergunto: de que forma o sexo choca ou acrescenta à história? ou como ele pode mudar o olhar do público, oferecer uma nova (re)leitura?  Eis uma possível questão.
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Alguma humanidade diria mais respeito aos gays que aos outros humanos?
Não. Até porque os gays estão inclusos, se é que posso dizer assim, em todas as “humanidades”, assim como os negros, os refugiados, os deficientes, as mulheres, as crianças etc. A questão é como os dilemas do humano vêm à tona. Claro que em peças de conteúdo gay há temas que são óbvios, previsíveis: preconceitos, desamor, deslocamento, solidão, violência. Mas seria burrice e reducionista tentar avançar com a causa LGBT em detrimento de outras causas.
Vc acha justificável em alguma circunstância que haja um teatro exclusivo para as diversidades sexuais ou ele sempre deverá estar aberto a todos os públicos, como se todas as questões humanas fizessem sentido profundo a todos?
Gosto quando o artista assume um lugar, escancara qual público ele quer alcançar. Acho importante quando revela seus sonhos, se expõe. Isso dá força ao artista, lhe credita verossimilhança, credibilidade e cumplicidade. O público abraça esse artista, pois a revelação tem como bônus encontrar aliados. Também apoio e prestigio festivais e mostras segmentadas. Sou contra aquele discurso “só veado pode falar de veado”, “só negro pode falar de negro”, “só mulher pode falar de mulher”, pois perdemos um olhar de fora, que pode problematizar questões de forma pungente e provocativa. As artes em geral são abertas a todos, independentemente de raça, cor, sexo e bla bla blá, mas sempre há um “mas”. Em alguns casos, para alguns recortes, acho importante a tal “exclusividade”. Ela mapeia, evidencia e atrai atenção.
Que vc diria a quem avalia que o teatro que menciona a existência de diversidade sexual também é importante, porque assinala a coabitação das diferenças, mesmo que reserve situações menos dignas a personagens não ajustados às normas?
Isso é uma questão que deveria ser levado em conta. Óbvio que Navalha na Carne, de Plínio Marcos, não é uma peça gay, mas pode ser lida por esse viés. E avaliadores mais quadrados jamais leriam a peça por esse ângulo, pois tentariam se aproximar do que o autor escreveu. Mas quem pode afirmar isso? Veludo é uma bicha pobre, solitária, que paga por sexo e o fato de roubar a grana da amiga reverbera em toda a ação da peça. Então não se pode ignorar a presença daquele homossexual. Embora a peça seja sobre uma relação heterossexual, sobre o trabalho que ambos exercem, o que seria da peça sem o roubo da bichinha-pobre-faxineira-solitária-que-paga-pelo-boy-e-ainda-fuma-maconha? Parece incorreto ressaltar a peça pela sexualidade dos personagens. Para mim é condição sine qua non, até porque valorizo esse lugar. Não tem como ignorar em alguns casos. Uma peça famosa de BH, Aquele Dois (da Cia Luna Lunera), é um bom exemplo. Dois funcionários flertam e se aproximam, num ambiente de escritório supostamente preconceituoso. O grupo teve medo de vender a peça como uma história gay, a mídia endossou esse lugar e a peça foi heteronormatizada. Mas o inicio, com os atores sem camisa já é homoerótico, já condiciona um olhar mais libidinoso, já nos puxa para um lugar que não é o da heteronormatividade. Agreste, de Newton Moreno, em função da encenação paulista de Márcio Aurélio, onde dois homens interpretaram as duas mulheres da peça, também não é considerada “gay” por algumas pessoas. Mas se uma delas é incendiada junto com a casa pela população local, justamente por viver com outra mulher e viver travestido de homem, como se furtar de uma avaliação que considere a peça um exemplo do amor entre duas mulheres?
O teatro precisa sempre avançar no que tange às questões morais, dar mais passos rumo ao que pareça mais digno a todos, ou também é defensável quando se vincula a um nicho comercial e se limita aos comportamentos que o grande público já digeriu?
Não sou contra o nicho comercial. Desde que a peça seja bem feita. “A vida secreta de Batman e Robin” é um mau exemplo de peça que se utiliza de um fetiche gay (a sexualidade dos heróis de quadrinho) para provocar risadas infames e plateias ávidas pelo deboche. Já o musical Priscilla, Rainha do Deserto é um acerto, e mesmo pegando carona no filme famoso se revelou um trabalho interessante e caprichado. Outro bom exemplo é o musical A Gaiola das Loucas, que trouxe um impagável Diogo Vilela como o personagem mais afeminado da trama. A peça não se furtava ao riso, pois ele está no contexto, mas o que Diogo fez ali é raro de se ver. Ou seja, em alguns casos viva o nicho comercial. Já em relação às questões morais, elas estão ai para serem questionadas né? então que haja sempre um campo de debate, seja ele qual for, para assuntos polêmicos.
Haveria algum limite desejável ao teatro que aborde temáticas LGBT, alguma espécie de autocensura?
Hoje, a censura é o preconceito e a covardia dos artistas. Cito um exemplo: em 2014 realizei um evento chamado Em Busca de um Teatro Gay e quis colher vídeos de peças com esta temática para montar um acervo – até porque minha tese acadêmica é sobre a intersecção teatro e homossexualidade. Entrei em contato com o autor da peça Norma, Tonio Carvalho, e ele se negou a ceder a filmagem da peça, e vê-la incluída numa lista de peças gays. Do que tratava a peça? Do encontro entre um homem e sua sogra, mãe do namorado que havia morrido. Claro que a peça não era sobre a vida sexual do casal, mas a mãe não aceitava a vida do filho, o genro e o embate vem dai, da dificuldade de aceitação. Como você me diz que essa questão não interessa ao mundo gay? Que merda de censura, de covardia é essa? Outro exemplo é uma peça que há anos está em cartaz chamada O Amante do meu Marido. Questionada, a produtora afirma que a peça não é gay. Oi? Pode não ser gay, mas se apropria de uma situação bem gay: o marido que supostamente trai a mulher com um homem. Nela, a sexualidade é usada como fetiche para uma série de piadas. Mas se a suposta “viadagem” dos personagens não é importante, porque os personagem são gays? Acho que o trabalho precisa ser sincero, assumir os riscos da ambiguidade é um limite aceitável.
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Com quais censuras externas um teatro abertamente tolerante ao mundo gay como o seu costuma se defrontar? O fato de Bicha Oca ter sido excluída da programação do FIT-BH é mais comum que um fato isolado e explicável?
Acho comum. Ela foi recusada no FIT, no FILO, no FIAC, por exemplo, e inclusive por festivais setorizados, como o Mix Brasil e instituições como uma das unidades do SESC (do interior de São Paulo), que acharam o trabalho forte demais. Entendo que talvez a falta de reconhecimento nacional, de não ser um trabalho de grupo, de pesquisa, inibe a aceitação do trabalho. Há um preconceito com o título  (Bicha Oca) com a temática (gays velhos) e com a nudez. Tudo junto numa peça que é crua e direta, sem um filtro para isolar o mundo real do ficcional. É uma ousadia necessária que encontra poucos aliados. Em Filosofia na Alcova (do Satyros) uma cena de sexo oral ocorre afastada do olhar do público e de forma obscura, com pouca luz, fumaça etc. Ou seja, talvez assim seja mais palatável. Entendo que a curadoria busca uma unidade, quer público, precisa de peças com reconhecimento, com artistas conceituados etc Mas se o curador não sabe averiguar o que pode haver de novo nos inscritos, sua função cai por terra. E é o que ocorre na maioria das vezes. Foi o que supostamente ocorreu no FIT-BH. Então, em nome de que teatro a Bicha Oca é recusada? Do bom mocismo? Se é uma nudez de um grupo/artista famoso pode, e se não for assim, não pode? A polêmica da performance Macaquinhos é um bom exemplo do quanto pode ser deturpada e supervalorizada uma ação que se nutre do discurso sexual. Olhar o ânus um do outro não é digestivo, mas ficar vendo isso repetidamente mais de 10 minutos também não acrescenta. Pois ou você quer tirar a roupa e entrar, ou se entedia e vai embora. Dai presumo, o sexo é um tédio quando não te excita, quando não nos interessa ver, quando não nos comove. Olha a complexidade!!! Bicha Oca ganhou um edital LGBT no estado de SP, que possibilitou circular por sete cidades. Em Cubatão, foi destaque num jornal, com a palavra BICHA na capa. Um amigo, Ferdinando Martins, comentou: “é uma capa histórica”. Se você pensar melhor, faz sentido, pois a palavra bicha não está ali de forma pejorativa, para rechaçar parte da população, e sim para reverenciar um conteúdo artístico. Foi uma conquista, mesmo que a custa de conhecidos e com pouca reverberação.
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Quais lhe parecem as demandas mais urgentes da comunidade LGBT brasileira hoje? A quais demandas o seu teatro estaria mais voltado?
Creio que as demandas sejam pelos direitos civis que igualem os integrantes da sigla à galera inclusa na heteronormatividade. Não sei a que demandas  específicas o “meu” teatro estaria voltado, acho muito presunçoso fazer uma análise do meu trabalho, supor que ele modifica algo no olhar sobre a comunidade gay. Mas posso ressaltar as observações que colho durante as apresentações. A Bicha Oca muda o olhar do espectador sobre a nudez, o sexo, as relações intergeracionais e o afeto nosso de cada dia. As pessoas se identificam com seu Alceu, um gay envelhecido, solitário, que conta sua história ao público, rememora suas frustrações, seus amores perdidos, os hábitos de antigamente. Conseguir com que o público se veja espelhado ali não é pouco. Talvez seja um ganho do trabalho transformar o olhar sobre questões dos homossexuais de quem o assiste, pessoa a pessoa. Principalmente os mais velhos e os que não estão “vendáveis” na vitrine dos corpos gays aceitáveis da atualidade.
O que vc diria a quem pensou criar alguma obra favorável ao universo LGBT, mas se conteve por temer reações preconceituosas?
Fico irritado, confesso, por vezes decepcionado, quando vejo um trabalho que poderia ter verticalizado as questões – seja na temática, na estética, ou nas marcações – e se furta de fazer isso. Não há explicação crível para isso, ou há e o público não tem acesso. Um caso “clássico” é o da Cia Luna Lunera e sua versão para Aquele Dois, do Caio Fernando Abreu (me repito no exemplo, me desculpem). Entendo a busca do grupo por querer que o público veja o Caio para além das questões gays, mas não havia como se furtar da questão. O trabalho foi exaltado pela mídia e o afeto daqueles homens preso num sistema heteronormativo e preconceituoso parecia um acessório para a história toda. Para mim, o trabalho é homoerótico desde o aquecimento, com os atores se aquecendo sem camisa, enquanto o público adentra a platéia. Mas entendo também que muito está no olhar de quem vê. Como eu já questionava na época a representatividade dos gays no teatro, me incomodei e critiquei a atitude do grupo de abafar a questão sexual. Mas tava tudo lá, né, para bom entendedor.
Vc concorda com quem avalia que hoje muitos criadores pretendem produzir obras que abordem os preconceitos contra minorias, alguns até por senso oportunista? ou tudo o que chega em cartaz responde a uma enorme demanda reprimida?
Se há público é porque tem demanda. E sem tem demanda temos uma questão em aberto: como discutir as questões abordadas e quais são elas. Recentemente, vi no Rio de Janeiro uma peça chamada Dandara, Através do Espelho. Fala de uma transexual feminina que quer fazer um filme sobre sua vida e contrata um ator para interpretá-la, enquanto ela vai fazendo os papéis coadjuvantes da sua história. A peça dá conta de uma demanda que é a de transexuais darem voz à própria história e poderem exercer outra profissão que não a prostituição, por exemplo. É um feito singelo e acertado dos criadores, que dá margem à minoria e responde a demanda. Mas não há como fugir dos oportunistas ou dos artistas que se equivocam, embora eu aceite que os erros fazem parte. O que me incomoda é quando o artista se empodera de algo e arrogantemente acha que o simples fato de abordar a temática já o salva da avaliação alheia. Antes de tudo, artistas devem ser humildes. Presunçosos e estúpidos não merecem minha atenção. Não devem ser reverenciados.
Quais  obras (no teatro, no cinema, na literatura, na dança, nas artes plásticas etc) que tematizaram questões LGBT lhe pareceram mais recomendáveis até hoje?
Poxa, deve haver muitos exemplos e claro que vou falhar na lembrança. Mas vamos lá: Avental Todo Sujo de ovo, de Marcos Barbosa, ainda é uma das peças mais bonitas que já vi sobre o universo das travestis, bem como o Projeto Bárbara ao Quadradro (tema da minha iniciação científica), projeto do ator André Fusko, que reuniu duas equipes para montar duas peças, a partir de um conto de Drauzio Varella, inédito, que não entrou no livro Estação Carandiru. As duas dramaturgias, renderam as peças: Abre as Asas sobre Nós (de Sergio Roveri) e O Anjo do Pavilhão Cinco (de Aimar Labaki), que traziam o embate entre a travesti Bárbara e a transexual Galega. Adoro como a homo/sexualidade é suavemente tratada em Um Bonde Chamado Desejo e Gata em Teto de Zinco Quente e como Blanche e Maggie são intensas e “perdem” para maridos que as trocam por homens. Gilberto Gawronski ainda é, para mim, a sumidade ao interpretar a Dama da Noite, de Caio Fernando Abreu, como uma drag queen, bem como sua versão para Na Solidão dos Campos de Algodão, de Bernard-Marie Koltès. Na literatura, não tenho como me furtar dos autores Marcelino Freire Caio F., com os quais trabalho e admiro. No cinema, há muitos filmes bons Cito três: Hedwig, Rock Amor e Traição, sobre uma artista trans que persegue o sucesso, mas é traída pelo amor e o afeto que nutre, inutilmente. Gerontophilia, de Bruce de La Bruce, sobre a relação intergeracionais e interracial dos dois homens, é de longe um dos trabalhos mais bonitos, dos poucos que há, sobre essa epifania que deve ser o amor, no fim da vida. E passei mal vendo Além da Fronteira, tal o impacto do meu envolvimento com a história. Para terminar, depois do filme de Carlos Nejar  A Paixão de JL não tem como ser indiferente a todo o trabalho do artista plástico Leonilson. E, claro, Renato Russo e Cazuza: o disco Burguesia eu ganhei aos 15 anos, de uma amiga, e fiquei perturbado com Cobaias de Deus. Diário Baldio, do grupo Barracão Teatro, foi uma delicada e necessária surpresa ao retratar a rotina de uma travesti de rua. É um exemplo que não pode ser esquecido.
O que lhe garante não correr o risco de tornar seus personagens lgbts mais interessantes, mais humanos que na vida? ou é um risco que lhe agrada correr?
Me agrada correr. Costumo dizer e gosto de pensar que vou morrer, mas as pessoas não esquecerão a Alice (de Réquiem Para um Rapaz Triste) ou o Alceu (de Bicha Oca), como ela fumava, como ele chupava a laranja e a sensação de acolhimento, por exemplo, que as pessoas têm ao ouvi-los falar. Claro que acho uma pretensão dizer isso: que meus personagens são maiores que a vida, mais interessantes que os reais. Mas, cá entre nós? eles são muito mais vivos, pulsantes e intensos que muita gente por ai. Então, minhas personas são maiores que minha vida, e está tudo certo.
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Você ainda se considera um ator ‘para toda obra’. ou seja, aceitaria interpretar um personagem hetero ou só se permite papeis de gays? em qualquer dos casos, por quais motivos?
Gosto de pensar que sou um ator “para toda obra”, mas claro que há limitações, nunca poderei ser um Romeu, não tenho “porte físico” para tal, e tem personagens que não tenho mais idade para encarar. Isso se pensarmos numa montagem tradicional, claro. Meus personagens resvalam na sexualidade, pois meus trabalhos são colados com as minhas inquietações. Então, os temas, do feminino, do HIV, da velhice, do amor e do sexo, que perpassam meus trabalhos, estão contaminados pela minha vivência, dos que me rodeiam, da vivência dos autores. Quero fazer uma peça sobre a morte, com texto de Caio Fernando Abreu. Não sei se tem como fugir completamente do teor sexual. Só se eu tivesse uma preocupação em apagar essas referências, o que não ocorrerá, claro. Quero mergulhar no tema da promiscuidade, por exemplo, daí, pensa o possível resultado? Como fugir?
Vc desacredita que críticos heteros não sejam os mais indicados a avaliar uma obra de tema gay ou a orientação não faz diferença nestes casos?
Seria reducionista e burro dizer que sim. Porém, acredito que o exercício da crítica é antes de tudo um olhar subjetivo sobre o trabalho do outro. E se perpassa o campo complexo da intimidade de cada um, creio que sim, que um crítico heterossexual pode deixar passar nuances que, talvez, para um olhar “gay” pode ter uma relevância importante. Cito como exemplo peças que trazem relacionamentos entre homens – como Aldeotas, de Gero Camilo -, onde a relação de amizade, afeto, co-dependência e sua possibilidade de mesclar ficção e realidade potencializa um suposto olhar mais tendencioso. E esse olhar ele é inerente ao trabalho, caso o crítico seja gay. Como deixar de fora a própria subjetividade para ver uma peça? Não tem como. Essa diferença é bem visível quando você lê o texto e fica nítido o quanto a escrita praticamente não reverencia as complexidades do universo gay, em função de (só) se preocupar com a estética. Dai me pergunto: existe um “apagamento” ai?
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Crédito das fotos: Paulo Fuga, Aurélio Prates Rodrigues (arte de Betinho Neto), Emerson Lima e Everton Campanã