DE OLHOS E CORAÇÃO BEM ABERTOS!

O Blog da Cena convidou Claudia Assunção para uma entrevista. Por tudo o que ela representa artisticamente, pelos lugares que soube ocupar tão notavelmente em diversos veículos. E não deu outra: graças exclusivamente a ela, por sua rara trajetória, pelo seu modo tão cristalino de se pronunciar, por sua perspicácia, a entrevista abaixo vale bastante. É ler e crer!

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Para principiar, ela mesma traçou um auto retrato das suas disposições em experimentar habilidades. Depois, respondeu com encanto e consistência às perguntas. E fomos gostando tanto, de tudo, que lhe pedimos mais. É o que podemos ler nos três últimos blocos. O primeiro é sobre o último trabalho no cinema, sua paixão mais recente. E vc, tá esperando o que para desfrutar de tudo isso?

Hoje me assusto em ver, às vezes, como o tempo passa e é potente. Sou artista profissional desde os 16 anos. Minha primeira formação é como bailarina. Fui muito feliz na dança e vivi isso em uma época maravilhosa em BH. Foi sob medida. Eu era feliz  com essa escolha e tinha certeza disso! Da dança carreguei a disciplina e o conhecimento corporal e aprendi a dar aulas e a dividir o que eu sabia com as pessoas. Mais tarde, chegando aos 30 anos, veio o teatro, com música e corpo. Fiz 30 anos no palco do Teatro da Cidade, vivendo Mulheres de Holanda. E segui com o teatro, que me transformou em atriz, que me transformou em assistente de direção. Somando vivências, sempre! O ensino superior veio neste momento da vida. UFMG, curso de teatro!

Depois veio o cinema, que pega a gente de jeito, e eu descobri outro mundo. Outra possibilidade. O cinema me mostrou que eu podia viver mais coisas como atriz! E segui somando. A bailarina, a atriz no teatro, a atriz no cinema! Aí veio a televisão. Outro desafio! E foi instigante!! E somei mais! A bailarina, a atriz no teatro, a atriz no cinema, a atriz na TV! E o que mais surgir para somar eu topo! Ser artista neste país não é fácil. Nunca foi. E neste momento está ainda mais difícil! Não é uma escolha simples, mas é uma escolha do querer.

Quando lhe convidaram para atuar no cinema pela primeira vez, vc já se sentia preparada ou aprendeu fazendo o que sabe hoje? 

Quando fui para o cinema pela primeira vez já foi para um longa inteiro, com uma personagem grande. A linguagem do cinema é muito diferente do teatro, a medida é outra. Eu não me sentia nada preparada. O que eu tinha para usar a meu favor era a minha experiência com o teatro, a minha verdade cênica. A construção da personagem foi meu chão. Acreditava nisso, era o que eu tinha. A outra coisa que me ajudou foi a relação com a diretora. Dei muita sorte de ser a Eliane Caffe, ela é uma diretora que privilegia muito o ator.  Conversávamos muito sobre a minha personagem, sobre o filme. Eu mergulhei nas locações e na cidade. Eu andava a pé, de ônibus, eu ouvia as pessoas conversando na rua. A parceria com os atores que estavam comigo foi preciosa. Atores experientes, já maduros no cinema. Isso foi de grande valia. E a gente sempre aprende fazendo, vivendo a estória. No cinema isso é muito potente. Me apoiei nisso para esse primeiro trabalho. E continuo nesse caminho, acreditando na verdade da construção. E para mim todos são igualmente potentes: não importa se em longas ou curtas, personagens grandes ou pequenas. No cinema tudo é grande! Como a tela que não esconde nada. Cada vez que eu vou pra um filme, eu acho que não sei nada. Cada set é de um jeito, cada diretor imprime um set do seu jeito.

O Sol do meio dia, da Eliane Caffe, foi filmado em 2006 e lançado em 2009, no Festival do Rio e, em seguida, na Mostra Internacional de SP. No Festival do Rio, o Luis Carlos Vasconcelos e o Chico Diaz dividiram o prêmio de melhor ator. Eu fui indicada como melhor atriz, o que foi um susto e uma honra ao mesmo tempo.

Na Mostra Internacional de SP o filme ganhou melhor filme pelo público. Foram muitas críticas boas. Eu ainda fui indicada como melhor atriz no prêmio Sesc/FIESP, onde ganhamos melhor fotografia para o Pedro Farkas. Fui indicada também no prêmio Sesi. Entrou em cartaz em 2010. Não é fácil manter um filme de arte em cartaz no Brasil.
Infelizmente. Fui a Londres em 2011, para a Mostra de Cinema Brasileiro, e foi muito gratificante ir representando o filme. O cinema tem desses presentes.
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Vc acha que esgotou sua relação com o teatro ou ainda lhe parece ter muito a aprender nele, a fazer no palco ou por trás dele?
Eu não vou esgotar a minha relação com o teatro nunca. É o meu chão, é o fazer que não me sai da memória. As temporadas longas, de ter a oportunidade de ficar muito tempo em cartaz – o que hoje em dia está cada vez mais raro -, me deram o aprendizado de buscar qualidade na repetição. Ensaiar, estrear, repetir, repetir. A relação com o público é insubstituível. O que o teatro dá para o ator nada substitui. Eu aprendi muito, muito, também, como assistente de direção. E vi que nada é mais difícil do que estar em cena. Em 2016, voltei para o teatro e me senti enferrujada, fora de forma. Como faz falta, como é potente. A gente tem que fazer. Recarrega a criatividade, as baterias, as emoções. Não vai esgotar nunca, vou aprender e apanhar sempre! E como é difícil!!!!
O que lhe mais lhe estimula a aceitar novas propostas de trabalho? o destaque do seu personagem (e se não participa como atriz, seu lugar na hierarquia do processo de criação), a remuneração combinada ou outras razões? As propostas de trabalho…
hum… Em primeiro lugar, tem os que te enchem os olhos e o coração. Se você lê um roteiro, ou um texto, e se apaixona pela estória, pela personagem, já dá aquela coisa: vou fazer de qualquer jeito. rsrs Claro que a gente tem que sobreviver e quer ser bem remunerado pelo trabalho que faz. Todo mundo quer e precisa,  mas pra mim é um conjunto de coisas. Passa por gostar do trabalho, confiar na equipe, ter uma remuneração no mínimo justa e, no alto das maravilhas, ser um trabalho que te acrescenta profissionalmente e como ser humano. Acho que existem trabalhos que não são os mais sonhados, mas te dão experiência e dinheiro. Fora de cena, a minha experiência é só no teatro como assistente de direção. Gosto muito de  estar nesse lugar também. Ator aprende com ator em qualquer função.
O que vc aprendeu recentemente de mais valioso sobre seu ofício, no teatro, na tv ou no cinema? e que exemplos, que colegas foram decisivos para chegar a este novo patamar de percepção?
Miguel, fiquei muito tempo sem fazer teatro. Não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade. Em 2016, fui convidada pela Lívia Gaudêncio e Marcelo Carrusca, que são amigos queridos, para fazer o Boca Cheia d’Água. Um texto que fala da violência contra a mulher e tem Ravensbruck como ponto de partida, um campo de concentração de mulheres na Segunda Guerra. E a partir daí vem fazendo um caminho sobre a violência feminina até os dias de hoje. Foi um mergulho tão bom, tão profundo! Dolorido, mas muito bom! O tema me interessou muito. É tão absurdo quando fazemos pesquisas a respeito deste assunto e contatamos o quanto é real e muito maior do que a gente imagina. Foi um processo muito verdadeiro, e ainda não está pronto. Fizemos duas pequenas temporadas, infelizmente, e de uma para a outra muita coisa mudou. Tenho certeza que na próxima vai mudar mais ainda.

Há quem diga que os fracassos deixariam ensinamentos ainda mais interessantes que os sucessos. Vc já viveu fracassos? aprendeu algo de muito importante com algum? 

Não sei se fracassos, mas os ‘nãos’ são constantes. As possibilidades são em maior escala do que as respostas positivas. Costumo dizer que são as bolas na trave! O quase, mas não foi dessa vez. Isso acontece o tempo todo. Aí, você é obrigado a se recolher e digerir a negativa, sobretudo quando você desejou muito que acontecesse. Isso deixa sempre claro que você não é indispensável e que o mercado é muito, muito competitivo. Nessas horas, o que me segura é o ‘por que eu quero fazer isso’. O fazer artístico que é maior que o ego. Em tudo na vida é difícil ser preterido por alguém. Como no amor, por exemplo, no trabalho também dói às vezes.  Mas, aí, a gente se recolhe e segue em frente. Já estive incluída em uma produção na TV, contratada, recebendo, e minha personagem não foi pra cena. Isso me gerou uma frustração grande. O trabalho nem era o que mais me enchia os olhos, mas eu queria fazer o meu melhor ali. E não pude. É um fracasso. E faz parte. Nessas situações, eu tento controlar minha ansiedade e não me abater. Mas às vezes é difiiiiiicil!!!

Vc é do tipo que recusa trabalho? que critérios costuma adotar para não aceitar propostas? Se vc tivesse que começar do zero em uma nova área artística, além da atuação, que outro ofício despertaria seu interesse? 
Hum, deixa ver… Fui bailarina, professora de dança, preparadora corporal, assistente de direção. Sou atriz. Gosto muito, muito mesmo de cantar. Não sou cantora, canto como atriz. Taí! Acho que eu teria vontade de investir como cantora, dedicar mesmo. rsrs Adoro a música, acho que cantar é uma forma sensacional de se expressar. A música é muito, muito poderosa, ela está inserida em todas as artes. Na dança, no cinema, no teatro, nas artes plásticas. Em tudo tem música! Quem sabe ainda não viro cantora?!
Vc é do tipo que recusa trabalho? que critérios costuma adotar para não aceitar propostas? 
Esta questão de recusar trabalho é delicada, nem sempre é fácil. A personagem me move muito. Leio o texto, o roteiro e se me encanta normalmente eu vou. Mas a mão de quem conduz, a forma como você é abordado, são importantes também. Se eu percebo que o esquema do trabalho, não é profissional, se a conversa não é clara, já saio fora. Pra mim é muito importante como uma equipe funciona. Ser remunerado é fundamental, mas se eu me apaixono por um projeto, abraço e vou.
Mas se não me toca ou eu sinto um esquema que não é legal, digo ‘não’, e rápido.
Vc supõe que o cinema em Minas avançou, apesar das dificuldades que enfrenta ou estaria aquém do que já deveria ter alcançado? 
O cinema em Minas avançou muito nos últimos tempos. Com a presença de editais que possibilitam a realização de filmes, essa realidade vem mudando e crescendo. Sem falar na presença maravilhosa das  mulheres no cinema de Minas. Os festivais e mostras recentes nos mostraram isso: nossa terra é sempre um celeiro de potências e tem mostrado a cara para o Brasil e para o mundo. Isso também deixa claro o quanto as políticas de leis e projetos culturais são necessárias. Não vejo Minas aquém. Vejo Minas na batalha, na corrida, na tentativa de mudar e fazer crescer esse mercado. Fico muito  feliz com isso. É bom para o Estado, para os atores, para os diretores. Eu morro de vontade de fazer um filme em Minas Gerais! Quer coisa mais bacana do que trabalhar com o que você adora na sua terra? É uma alegria ver filmes de pessoas amigas e queridas de Minas, crescendo e conquistando espaço pelo mundo. Que isso não pare! Apesar de todas as dificuldades que sabemos que o setor cultural enfrenta.
Em SP, RJ, MG e PE talvez estejam os pólos de criação cinematográfica mais produtivos e bem comentados do país. Vc admira especialmente algum deles pelo conjunto da obra? 
Nos últimos anos, presenciamos essa expansão dos incentivos à produção audiovisual. Isso muda o mercado, o que é bom pra todo mundo, e faz expandir as possibilidades de trabalho. Se lá atrás podemos dizer que o primeiro polo cinematográfico do Brasil foi o Rio de Janeiro, hoje felizmente vemos esse cenário expandido. No Rio temos filmes lindos, grandes diretores e, hoje, um mercado já modificado com a nova maneira de fazer cinema. O cinema independente só cresce, até mesmo por necessidade para  seguir. Nem sempre temos o apoio da Globo Filmes, por exemplo. São Paulo também é grandioso, nos diretores, grandes diretoras e muito cinema. Minas vem crescendo, avançando e mostrando a cara com competência e coragem. Pernambuco vem dando um baile de cinema já faz tempo. Um cinema potente, com diretores muito legais e seus filmes muito, muito bons! Tenho um xodó pelo cinema pernambucano. Adoro os diretores e roteiristas e fico sempre curiosa pelo que é produzido lá. Sai fora da badalação, o glamour é o trabalho! Eu gosto disso. E penso que Minas pode seguir a mesma trilha, buscando impacto por essa qualidade.
Vc acredita que o cinema nacional demonstra ainda mais potências? onde e em quais aspectos? 
Acredito que o Brasil sempre tem potencial para mais e mais. O cinema pode existir em todos os lugares. A existência das políticas culturais define isso também. Onde elas não existem, fica quase impossível produzir, apesar de que o jeito de fazer cinema está mudando. Vemos muitos filmes realizados com projetos de colaboração coletiva. A necessidade cria a capacidade de resistência, faz com que as pessoas busquem outra forma de realizar. E a cultura gera dinheiro, emprego e desenvolvimento para o país. Não admite e não enxerga isso quem não quer. Penso que uma boa forma de desenvolvimento pra isso sempre é aliar a cultura com a educação. O cinema tem que estar nas escolas – cria o hábito, aumenta a curiosidade, gera público. Não sei enumerar, mas acredito, sim, que o Brasil tenha ainda mais potências. O Rio Grande do Sul mesmo, que não falamos dele, é uma presença tão forte…
O cinema leva nos leva às vezes para um mundo distante e muito distinto do nosso. Estar em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai, foi muito potente. Um Brasil com outra cara: tem índio, branco, brasileiro, paraguaio, brasilguaios! Um Brasil que tem Bonito preservado, resguardado. Que desmata muito para ter pasto pra o gado e grandes frigoríficos. Muito dinheiro para alguns, pouco dinheiro e servidão para muitos outros. Neste cenário vivi o filme e construí minha Joana (de Não Devore Meu Coração, de Felipe Bragança). Silenciosa, que guarda suas dores, que tem amor e incapacidade de amar, ao mesmo tempo. Um filme que fala de amor, de rivalidade, de ódio, de memória, de genocídio indígena, de violência, da memória da guerra do Paraguai, e de solidão. Um filme de arte do nosso cinema, que segue resistindo sempre. Adoro a vivência em um lugar fora da minha realidade. Entrego a Joana pelo filme, e pelo grito das mulheres (todas), sempre. para mudar a maneira que estão no mundo.Downloads2.jpg
Fazer novela é instigante e difícil,da mesma forma que fazer teatro e cinema são difíceis. No meu entendimento, a novela te exige presteza e estado de atenção igualmente. Se for uma participação ou em um produto já em andamento, mais ainda. Penso que existem produtos bons e ruins em todas as áreas, mas não vejo a novela como um trabalho menor. Já me deparei com atores que pensam assim, talvez eu mesma já tenha tido esse julgamento em algum momento. É trabalho. Bom de fazer, difícil, que traz crescimento e experiência. Acho um excelente exercício para nós, atores. E a possibilidade de ser bem remunerado é muito boa. A questão financeira é sempre árdua pra nós, e tento lidar com isso sem pudor.
A presença feminina no cinema vem crescendo, mas a meu ver, ainda é pequena. Desde os personagens escritos para as mulheres, que não raro são vinculadas a algum personagem masculino ou a estereótipos machistas, as diretoras e roteiristas ainda são poucas. Vemos muitas na direção de arte, figurino, maquiagem. Mas a representatividade como diretoras ainda está tímida. Elas vêm crescendo, e isso, a meu ver, contribui para mudar o olhar sobre o universo feminino também. A presença feminina por trás das câmeras é revolucionária e crescente! O crescimento da presença de jovens diretoras negras reforça isso e é um exemplo de resistência também. Mas elas vão brilhando! Lucrécia Martel, Anna Muylaert, Tata Amaral, Eliane Caffe, Anita Rocha da Silveira, Jessica Queiroz, Juliana Rojas,  Sabrina Fidalgo, Lais Bodansky, Lais Melo, Daniela Thomas! Elas vão filmando. Quem já está, segue se reafirmando, e vão surgindo outras que não conhecemos, mas elas seguem na filmação!!! rsrsrs Movimento é a palavra.  Participar de festivais e mostras é muito potente por isso! Você tem oportunidade de conhecê-las na ativa,  na apresentação e na defesa de seus trabalhos!
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OBSTINADAMENTE FIEL AO QUE INSTIGA

Aos 74 anos, Eid Ribeiro ainda não encerrou a aventura que o teatro lhe sugere há mais de 50 anos – a princípio como ator, depois como diretor, dramaturgo, roteirista e curador. Neste instante, ele torna a estar em cartaz na programação teatral da cidade: como codiretor (a quatro mãos com Eduardo Félix) de Macunaíma Gourmet. Com mais esta montagem, o grupo Pigmalião Escultura que Mexe comemora 10 anos de potente presença na cena artística local. O espetáculo dialoga com o clássico de Mário de Andrade, adaptado antes ao cinema e ao teatro, e segue em temporada no Teatro Francisco Nunes até o próximo sábado, dia 30/9, sempre às 20 horas.

 

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Foto: Daniel Moreira

É desnecessário repetir aqui o que já foi (bem) escrito sobre este criador tão fiel ao que lhe parece instigante, destinado a causar impacto no espectador. Algo que lhe pareça artístico, distante dos padrões que orientam o teatro que lhe soa comercial.

Sobre sua longa e tão destacada carreira, leia mais aqui e aqui.

Obstinadamente fiel a si mesmo, além do artista incomum, premiado inúmeras ocasiões, apontado como o mais capaz entre todos os diretores teatrais de Minas, a entrevista abaixo reafirma as lendas que Eid construiu sem calcular: como diretor exigente, de nunca dizer meias palavras, jamais preocupar-se com bom mocismos, simpatias, de preferir o anonimato. Sem com isso diminuir a admiração que lhe (sempre) votam.

Para começar, gostaria de saber como vc percebe e lida com suas vaidades. Acho vc muito pouco vaidoso com o que faz e no trato com a sua imagem. Como não se importasse tanto com isso. Ou vc tem vaidades como todo mundo, só as mantém menos à vista? Sobre vaidade: nem sei o que é isso, me preocupo mais com a humanidade, o destino do homem na Terra,  esse paraíso que aos poucos estamos destruindo, sem remissão. Pode não parecer, mas sou uma pessoa da roça, muito ligado à natureza, pedras, bichos, árvores, água, silêncio e muita compaixão pelo ser humano. Nem me considero um artista, esta palavra ‘artista’ já me incomoda, acho ridícula, parece que somos diferentes, especiais, mas não passa de um rótulo, uma classificação ordinária. Detesto aparecer, ser objeto de atenção, prefiro o anonimato, ser apenas mais um rosto na multidão. Simples assim.

O que costuma lhe mover mais ao avaliar convites para novos trabalhos: a importância artística das pessoas e dos elementos envolvidos no projeto, a pertinência do que se pretende abordar, o afeto aos parceiros ou tudo isso misturado? Acho que é tudo isso misturado: as pessoas envolvidas, o tema a ser abordado, a liberdade de criação, a remuneração. Vivo somente de teatro, não tenho outra fonte de renda e já estou com 74 anos, sem plano de saúde, casa própria. Tenho um sítio, mas não dá pra morar lá e trabalhar em Belo Horizonte.  Mas o que pega mesmo é o TEMPO para a criação, meu tempo é longo, não quero e não sei criar a toque de caixa. Por isso desisti de trabalhar no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também dou cem por cento preferência a trabalhar nos grupos. Produções independentes ou comerciais normalmente fazem do teatro um objeto de pouca profundidade, muita correria e exasperação. Tô fora disso, quero criar no meu tempo, disso não abro mão. Quem tiver disposição para isso já terá meio caminho andado. Necessito também de abordar tudo sempre de maneira diferente, experimentar coisas que nunca experimentei, fazer do teatro uma aventura estética, para o bem ou para o mal. Não estou nem aí para o sucesso ou o fracasso. Gosto é de passar horas numa sala de ensaio, descobrindo coisas com os atores/atrizes. Ainda sinto energia para criar e sempre vou em busca do desconhecido. Pode ser que nada disso o que falei seja real para as pessoas, mas para mim é, é o que me move no sentido da arte e da criação.

Quando vc diz que necessita “abordar tudo de maneira diferente (nos seus trabalhos), experimentar o que nunca experimentou, fazer do teatro uma aventura estética”, de alguma maneira já tem em mente alguns caminhos novos, específicos, que gostaria de percorrer ou se permite esperar que o acaso e/ou as circunstâncias da criação, do momento venham lhe sugerir novas possibilidades? Olha só, sempre procuro acompanhar o que está sendo criado no teatro, brasileiro e internacional. Principalmente quando viajei muito pelo FIT (Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte) e assisti coisas que me marcaram muito. Mas esse olhar pessoal vem desde quando era estudante do Teatro Universitário (TU) e viajava para o Rio ou São Paulo para assistir Bob Wilson, Victor Garcia, um diretor francês que encenou uma Gaivota  (do contista e dramaturgo russo Anton Tchekhov, 19860/1904) maravilhosa, com a Tereza Rachel (atriz e produtora carioca, 1934/2016); os espetáculos do jovem Oficina: Na Selva das Cidades, O Rei da Vela; os espetáculos do grupo Teatro dos Sete, de Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Fernando Torres; o Teatro de Arena, de Flávio Rangel, Cacilda Becker; o Festival Internacional de São Paulo da década de 6O ou início de 70. Enfim, sempre me alimentei de um teatro instigante e novo para minha cabeça. Então estou sempre aberto e correndo atrás, procurando sentir e perceber as mudanças, mas sem perder a minha expressão pessoal, a minha visão, o meu olhar sobre a arte em geral. Agora, por exemplo, estou trabalhando com o grupo Pigmalião Escultura que Mexe, criando com ele o Macunaíma Gourmet, uma experiência nova para mim, essa relação do ator versus boneco, , então estou aprendendo como é isso. Com o Armatrux também estamos envolvidos num novo espetáculo, inspirado nas vozes de Tchernóbil (a usina nuclear), da Svetlana Aleksiévitch (jornalista e escritora bielorrussa, Prêmio Nobel de Literatura em 2015), um tema que está desestabilizando as nossas cabeças, nos provocando esteticamente nesse sentido: como abordá-lo, como levá-lo para a cena, etc. São temas e experiências novas para mim, que me desafiam. Não que me considere “um grande diretor”, apenas uma pessoa preocupada em criar o que considera importante neste momento em que vive. Acho que é por aí.

Vc atribui mais importância ao teatro chamado de linguagem e menos ao chamado teatrão? Sim. Nasci com o teatro de linguagem, os espetáculos mais instigantes que assisti na vida eram todos nessa linha experimental. Gosto de ser impactado quando assisto uma peça, de sentir as infinitas possibilidades de uma encenação. Gosto dessa poesia que percebo em outros diretores, esse olhar inesperado, encenações que nunca imaginava ser possível como leitura de um autor e, de repente, aquilo está acontecendo na sua frente. Mas o teatrão, quando bem encenado e interpretado, também tem seus méritos. Só não curto o teatro comercial, aquela porcaria que pra mim não considero nem teatro. Mas esse teatro existe no mundo todo, o classicão, a comédia, o musical, o de pesquisa, etc. etc., então faz parte conviver com tudo isso e vamos em frente.

Procede que vc não dirige nem recomenda monólogos, por considerá-los ‘vaidade de ator’? Não é verdade. O problema é o seguinte: acho que um monólogo não é para qualquer ator ou atriz, exige antes de tudo muuuuito talento. Assisti em toda a minha vida somente a cinco monólogos que considerei obra de arte: Diário de um Louco e Artaud, com Rubens Corrêa (ator e diretor matogrossense, 1931/1966);  Apareceu a Margarida, com Marília Pêra (atriz, diretora e cantora carioca, 1943/1915), no auge da ditadura; A Descoberta das Américas, com o Julio Adrião, que esteve no FIT; e aquele monólogo sobre uma catadora de papel, acho que o nome era Estamira ou qualquer coisa parecida, feito por uma atriz carioca (Estamira – Na Beira do Mundo, de e com Dani Barros). A merda é que hoje o aluno já sai da escola fazendo monólogo, virou moda fazer monólogo.É muito fácil de produzir, é só decorar a merda do negócio e sair fazendo, falando da mamãe, da vovó, da titia maluca. Me falaram muito bem do monólogo da Grace Passô, Vaga Carne, mas não assisti, os ingressos já estavam esgotados. Em resumo é isso, a arte do monólogo é para poucos, é a solidão do palco te envolvendo por todos os lados e sentidos.

Vc se sente à vontade para apontar quais seriam suas principais lacunas e/ou defasagens como dramaturgo e como encenador? Como encenador ou diretor gosto do teatro que me emociona, que me enleva, que me tira do lugar de conforto pela poesia, que me transporta para outras possibilidades, traga outros olhares sobre a arte e a vida. Esse teatro chamado “interativo” me enche o saco. Não sou ator, e como espectador não quero interagir com ninguém, isso já faço na vida. Teatro não é programa de auditório, pra isso já tem o Faustão e outras merdas do gênero. Quanto ao ator brechtiano, stanislavskiano, artaudiano, grotovskiano ou pós-dramático, o importante é o talento do ator ou atriz de mostrar no palco a sua essência  criativa, o seu magnetismo pessoal, o seu olhar político-social-poético, quando movimenta o corpo e abre a boca para dizer algo.  sobre minha defasagem como dramaturgo: gosto da dramaturgia clássica, uma história com começo, meio e fim, aristotélica. Mesmo quando não uso as palavras, como em No Pirex (montada com o grupo Armatrux), preciso contar uma história ali. Se você já leu todas as minhas peças, vai ver que trafego por vários gêneros. Desde uma peça anárquica como Delito Carnal; como um drama meio rodriguiano, como Uma Noite e Tanto; como um teatro popular, como Alma de Gato, Lágrimas de Guarda-chuva; um musical, como Hollywood Bananas; um teatro do absurdo; como Os Três Patéticos; ou em infanto juvenis, etc. Todos têm história para contar, se são bons ou não é outra coisa. Gostaria de escrever uma peça que se tornasse um clássico da dramaturgia brasileira, ainda vou tentar antes de morrer. Mas também sei dos meus  limites, tanto como diretor como de dramaturgo.

Conversando com (ator e diretor mineiro) Rodolfo Vaz, ele frisou que seus processos de ensaio normalmente duram muito mais tempo que a média. Álbum de Família, do Galpão, por exemplo, absorveu nove meses. Que benefícios vc atribui a não elaborar com rapidez? O tempo me permite errar, ir, voltar, experenciar, cortar, acrescentar, discutir, partir pra outra, duvidar. Apesar de nunca ter certeza do absoluto, de quando chegamos ao final. Sempre pode ser melhor, a estréia também pode ser apenas outro começo. Enfim, um tempo longo sempre permite encontrar outros caminhos, pois nunca sei por onde começar. Sou movido apenas pela intuição, o que importa é se o material ou o assunto te move para algum lugar desconhecido que precisa ser descoberto. E isso o longo tempo te permite, principalmente quando tem o trabalho com os atores, sensibilidades, energias, culturas, formações diferentes. Como lidar com essa constelação humana se o tempo é curto?  Mas isso tudo é problema meu, não dos atores ou de outros diretores. É um tempo pessoal, talvez uma desculpa pelas minhas inseguranças.
Pra encerrar, sua longa experiência como artista lhe diz que o teatro produzido em Minas teria algumas características que lhe seriam exclusivas? Ainda estamos num ponto de interrogação. O Trama acabou, o Invertido parece que está de recesso, o Espanca! atualmente é uma interrogação, o Luna Lunera está sem grana pra trabalhar, a Cia. Clara fechou as portas, o Galpão segura as pontas por causa da Petrobrás, o Armatrux luta sem patrocínio. E um bando de novos grupos, saídos das escolas, tentam se formar, mas sem perspectivas reais. Neste panorama, é muito difícil  dizer que existe uma linguagem própria do teatro feito em Minas ou em qualquer parte do Brasil. São acontecimentos raros, aqui e ali, que logo desaparecem nesta tragédia da cultura brasileira. É um país onde o mecenato praticamente não existe, somente ricos burros, idiotas, gananciosos, assassinos do povo brasileiro.

23 ANOS DE ÍMPETOS E PULSAÇÕES

Restrita apenas a amigos e convidados, a pré-estreia foi ontem, dia 11/5. Agora aberta ao grande público, a temporada de A CORDA começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte. É onde vai permanecer em cartaz até o próximo domingo, dia 14/5, sempre a partir das 19 horas. É o 18º espetáculo do Grupo Trampulim, núcleo de palhaços que este ano completa 23 anos de estrada. Mais de duas décadas de valentias! Veja aqui: http://www.trampulim.com.br/blog/

ACORDA Crédito Bruno Vinelli (33)

Dirigido por Paula Manata e coordenação de dramaturgia de Assis Benevenuto, A CORDA aborda relações entre espaço e tempo. Em casa, quatro palhaços organizam seus mundos e encaram os múltiplos alcances que uma casa pode abrigar: o lar, a rotina, a segurança, o confinamento, a vulnerabilidade. Neste espaço de pausa, eles vivem uma sequência irreversível de eventos e significados. Deparam com novas extensões do medo, de delírio entre sono e vigília e percebem que a vida lhes escapa ao controle.

Ficha Técnica do Espetáculo:

Concepção: Adriana Morales, Tiago Mafra, Poliana Tuchia, Chaya Vazquez e Paula Manata. Direção: Paula Manata. Assistente de direção: Rafael Protzner. Dramaturgia: Assis Benevenuto e Adriana Morales. Elenco: Adriana Morales (Benedita Jacarandá), Chaya Vazquez (Conselhos), Poliana Tuchia (Socorro) e Tiago Mafra (Sabonete). Cenário e Projeto Gráfico: Jônatas Milagres Campos. Direção Musical e Trilha Sonora: Rafael Macedo. Figurinos: Roberta Mesquita. Consultoria de estilo (figurino Conselhos): Júnia Melilo. Iluminação: Flávia Mafra. Produção: Isabela Leite. Comunicação: Poliana Tuchia. Estagiária: Polyane Santos. Assessoria de Imprensa: Doizum Comunicações.  Realização: Grupo Trampulim. Duração: 50 minutos. Classificação indicativa: 12 anos

SERVIÇO:

Em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil/CCBB (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, Belo Horizonte/MG).  Sexta, sábado e domingo, às 19 horas. De 12 a 14 de maio de 2017. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Venda de ingressos na bilheteria do local ou pelo site www.eventim.com.br

Abaixo, o Trampulim conta ao Blog da Cena sobre sua história de ímpetos e pulsações!!

Esta é uma história de palhaços, são 23 anos de grupo Trampulim. Tudo começou com a dupla Tramp e Polino. Aí, Polino virou Pulim, os nomes se somaram (Tramp + Pulim) e o grupo estava batizado. Os dois sabiam que deveriam saltar muito nessa vida. Por isso, convidaram um tanto de artistas, amigos talentosos e pessoas que sabiam saltar e já tinham o que “O Circo”, o primeiro espetáculo do grupo, precisa(va) ter: corpos de atleta e caras de pau.

Os que aceitaram o convite foram fundamentais, trouxeram cimento, cola, suor, corpo, cor e brilho. Muita gente entrou, saiu, chegou, passou, foi e ficou! Muitas idas e vindas. Gente a perder de conta, mas não da memória! Contar tudo daria um livro.

Tramp e Pulim, também conhecidos como Inimá Santos Júnior e Rogério Sette Camara, queriam porque queriam uma sede pro grupo. Apoiados pela palhaça Maroca, também chamada Paula Manata, perceberam que a sede poderia ser uma escola, onde pudessem ensinar e aprender circo. Nasceu assim a Spasso-Escola Popular de Circo. Lugar que deu rumo a muitas vidas, que transformou a história circense em Belo Horizonte.

Foi lá onde começamos a aprender a jogar. E o jogo é fundamental para o palhaço que praticamos. É o jogo do corpo, da cena, da improvisação, do status. O jogo do palhaço. A busca da diversão e da brincadeira, das regras e do rigor. Este jogo é vivo, pulsante e inesgotável.

ACORDA Crédito Bruno Vinelli (62)

O tempo passou e a Spasso já não era mais a sede do Trampulim, mas nunca deixou de ser a nossa casa. A formação do grupo também já não era mais a mesma: Tramp e Pulim já estavam mais Juninho e Rogério, os responsáveis pela primeira escola de circo de BH. Enquanto a Trampulim se tornava a primeira companhia de técnicas aéreas de Belo Horizonte com o espetáculo OraProCircus.

Tiago Mafra e Adriana Morales chegaram ao Trampulim em OraProCircus. Tiago voltava de uma viagem astral pela Índia e despencou (de maiô) num ensaio do grupo. Odiou o figurino, mas ‘transcendeu’. Adriana diplomou-se em Jornalismo, mas não abraçou a profissão. E foi procurar as aulas de aéreas de Roberta Manata e Luciana Menin, que também passaram pelo Trampulim. Já Poliana Tuchia jogava capoeira, levava uma vida pacata em Macacos, onde hospedou o carioca Geraldim Miranda, futuro diretor do OraProCircus.

Para situar tempo e pessoas: em 1994, quando o Trumpulim começava, Adriana Morales treinava incessantemente a coreografia de “FlashDance”, na sala de casa; Tiago Mafra e Poliana Tuchia ainda não se conheciam, mas assistiam Dirty Dancing na Sessão da Tarde. E Isabela Leite fugia de casa, levando uma calcinha sobressalente na mochilinha laranja. Já era muito responsável, apesar de ter apenas sete anos.

Podemos continuar? Durante seis anos, o Ora circulou até. Viajou inúmeros quilômetros, subiu e desceu estrutura, ajustou parafusos, carregou quilos e mais quilos de ferro.

Pela ordem de criação, depois veio A Ponte. O espetáculo foi remontado três vezes. Três é o tempo ideal do palhaço. Porém, a primeira estreia foi um fracasso e o fracasso é o ouro do palhaço.  Seus personagens são moradores de rua – e o palhaço é o que?

Depois disso, Adriana e Tiago montam Uma Surpresa para Benedita, primeiro aventura da dupla. O que é  o maior sucesso do grupo completa 14 anos de estrada agora em 2017.

O espetáculo ganhou o mundo quando Tiago e Adriana decidiram ir a Toronto, Canadá. Foram fazer um curso com Sue Morrison, mestra essencial e referencial da nossa forma de enxergar o palhaço como agente transformador. A dupla retornou a BH com um novo olhar para o jogo do palhaço e importantes descobertas sobre a improvisação.

Na volta, uma surpresa! Sem sede, sem lenço e sem documento, o grupo se dividiu em dois.  Devagar, o Trampulim foi renascendo das cinzas,  aprendendo dia a dia que boa dose de força e de caos são essenciais a qualquer reconstrução. Descobrindo que trabalhos corporativos podem salvar um grupo, sem perder excelência artística. E que a música reforça os laços entre pessoas, é uma energia agregadora e transformadora. Assim nasceu Pratubatê.

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Noutro ÍMPETO de sobrevivência, nasceu a Invasão Mundial de Palhaços E Todos os Outros. Um festival inédito em BH, disposto a fortalecer a cena circense mineira e formar, capacitar e aperfeiçoar artistas. De cara, trouxe a oficina “O Clown Através da Máscara”, de Sue Morrison, oportunidade para palhaços locais experimentarem um novo olhar sobre seu ofício, sobre o estado do palhaço.

Poliana aproveitou para experimentar também: propôs que seu TCC de bacharel em Artes Cênicas, na UFMG, fosse um novo espetáculo do Trampulim. O grupo ainda não tinha sede. E Poliana queria usar a estrutura da Ponte. Uma estrutura linda, que girava igual roda gigante, por isso precisava de um galpão também gigante para ser montada. Aí o E.T. – Espaço Trampulim, desceu da nave e se materializou no bairro Jardim América.

Batizado como “Labirinto”, o TCC foi julgado por uma banca que dava frio na barriga: Rita Gusmão, Fernando Mencarelli e Mônica Medeiros. Mas ganhou 100!!!!!!! Pena, o espetáculo nunca alavancou.

Pulando fatos e aumentando outros, “Manotas Musicais” nasceu meio elefante branco: daqueles trabalhos grandes, de montagem difícil e transporte caro, que empacam no depósito.  Mas o Trampulim é valente, persistente e aprendeu a grande sabedoria da adaptação com tantas mudanças e dificuldades. Para surpresa de todos, “Manotas” chega aos palcos dos principais festivais mineiros, se torna o carro-chefe do grupo.

Depois dos palcos mineiros, era hora de nos lançarmos Brasil afora e precisávamos de uma produtora muito responsável. Aí lembramos que a menina da mochilinha laranja já devia ter crescido, era a pessoa ideal! Isabela Leite!

Por falar em parceiro, sob o teto do Gonguê – sede do Trampulim, da banda  Elefante Groove e do Maracatu Trovão das Minas -, Poliana Tuchia veio substituir uma atriz que estava grávida, em “Cordão do Riso”. Poliana se confunde. Não lembra se era Roberta Manata, Tana Guimarães ou Adriana Morales.

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Anos antes, um encontro especial aconteceu  em São João Del Rei: Lenis Rino entrou na história do grupo. Trazia  um tesouro consigo, o Maracatu.

Socorro e Conselhos nasceram em Diamantina, pelas mãos do Doutor Escrich. Na estreia de “Manotas Musicais”, Adriana Morales liga para Rafael Protzner e é Alfinete, um palhaço cabeçudo, um substituto insubstituível, quem dá as boas vindas e logo vira “da família”. Começa a ‘parição’ no Trampulim: devidamente aconselhada, Milagros deu luz à Maia.

Marcos Henrique já tinha entrado nesta história, mas estava escondido nos bastidores, apertando parafusos. É o nosso cenotécnico oficial.

E Maria Carolina Campos, atual assessora jurídica do grupo, finalmente se aproxima. Não chegou antes porque morria de medo de Benedita Jacarandá! Acredita?

E para quem ainda não sabe, nestes 23 anos de existência o Trampulim já criou 18 espetáculos, mantém cinco em repertório e diversas oficinas de formação. Conquistou prêmios expressivos nas áreas de circo, teatro de rua e artes cênicas. Realizou duas edições do festival ÍMPETO – Invasão Mundial de Palhaços e Todos os Outros. Já se apresentou no Canadá e em Portugal. Em 2016, participou do projeto de circulação Nacional Palco Giratório, realizado pelo SESC Nacional: cumpriu 37 apresentações em 31 cidades de 11 estados brasileiros. Junto com a apresentação de A Ponte, no Festival de Curitiba, foi o que realizou de mais de mais notável em sua já vasta circulação nacional pelo país.

PÃO, VOCAÇÃO E GRANDES PARCEIROS!

Curta temporada para Cachorro Enterrado Vivo: somente de hoje a domingo no Teatro João Ceschiatti. É imperdível! Produzido com recursos do próprio bolso, este primeiro solo de Leonardo Fernandes já amealhou dividendos artísticos inestimáveis: foi eleito um dos 11 melhores espetáculos de 2016 pelo Estadão; uma das melhores estreias do ano pelo Guia Folha de São Paulo; indicado em seis categorias do recente Prêmio Copasa/Sinparc (Iluminação, Trilha Sonora, Texto, Ator, Diretor e Cenário, premiado), em seis do Prêmio Aplauso Brasil (Iluminação, Trilha, Figurino, Espetáculo e Ator, que coloca Leonardo em disputa contra Caco Ciocler, Ando Camargo, Thiago Fragoso, Eriberto Leão e Fúlvio Stefanini; o resultado será divulgado em meados deste ano). 

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Cachorro Enterrado Vivo rendeu diversos prêmios e indicações a Leonardo Fernandes

Pela interpretação impecável dos três personagens do texto especialmente criado por Daniela Pereira de Carvalho, Leo foi eleito Ator do Ano pelo Blog do Arcanjo – Uol Entretenimento. Segundo o júri da Associação Paulista dos Críticos de Arte, também foi considerado o melhor ator da temporada teatral paulistana em 2016. Na primeira vez que uma produção mineira vence nesta categoria em 60 anos de premiação da APCA.

Carioca,  15 textos teatrais já montados, Daniela Pereira de Carvalho é uma das dramaturgas mais bem mencionadas do país. A materialização deste Cachorro ergue uma ponte de criação e afeições entre ator e autora. É ela quem o Blog da Cena entrevista nesta edição. E Leo faz questão de frisar a qualidade do trabalho da nova parceira, o valor da relação que estabeleceram. A dramaturgia da Daniela propõe sempre vários níveis de profundidade, e o bonito nisso é que ela consegue se comunicar com todo tipo de público. Ela aborda situações limites de forma poética e impactante. Há sempre algo de transgressor na dramaturgia dela que desafia o ator, o encenador, o espectador. Isso é um presente para a criação. Se ela escreve pensando em um ator, ela faz parecer que só aquele ator poderia fazer aquele texto. Seu processo criativo é intenso. Digo isso porque somos amigos, e às vezes ela me liga pra dizer um insight que teve, uma resolução, um título… e eu penso: “a cabeça dela não para”. Quer algo mais bonito numa parceira de trabalho?

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Mais sobre Daniela: https://pt.wikipedia.org/wiki/Daniela_Pereira_de_Carvalho

Logo abaixo, a entrevista.

Pensava que vc fosse uma atriz que derivou para a dramaturgia…

Eu fiz CAL (Centro de Artes de Laranjeiras), mas não considero que tenha sido uma formação de atriz. Foi uma formação em Teatro. Eu era muito nova e naquela época – nos anos 90, no Rio – não tinha nenhum curso de formação em dramaturgia. Na verdade, ainda não tem. Em São Paulo tem. Eu fazia aula com o Domingos Oliveira e fui fazer CAL. Aprendi muito, muito mesmo, sobre Teatro e conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida: o Bruce (Gomlevsky), Os Dezequilibrados, Pedro Garcia Netto, Pedro Osório. Muitos amigos mais! Logo depois, entrei na graduação de Teoria do Teatro na Unirio. Tive uma sorte muito grande nessa faculdade! Um curso muito bacana mesmo! Eu nunca fui, nem nunca vou ser, uma autora afastada da “feitura” da cena, da construção do jogo com o ator, com a linguagem da direção… Isso tem uma certa origem na formação que a CAL me proporcionou.

O que lhe despertou para a dramaturgia, como um hobby ou como uma carreira? Quando vc se convenceu que tinha talento para isso, tinha algo a acrescentar?
Não é hobby de jeito nenhum. É a minha vida. Minha formação é toda em Teatro. Desde 2002, quando estreou a primeira peça que escrevi, “Vida, o filme”, são mais de 15 peças montadas. É meu trabalho, como ganha pão e vocação. Não tenho nenhuma outra “atividade”. O Teatro entrou na minha vida quando eu tinha 12 anos e nunca me direcionei para outros interesses. Naturalmente, porque foram interesses menores. Essa coisa de talento é muito complexa – de “se convencer que tem talento”. É sempre bom pensar em uma medida entre autoconfiança e arrogância. Cedo, o Teatro me deu uma turma. Pessoas como o Tomás Ribas, iluminador, meu grande amigo da vida. Os Dezequilibrados todos. O Bruce. Ir desenvolvendo minha formação ao lado deles foi fundamental  na consolidação da confiança nas minhas palavras escritas. E também parcerias fundamentais que foram acontecendo – com a Xuxa Lopes, por exemplo. Além dos professores que me formaram e me dão muito apoio até hoje. Flora Sussekind, Ângela Materno, Tânia Brandão.
O Movimento NOVA DRAMATURGIA CARIOCA, que o Roberto Alvim, no início
dos anos 2000, realizou na Sala Paraíso do Teatro Carlos Gomes tem que –  obrigatoriamente  – ser citado por muitos dos dramaturgos do Rio de Janeiro como uma espécie de start point ou marco inicial, em alguma medida. Nenhum outro artista trabalhou tanto, em tantas vertentes, quanto o Roberto. Ele é ‘o cara’ – e não digo isso porque ele é meu irmão. Não, ele é mesmo ‘o cara’.
Não tenho qualquer dúvida sobre a minha vocação. E aguento as partes dolorosas da escolha em seguir essa vocação estruturalmente. É uma entrega absoluta. Minha vida é completamente sustentada pelo Teatro em todos os aspectos. Meus afetos estão profundamente ligados ao Teatro. Meus irmãos neste mundo, por exemplo, Roberto Alvim, Daniel Tendler, Marcelo Pedreira, vieram da relação com o Teatro,

Poderia citar quais as partes dolorosas da sua relação com o teatro?

Tem um texto do Caio F(ernando Abreu), chamado “Primeira Carta Para Além dos Muros”,
em que ele diz: “É com terrível esforço que te escrevo. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras – como Clarice, feito Pessoa. Em Carson McCullers doía fisicamente, no corpo feito de carne e veias e músculos. Pois é no corpo que escrever me dói agora. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado, com suas veias inchadas, feridas, cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que, dizem, vão me salvar. Dói
muito, mas eu não vou parar. A minha não-desistência é o que de melhor posso oferecer a você e a mim neste momento. Pois isso, saiba, isso que poderá me matar, eu sei, é a única coisa que poderá me salvar. Um dia entenderemos talvez.” É lindo esse texto do Caio. Muito lindo!
Escrever, no meu caso, escrever peças de Teatro, potencializa, em alguma medida, um estado de desassossego que dói. No corpo e no espírito. Estar o tempo todo absorvendo ideias, sentimentos. O pensamento nunca para. Não é um trabalho com expediente determinado. Invade todo tempo e espaço da vida, das relações. Você vai tentando
separar – tempo e espaço – dentro do que é possível. Tem que aprender a lidar com as épocas que ganha bastante dinheiro e com aquelas em que ganha pouquíssimo.
Como diz a Nina de “A Gaivota”: “É preciso ter fé e saber carregar a cruz”.

Este texto do Caio é de Pequenas Epifanias (Ed. Agir), né? Adoro este livro, tem uns textos nele que deveriam ser levados à cena…

Eu queria fazer alguma coisa em torno do Caio. O Gawronski, meu parceiro em três espetáculos, era muito próximo a ele. Ano passado nos reunimos parar ler coisas e pensar. Mas acabou não acontecendo, não chegamos a uma conclusão. Mas tem tanta coisa linda do Caio.

Algo lhe estimula em particular ao escrever uma peça? os diálogos, as situações, a trama, o tema, o pensamento que norteia a obra?

Já fui bem mais apegada a diálogos do que sou hoje. Na época do Tudo é Permitido, do Não Existem Níveis Seguros Para o Consumo Destas Substâncias falavam muito bem dos meus diálogos. Mas o Cachorro, por exemplo, é um exercício de não-diálogo… Hoje, o mais importante pra mim, o que mais me move ao escrever, é a questão da peça, o pensamento estrutural dela, escolher a melhor estrutura narrativa. Cada peça acaba sendo uma questão a desenvolver, uma ideia, um pensamento em cima do qual a obra se estrutura. E não tenho nenhum vínculo formal com nenhum tipo de militância específica. A ideia de categorização me incomoda muito e não mantenho esse tipo de perspectiva no meu trabalho. Gosto da liberdade mesmo, cada peça abrindo novas fissuras e/ou possibilidades. Por isso pensei várias vezes antes de aceitar o convite da Marcia Zanelatto para integrar o grupo de autores da Rio Diversidade. Acabei aceitando por conta do horror deste conservadorismo ressurgente, deste ano de franco retrocesso das liberdades! Acho lamentável tudo o que limita e aprisiona o pensamento e o afeto – em qualquer âmbito. É um presente histórico bem perturbador esse que pretende cassar liberdades e penalizar diferenças. Horrível.

Algum diálogo, situação, algum personagem em algum dos seus textos lhe agrada sobremaneira aos demais? E na dramaturgia de outros autores, o que lhe soa insuperável, que vc desejaria ter escrito?

Gosto de várias coisas que escrevi – ficaria auto elogioso dizer especificamente. E acho que não existe nada mais bobo do que o autoelogio. Queria escrever como o Domingos Oliveira. Sempre vou querer. Como o Edward Albee. Como o Jon Fosse. E como o Samuel Beckett, é óbvio, meu objeto de estudo, não ingenuamente.

Como vc costuma lidar com suas percepções? qdo sente que o texto está pronto? é algo racional ou mais intuitivo? ou é o retorno de companheiros para os quais vc está escrevendo?

Nunca vem de fora. Tem uma hora que, de fato, eu percebo que está pronto. Não existe isso – pelo menos para mim – de qualquer tipo de avaliação externa ditar qualquer tipo de “limite” ao meu trabalho.

E o que lhe ocorre quando o texto parece superior a todo o resto de alguma encenação que vc assiste?

Que o texto sempre pode ser remontado! Uma encenação ruim é só uma experiência ruim para aquele texto. Outras seguirão, em outros sentidos. Pessoalmente, nunca me senti assim em relação às minhas peças. Talvez por trabalhar sempre com diretores parceiros. Alguns em mais de uma peça, como o Ivan Sugahara, durante os anos em que integrei a Cia Os Dezequelibrados. O Tato Consorti em Tudo é Permitido e Não Existem Níveis Seguros Para o Consumo Destas Substâncias”. E meu amado e ídolo Gilberto Gawronski em Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária, As Próximas Horas Serão Definitivas e Nem Um Dia Se Passa Sem Notícias Suas. Mas não acho que apenas a repetição da parceria seja fator determiante nessa harmonia. Minha experiência com o Mauro Mendonça Filho em Renato Russo  – O Musical é o que me dá plena consciência disso. Não nos conhecíamos até começar a trabalhar e foi intenso, muito intenso. E o Maurinho virou uma referência para mim – de trabalho de direção, de pensamento de encenador. Além de um irmão
na vida – de verdade. Mas é injusto não dizer que trabalhar com João Fonseca, Daniel Herz,
Pedro Henrique Neschling e Henrique Tavares também não é uma plenitude! Eles são incríveis. Parceiros incríveis. Tenho orgulho de cada peça que construí com cada um desses diretores. Cachorro Enterrado Vivo me proporcionou um outro tipo de experiência – em
relação à vertente da encenação e à minha relação como autora.  Não conhecia o diretor e não tive qualquer contato com ele até o dia da estreia. Para minha concepção como autora, o grande diálogo foi sempre a construção da interpretação do Leo – que pude assistir passo a passo, mesmo de longe, em leituras via Skype. Fizemos isso desde o começo. Escrevi a primeira parte da peça e lemos. Seguimos assim até o final. Várias vezes. Antes de sequer começar os ensaios e mesmo depois. Nessa peça, nesse processo especificamente, minha relação com a encenação está intrinsecamente vinculada à composição do ator, Leonardo Fernandes. Ao trabalho minucioso, rigoroso, muito, muito apurado dele. Embora, eu adore tudo na peça! Luz, cenários, figurinos, música. A fantástica direção de movimento da
Eliatrice Gischewski. Tudo!

O sucesso de Cachorro Enterrado Vivo em Belo Horizonte e em São Paulo vem consolidar de que maneira as relações pessoais e artísticas que vc passou a manter com Leo e com a cena teatral mineira?

Um encontro muito, muito feliz na minha vida, o Leonardo Fernandes. CACHORRO ENTERRADO VIVO é uma peça que me deu um enorme prazer. Quer dizer… O processo de escrita foi doloroso. Me consumiu, foi duro mesmo. Mas desde que fui a BH para estreia, é só felicidade. O Leo é precioso! A gente tem muita coisa parecida, de pensamento e
referência. Então, jogamos bem juntos. Temos planos para várias coisas, além de continuar com o CACHORRO… Nossa próxima peça, se chama COMPORTAMENTO. É sobre pedofilia. Também está sendo punk trabalhar nela. Desde 2015 tenho tido alguns encontros com Belo Horizonte e espero continuar tendo…Tem sido muito prazeroso.

Que outras relações vc manteve com a cena mineira?

Na verdade, o encontro que se deu, de fato, foi com o Leo. Mas em 2015 ministrei uma oficina muito bacana no CCBB e em 2016 teve a temporada de Contra o Vento, também no CCBB!, também muito bacana!!!!!. Mas o Leo e o Cachorro são o ponto principal. Eu tive um final de semana de “trabalho” com a Rita Clemente. Não fomos em frente, mas foi bacana mesmo assim (sobre este encontro, Rita Clemente falou ao blog: “A princípio não temos nenhum projeto em comum, mas a Daniela é uma grande autora, além de uma artista
profunda, comprometida com aspectos estéticos muito especiais. Um tipo de artista que admiro, pois não está aliada conceitualmente à esse surto de ‘atualidade’ a que temos sido bombardeados e sim em buscar dar um passo à frente”.)

O número de dramaturgOs é nitidamente superior ao de dramaturgAs no Brasil, quem sabe, no mundo. O fato de ser uma das mais atuantes, conhecidas e bem mencionadas sobrecarrega seu senso de responsabilidades? de alguma maneira vc se sente comprometida a falar das opressões às mulheres no Brasil e no mundo?

Comprometida me sinto, sim, é claro. Mas sobrecarregada, não. Há uma boa quantidade de dramaturgas mulheres na minha geração… Marcia Zanelatto, Julia Spadacccini e Carla Faour, por exemplo, minhas grandes amigas. Grace Passô, Verônica Stigger… Só para dizer alguns nomes cujo trabalho acho bem bacana. Tem muitas outras. O número de homens em qualquer cargo – fora do campo doméstico – é sempre superior ao de mulheres. Não é uma questão do teatro ou da dramaturgia, evidentemente. É do mundo como o mundo  – historicamente – se organizou até hoje… Há pouco tempo li uma matéria sobre uma sitcom
americana protagonizada pela Lily Tomlin e pela Jane Fonda – duas grandes estrelas – chamada Grace and Frankie – nome dos personagens delas – e os salários das duas era o mesmo dos personagens coadjuvantes…. Isso não aconteceria se os protagonistas fossem
masculinos certamente….  Robin Wright teve que fazer jogo duro para receber o mesmo que o Kevin Spacey, num seriado em que os dois dividem as narrativas principais. Enfim, muitas questões sobre o feminismos estão sendo revisitadas nesses dias de agora – isso é bem estimulante. E vejo uma produção bem profícua de dramaturgas. Quando eu era jovem e comecei a me interessar por teatro, a única referência que tive foi a Bia Lessa. Uma referência foda, obviamente. O trabalho dela é incrível. Mas, lá pelos anos 90, tinha toda aquela geração de encenadores… E a única artista que – pessoalmente, é claro – foi, e sempre será, muito importante como formação inicial de “espectadora que estava começando a fazer teatro” foi a Bia mesmo.

A situação política e econômica do país permite pensar que cenários para a produção artística? que perspectivas vc alimenta para sua obra em 2017?

O que, nesse momento, se insinua mais imediato é a necessidade de resistência – de luta mesmo. Ainda mais aqui, no Rio. Um Estado falido, a entrada de um prefeito que gera muitas dúvidas… Mas isso não é desanimador. É só a realidade (já conhecida) do país em quase todas as conjunturas. Quem faz teatro tem que lutar. Assim como professores e médicos e garis lutam no serviço público. Não há como fugir desse enfrentamento. Haverá pouco dinheiro – é fato. E um espaço enorme para se pensar e construir e agir. Não é momento para esmorecer, não. Sinto meus amigos e parceiros muito despertos – e isso
dá uma sensação boa apesar do cenário em trevas. Estou concluindo uma dissertação de (…) e isso vai ocupar – intensamente – meu começo de ano. Mas já tenho três projetos para
2017. Uma peça com a Xuxa Lopes. Uma nova parceria com o Leonardo Fernandes e o Adriano Saboya (de Tudo é Permitido e Não Existem Níveis Seguros…) chamada Comportamento. E um novo trabalho com o Bruce Gomlevsky.  Renato Russo – O Musical
voltou agora em janeiro, no Rio, e Cachorro Enterrado Vivo agora em março, em BH. Estas duas peças devem viajar mais durante o ano. E a Mostra de Dramaturgia LGBT, Rio Diversidade, também voltou em janeiro, no Rio. O país está muito complicado… Mas vamos em frente!

O Brasil ficou em sexto lugar no ranking da pesquisa sobre o nível de ignorância da população em 40 países. Seu teatro teria algo a dizer aos ignorantes ou aos que não estão computados nestes números?

Bom, é preciso tentar discernir conceitos diferentes de ignorância. Pensando no Brasil, restritamente. Há uma enorme parcela da população sem acesso à educação – educação básica mesmo. Citando aqui uma matéria do site UOL de um ano atrás:
“Apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. (…) Numa situação ideal, os estudantes que completam o ensino médio deveriam alcançar esse nível — no Brasil, o ensino médio completo corresponde a 12 anos de escolaridade.”  A matéria que citei está aqui: https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/02/29/no-brasil-apenas-8-escapam-do-analfabetismo-funcional.htm
Essa precariedade educacional certamente contribuiu para o alto índice de ignorância apontado nesta pesquisa – onde a Holanda possui o menor grau. Este quadro – de deficiência austera de formação – evidentemente impõe limites severos à recepção das obras de arte e seu efeito estético. Pensamento e sentimento, em alguma medida, estão estruturalmente ligados. Mas – e, talvez, eu esteja seja um pouco ingênua raciocinando
assim – algumas obras de arte enfrentam e detonam essas barreiras criadas pela falta de informação e acesso à cultura – impostas pelo subdesenvolvimento educacional à população brasileira.
A Legião Urbana – para usar um exemplo relacionado a uma peça minha – atravessou os últimos 30 anos, com três acordes básicos, levando gerações a se perguntarem “Que país é esse?”. As letras do Renato Russo são muito elaboradas, sofisticadas mesmo – e tem grande alcance. Nossa peça, Renato Russo – O Musical nos faz viver isso – a cada
apresentação. Num país de analfabetos e analfabetos funcionais, a música forma o pensamento e as emoções . E o teatro também  – que é uma arte oral-visual, em síntese – ajuda a suprir as lacunas, a preencher os vácuos. Há outro modo de ignorância, entretanto. A ignorância da parcela de “letrados” que  – apesar da capacidade de articulação de ideias e
mentalidades – são preconceituosos e intolerantes. O teatro – e toda arte – deve enfrentá-los sempre – com atenção e força. Cada peça que escrevo compactua com esse enfrentamento.

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O espetáculo retorna ao cartaz após dez anos

Sintetize seu envolvimento acadêmico, seu objeto de estudo no mestrado e o que vc objetiva com esta graduação.

Samuel Beckett escreveu em 1930, quando era ainda bem jovem, um ensaio chamado Proust sobre À La Recherche Du Temps Perdu. O crítico alemão Wolfgang Iser – em seu ensaio When Is the End Not the End? The Idea of Fiction in Beckett – levanta a hipótese de que, ao escrever sobre a obra proustiana, Beckett estaria delineando alguns princípios da própria poética que constituiria futuramente em sua obra. Alguns outros estudiosos de Beckett também levantam esta hipótese, como James Knowlson, por exemplo. Meu trabalho é sobre essa relação entre o ensaio Proust, a dramaturgia beckettiana e  procedimentos narrativos usados por Proust em sua À La Recherche Du Temps Perdu. Estou estudando especificamente três peças: A Última Gravação de Krapp, That Time
e Embers (uma peça radiofônica). E a memória é a questão em torno do qual o mote do trabalho se estrutura. Nesse momento, minha aspiração é concluir! É um trabalho pesado, muito pesado, duríssimo. Tenho uma orientadora incrível. Minha professora e amiga muito amada há 20 anos, desde a graduação, Flora Sussekind. O que aumenta consideravelmente minhas responsabilidades. Aliás, na Unirio, os professores do Depto de
Estética e Teoria Teatral são pessoas muitos importantes na minha formação, na minha vida: Ângela Materno, Tânia Brandão, Beti Rabetti, Ana Maria Bulhões, José da Costa.   Ronaldo Brito e Luiz Camilo Osório – que já não estão mais lá. Foi uma graduação e está sendo uma pós-graduação estruturalmente importante. Quero ter forças para ir em
frente – talvez, quem sabe, um dia, dar aulas lá, nesse departamento que me é tão caro. E a intensidade dessa interlocução com a academia causa transformações profundas na minha relação com a escrita dramatúrgica – com toda certeza.

Os títulos dos seus textos teatrais são são especialmente chamativos, instigantes, raros, o próprio processo de criação lhe ‘impõe’ estes títulos ou eles são uma fonte de prazer? demora a encontrá-los?

Tenho uma relação seriamente obsessiva com os títulos das minhas peças. Começo a pensar numa coisa – sobre uma coisa que quero transformar em peça. Uma ideia, uma questão e, desde este ponto, enquanto vou formulando a estrutura narrativa, também vou formulando o título. Às vezes, encontro rápido. Noutras, passo por várias hipóteses até encontrar. Muitos dos meus títulos são referências – a um álbum, aquela frase ao lado das caixinhas de cigarro, um filme. É um prazer – como escrever a peça também é. Mas um prazer desvinculado da ideia de relaxamento, de certo modo. “Um desespero agradável”, citando Caio F.

Se eu lhe pedisse para destacar um grande parceiro em sua carreira, que nome primeiro lhe viria à mente?

Trabalhei com grandes parceiros. Os Dezequilibrados, por exemplo. E a Liliana Castro, com quem fiz três espetáculos muito importantes para mim. Poder chamar a Xuxa Lopes de parceira, hoje em dia, me deixa, atordoadamente, vibrante. E é uma realidade. Estamos, neste momento, construindo um espetáculo novo, A MULHER LARANJA, e temos planos,
muitos planos pela frente. O iluminador Tomás Ribas é um grande parceiro também. Um interlocutor precioso nas peças em que faz e mesmo nas que não faz a luz. Ele é uma
espécie de voz na minha consciência. Está sempre em mim. E tem o Bruce Gomlevsky! Meu cara em cena desde a primeira peça. Talvez até antes disso, porque eu já o amava na época da CAL. É um ator, um artista faminto. Não descansa e não me dá descanso um segundo sequer em sei lá quantos anos de amizade… Mais de 15 certamente! Muito culto, muito
febril, muito comprometido e muito determinado a realizar. A sensação de vê-lo interpretar uma cena de um personagem chamado Andy, na minha primeira peça, Vida, o filme, viverá em mim para sempre. Foi quando aceitei e compreendi o conceito de milagre
como uma subversão extraordinária das possibilidades. É meu irmão. Meu parceiro na vida. Já temos uma história… Renato Russo – O Musical voltou em cartaz dez anos depois de estrearmos pela primeira vez. É uma experiência inebriante, para mim, olhar o Bruce em cena, com o violão, falando e cantando e me transpassando em sua composição do
nosso ídolo Renato. E que sorte!  Temos a vida pela frente – certamente juntos. Uma peça
nova – que já começa a se desenhar na minha cabeça – é/será um solo para ele, que já está sabendo disso… Rs!

Os prêmios e as indicações à sua obra contribuíram de que maneira à sua carreira, à sua vocação de dramaturga?

Os prêmios e as indicações são bacanas porque, em alguma medida, são o reconhecimento de um certo grau de excelência naquela obra, que, certamente, demandou muito esforço, sangue, ar, uma quantidade quase indecente de pensamentos e um abrangente imaginário do autor – e de todos que a compuseram, é claro. Isso é legal. Mas a vocação vem antes
disso. Antes de qualquer outra pessoa te dizer que você é boa no que faz. A vocação é uma víscera que não pode ser extirpada pela vontade ou opinião alheia.

Se costuma afirmar que o nível dos diálogos no teatro e no cinema argentinos é bastante superior ao do teatro e do cinema brasileiros. vc também acha?

Olha, eu não sou nada fã de generalizações… Essa suposição – sobre a superioridade dos diálogos no teatro e no cinema argentinos – me parece uma generalização… Acho bobagem ficar criando ou estimulando uma rivalização exacerbada entre Brasil e Argentina… Até no futebol acho bobagem.

CACHORRO ENTERRADO VIVO – curta temporada no Teatro João Ceschiati do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537, Centro, BH/MG. fone: 3236-7400). De 9 a 12/3/2017. Quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 19h. Ingressos: R$ 30 e 15 (meia). Preparação corporal: Eliatrice Gischewski. Trilha sonora original: Márcio Monteiro. Cenário e figurino: Cícero Miranda. Criação de luz: Wladmir Medeiros. Técnico de luz: Daniel Hazan. Voz off: Bruna Chiaradia. Produção executiva: Eliatrice Gischewski. Produção: Marcelo Carrusca e Leonardo Fernandes. Texto: Daniela Pereira de Carvalho. Direção: Marcelo do Vale. Atuação: Leonardo Fernandes.

EU RE/COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ

Rodrigo Robleño é o convidado da vez das entrevistas do Blog da Cena.

Para quem já o conhece e para quem ainda não, melhor que ele mesmo se apresente.

Aos 12 anos, tive a sorte de conhecer as duas grandes paixões de minha vida: Teatro e Escotismo. Este ano, celebrando 50 anos de vida e 25 como palhaço Viralata do Brasil, dá uma vontade danada de relembrar minha trajetória. Fiz Teatro amador em Betim (onde também fundei um grupo escoteiro), aos 15 anos de idade. Depois cursei o T.U. (UFMG), onde conheci a técnica do clown, num curso de extensão. Aos poucos, me dediquei a isso.

Entre 1993 e 1995, passei o chapéu nas ruas da Espanha para sobreviver – e acabei aprendendo mais sobre o que é ser palhaço. Ao voltar ao Brasil, comecei a fazer intervenções e a oferecer cursos esporádicos sobre palhaço. Trabalhei com vários grupos de Belo Horizonte, trabalhei num programa de TV durante dois anos e, em 2006, entrei para o Cirque du Soleil, no espetáculo Varekai. Em 2010, voltei ao Brasil para continuar fazendo as coisas que mais gosto: ser palhaço, dar aulas, dirigir espetáculos.

Desde 2012, dirigi espetáculos de palhaços, de circo social, de teatro de rua e de teatro de bonecos. Ministrei vários cursos e criei o Projeto Uniclown, um projeto de palhaços ‘visitadores’, que atuam em hospitais e lares de idosos da Grande BH. Tenho participado de vários festivais pelo Brasil, dentre eles o Circovolante, em Mariana (MG), no qual fui homenageado em 2015, mesmo ano em que lancei um livro sobre a minha trajetória e sobre ser palhaço. Tenho participado ativamente das discussões sobre política cultural, participado de comissões, colegiados, seminários, congressos etc.

Sempre tenho alguns projetos engatilhados (que eu chamo de ‘sonhobjetivos’): criar um novo espetáculo para palco, dirigir um texto de minha autoria para teatro, criar o Museu Escoteiro, criar um Centro de Referência Para Palhaços e Palhaças, escrever um novo livro sobre a técnica do palhaço e celebrar este meio século entre amigos.
Como 2017 é um ano de celebração, espero fazer mais espetáculos, dar oficinas, comemorar trabalhando! Para saber da minha agenda ou comprar meu livro, vá ao site www.viralatadobrasil.com
Para conhecer mais vida, obra e cabeça do artista, leia a entrevista abaixo.
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Foto: Leo Lara

 Tantos anos depois, onde vc coloca a experiência do Soleil na sua trajetória pessoal e profissional? 

Trabalhei no Soleil entre 2006 e 2010 e tive bem pouco contato com a Companhia depois disso. Foi uma experiência única, maravilhosa, mas ela é apenas uma parte de minha carreira. Reconheço aspectos mais fundamentais em meu trabalho como palhaço, nas ruas, como professor de palhaçaria, como diretor de teatro.

A propósito, vc voltaria a fazer tudo o que fez com/pelo Soleil?

Gostaria de voltar ao Soleil se fosse para participar de um novo espetáculo e poder gravá-lo, registrar minha passagem por lá desta maneira, e criar algo diferente. É muito bom você poder viajar o mundo com seu trabalho. Ou seja, sim, eu voltaria.

O riso é um destino, uma vocação ou um aprendizado?

Por que não tudo isso? O riso tem ao menos dois lados a serem estudados, o ‘fazer rir’ e o ‘riso em si’. O riso chacoalha a gente, move e comove. Neste aspecto, ele é revolucionário, provocador, libertador. Já o ‘fazer rir’ é a combinação destes aspectos: aprendizado, vocação e destino, talvez até mais coisas. No meu caso, percebi uma vocação, por isso fui aprender. E quanto mais aprendia, mais percebia e decidia que este seria meu destino.

O que você aprendeu de mais importante até hoje sobre a arte do palhaço?

Que é um aprendizado permanente, que precisamos estar entregues, que é um árduo e delicioso ato artístico e social.

Explique para quem é leigo como é possível fazer rir sendo ou estando triste, às vezes muito triste.

É como sintonizar duas rádios diferentes. Uma toca música alegre e a outra, triste. Na pessoa, como são duas sintonias diferentes no mesmo rádio, elas não se chocam. E ser palhaço é sintonizar com outra maneira de olhar o mundo, que nos distancia de nosso cotidiano, ainda que continuemos o mesmo.

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Foto: Lincon Zarnietti

É fato que as pessoas vivem exigindo de quem faz rir ser bem humorado sempre?

Sim, parece que sim. Às vezes estou explicando algo sério para alguém e ele pede para repetir tudo porque estava esperando alguma piada. Mas a gente vai levando a vida assim, entre ser palhaço e ser humano, que não é a mesma coisa, mas é igual…

Voltando ao Soleil, o que pode haver de menos benéfico ao artista estar numa condição profissional bastante confortável?

É importante nunca se contentar com o sucesso. Eu descobri caminhos para não ‘cristalizar’, para não ‘automatizar’ minhas apresentações. Imagine, eram mais de 30 apresentações (de Varekai) por mês. Ao todo, fiz aproximadamente 1.500 apresentações. Então, devemos ter cuidado para que isso não nos torne uns morto-vivos em cena.

Se de repente vc perdesse tudo o que juntou e aprendeu até hoje, recomeçaria tudo, a fazer arte, a fazer rir ou não recomeçaria?

Se eu perdesse tudo, acredito que apenas daria o primeiro passo em alguma direção e, se isso me fizesse bem, daria o passo seguinte. Fosse em direção às artes ou a qualquer outro caminho.

Vc se imaginaria contente, feliz fazendo outra coisa completamente diferente do que já fez até aqui?

Com certeza, eu acredito muito nisso, que podemos transformar o que já fizemos em algo que nos dê prazer. Lembro de um trocador de ônibus, que se divertia trabalhando e fazia a todos os passageiros se sentirem felizes, mais bem humorados. Por outro lado, há de se lembrar que ser artista não é viver no paraíso, ele enfrenta muitas dificuldades também…

Em que medida o riso pode ou dever ser politicamente correto ou incorreto?

Na medida de seu tempo e lugar. O palhaço é um ser mutante, que se adapta a diferentes culturas (e microculturas) ao longo dos séculos, em diferentes países. Não podemos condenar o humor feito há 20 anos com os olhos de hoje. Hoje o humor passa por outros critérios, sofre outras ressalvas. Limites sempre existiram. Existem palhaços que foram decapitados pelo rei por terem falado algo que era politicamente incorreto naquele momento e lugar. Falaram algo que não devia e perderam a cabeça!

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Foto: Leo Lara

O que lhe faz pensar que está diante de um grande talento da palhaçaria, mesmo quando se trata de alguém desconhecido ou principiante?

O público, a conexão entre o palhaço e o público. Quando fui curador do FIT-BH, em 2006, eu tive a chance de recuperar para o Brasil o palhaço Biribinha, por exemplo. É um dos maiores palhaços do Brasil, mas estava esquecido. Ele comoveu a plateia e a mim.  Agora, há uns dois anos, vi alguns garotos porralocas dando seus primeiros passos na palhaçaria, a Cia. Pé de Cana. Eles também comoveram o público. Nestes dois exemplos, e em outros, o que vemos é que palhaço tem de ter uma conexão única com o público, a partir do riso. E não só por esse exemplo. Olhando a reação do público e as nossas próprias reações, a gente sabe quando está diante de um grande palhaço.

Ter conteúdo político torna o palhaço (ou comediante ou humorista) ainda mais importante ou nem sempre?

Não precisamos ter conteúdo político, principalmente porque o palhaço não tem compromisso com nada, nem consigo mesmo, nem com sua obra. A própria essência/existência do palhaço já é um forte conteúdo político. Claro, se eu puder usar o espaço midiático que tenho – graças à minha repercussão como artista – para colocar minhas posições políticas, vou usá-lo. Vou dizer: Fora Temer! Mas o palhaço já é ‘marginal’ por natureza, já é uma provocação política em si. Em sua maneira inusitada de ser e estar, o palhaço vem nos tocar em pontos de contestação e revolução, ele pode nos fazer ver que o mundo não tem tanta lógica assim, que as leis são estranhas, que a vida é menor do que deveria ser.

 

AQUILO QUE O JORNAL NÃO ALCANÇA

Lucianno Maza é o novo convidado das entrevistas do Blog da Cena. Carioca radicado em São Paulo, ele é dramaturgo, diretor, crítico e curador de teatro. Um multi talentoso já biografado pelo dicionário virtual https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucianno_Maza . O site oficial http://www.luciannomaza.com documenta seu trabalho.

Lançamento do Livro Kiwi

Lucianno Maza em São Paulo no lançamento do livro Kiwi de Daniel Danis com sua tradução em Novembro de 2016. Foto: Daniel Guimarães/Ritratto

Escreveu quinze textos, publicados em parte na Coleção Primeiras Obras (Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em organização de Ivam Cabral), indicada ao Prêmio Jabuti de Literatura de 2010, na categoria Arquitetura e Urbanismo, Fotografia, Comunicação e Artes. Uma coletânea de sua dramaturgia também foi lançada no volume intitulado Teatro (https://www.chiadoeditora.com/livraria/teatro), em Portugal e demais países de língua portuguesa, pela Chiado Editora, em 2015.

Já dirigiu 11 espetáculos. Destaques para a montagem do seu texto Carne Viva, em 2015, pelos 30 anos da Cia Tetro Estúdio Fontenova, em Portugal, sua estreia internacional; e para a seu mais recente trabalho, Kiwi. Criado a partir do texto do canadense Daniel Danis, obteve avaliação máxima da crítica da Folha de São Paulo e indicações aos prêmios São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem (FEMSA/Coca Cola) e Aplauso Brasil. Também dirigiu peças de Gabriela Mellão (A História Dela e Parasita), Fernando Ceylão (Quarto do Nada) e Zen Salles (Agridoce e 1,26, este, especialmente para a Internet).

Encenou diversas leituras dramatizadas de autores contemporâneos, como Alcides Nogueira, Walcyr Carrasco, Caesar Moura e Dionisio Neto, além de obras clássicas de Rainer Werner Fassbinder, Samuel Beckett, Paul Zindel e Sarah Kane.

Como crítico, manteve o site Caderno Teatral e frequentou os principais festivais de teatro do Brasil. Atuou como crítico interno em festivais de Itajaí (SC),  Juiz de Fora e Rio de Janeiro. Colaborou em diversos portais de notícias e para a Folha de São Paulo.

Como curador artístico, colaborou para renomadas instituições como o SESI Paraná, a Secretaria Municipal de Cultura de Curitiba e a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Foi curador da Mostra Especial do Festival de Teatro Cidade do Rio de Janeiro e jurado do Festival de Teatro Cidade de São Paulo. Criou o projeto Drama Tempo, no Rio de Janeiro, no qual 60 peças contemporâneas brasileiras tiveram leitura dramatizada, mobilizando cerca de 250 artistas em dois anos de programação. Também integrou o DLIP – Portal de Dramaturgia da Língua Portuguesa, do Festival de Teatro da Língua Portuguesa, com apoio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Nele, participou do II Encontros Culturais, ao selecionar dez autores da nova dramaturgia brasileira e mediar um debate com encenadores do Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Portugal.

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Lucas Lentini e Rita Batata em cena do espetáculo Kiwi dirigido por Lucianno Maza em 2016. Foto: Bob Sousa

O teatro que vc vê no Brasil te anima, inspira, comove ou passa longe disso?
O teatro brasileiro me comove em sua resistência, me inspira em suas expressões e me anima em suas conquistas. Todos nós sabemos o quão difícil é fazer arte e valorizar a cultura em nosso país – sobretudo em dias como os que correm. Ainda assim, seguimos com qualidades criativas, superando as dificuldades com inventividade. É impressionante que num contexto tão duro como o nosso, tenhamos atores, dramaturgos, diretores, cenógrafos etc. tão bons. Devemos nos orgulhar de nossa produção.
Quando vc diria que um criador em qualquer arte deveria pensar seriamente em parar?
Naquele momento que ele próprio acreditar que não tem nada a dizer, em que nada o estimula verdadeiramente a criar. Sem esse desejo, sem essa necessidade, melhor parar. Mas se uma ideia o acordar, que volte!
O que te estimula a prosseguir no ambiente teatral, apesar dos tempos tão difíceis para quem lida com artes no país?
A necessidade. Eu não acordei e pensei: “vou fazer teatro”. É uma necessidade. Faço teatro para aplacar esse desejo: de me expressar pelo canal que conheço e me interesso.
Entre o “salve-se quem puder” iminente e um governo que bancasse rigorosamente todas as tentativas de fazer arte no país, o que seria justo e possível em termos de política cultural do governo?
Seria incrível se existissem meios do governo bancar todas as tentativas de fazer arte no país. Mas é impossível, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Então, acredito que precisamos continuamente repensar as políticas públicas para a cultura, a fim de adaptar as ações às demandas de cada momento histórico. Hoje me parece justa uma maior clareza nas políticas que se destinam a grupos e artistas que não tiveram oportunidades anteriores e outras voltadas a quem tem uma trajetória antecessora. Além disso, considero importante que comissões e curadorias de prêmios, editais e fomentos públicos tenham uma maior rotatividade e diversidade em suas constituições.
Curiosidade: a escassez de talento é irrecuperável ou também se pode aprender, como em outros ofícios?
Não existe talento que resista sem aprendizado. Então acredito, sim, que vocação, estudo e dedicação são capazes de trazer a tona talentos inesperados.
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Cena de Kiwi dirigido por Lucianno Maza em 2016. Foto: Bob Sousa

Com Kiwi vc tem vivido as alegrias de um espetáculo bem recebido por público e crítica, indicado a prêmios importantes, depois de um longo tempo sem trabalhos concretos. Esta é mais uma realidade inerente ao teatro e aos artistas ou outra consequência da realidade oscilante de quem vive no Brasil, da mão de obra de qualquer área?

Sem dúvida a situação do artista tem suas especificidades, como a ausência de longos contratos ou da relação trabalhista convencional. Então acredito que a instabilidade a que você se refere atinge não só a mim como a esmagadora maioria dos profissionais das artes. No geral, sem outros trabalhos, mesmo que dentro da área (como no ensino ou no setor administrativo) o artista está sempre à margem e enfrentará dificuldades como o desemprego cíclico e a consequente falta de crédito financeiro que o afetará em várias esferas. Tudo se torna ainda mais complicado dentro da atual realidade, onde até profissionais de áreas antes tidas como “seguras” encontram-se agora, em meio a crise, em situação de vulnerabilidade.
O que o diretor ensinou de muito importante ao crítico e dramaturgo que vc também é, ou vice-versa?
A dramaturgia e direção foram fundamentais para a formação da minha crítica: a compreensão interna dos mecanismos que operam o teatro criativamente e tecnicamente. Aprendi a ser crítico como artista e tento nunca me distanciar da horizontalidade que esta condição me proporciona no diálogo com meus colegas. Já meu trabalho como crítico me permitiu colocar em reflexão minhas escolhas como artista e não me permitir ser auto-indulgente.
Vc diria que existe algum tema ou objeto de pesquisa ainda injustamente estudado ou visitado pelo teatro brasileiro?
Felizmente existem muitos! Os temas são inesgotáveis, porque um olhar novo pode revelar uma experiência completamente inédita com algo. Acho que o teatro poderia ser um pouco mais rápido no retrato factual, por exemplo, mas as dificuldades de produção exigem um tempo longo para que algo chegue aos palcos.
Que importância vc dispensa ao teatro que privilegia as questões relativas aos gêneros, aos preconceitos, às minorias, aos tabus de natureza moral etc. tão exercitados nos últimos anos?
Importância total! Estas questões todas são as minhas questões. E – ao menos uma que seja – de absolutamente todos nós!
Vc concorda com quem sentencia que o chamado “teatrão” está morto e/ou que o teatro que promove experiências de linguagem sempre seria de suma importância?
Um país só tem bom teatro quando tem teatro de todos os tipos. É de uma arrogância sem fim achar que só um caminho é correto. Naturalmente, cada um tem seus gostos e preferências, mas não dá para dizer que algo está morto só por não admirarmos ou acreditarmos naquilo. Porque há quem acredite e assim o faz vivo. Da mesma forma, não é apenas uma estética ou gênero que fará automaticamente algo importante ou não.
Vc diria que quais interrogações e certezas poderiam nortear quem pretenda fazer arte de qualidade, comprometida com seu tempo e com seus espectadores?
O que me parece indispensável mesmo é o desejo, a necessidade. Sede. Com isto, se buscarão, encontrarão e perderão as certezas e, pelo caminho, novas interrogações.
Em que medida o teatro pode colaborar nesta realidade de abuso e abandono de crianças e jovens no país?
O teatro atinge o público por outros meios, com poesia, analogia etc., alcançando lugares que a notícia de jornal não chega. Então, as pessoas acabam se relacionando com os temas de outras formas e esta experiência resulta em reflexão e transformação do indivíduo que forma o coletivo.
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Cena de Kiwi dirigido por Lucianno Maza em 2016. Foto: Bob Sousa

Quanto vc julgava ser necessário para montar um espetáculo antes de levantar Kiwi?
Já fiz peças sem nenhum centavo e outras com orçamento de meio milhão – dois extremos na minha carreira. Acreditava antes, e ainda mais agora com Kiwi, que não é o quanto um espetáculo possui que define sua qualidade… Mas que seria bom termos mais dinheiro para respirar, sem dúvida, seria!
Pra encerrar, os chamados grandes festivais do país ainda cumprem papel fundamental para quem ainda pretende fazer um teatro potente e interessante hoje ou já não são mais parâmetros definitivos para o que é importante e avançado?
Qualquer bom festival estará ligado à noção clara de uma curadoria de recorte e aprofundamento dentro do mesmo, então é impossível que reflita a enorme diversidade de produção. Dessa forma, um festival com sua projeção e as relações que dentro dele se criam é um instrumento poderoso para amplificar o alcance de uma obra. São veículos importantíssimos, mas não devem ser tidos como parâmetros pois, como disse, representam apenas um recorte de nosso teatro.

A DÁDIVA DA INQUIETAÇÃO, AOS 25

Talvez seja desnecessário apresentar Rita Clemente, atriz, diretora e dramaturga de destacados trabalhos no teatro e na TV. Indicada aos prêmios Shell e Qualidade Brasil da temporada teatral paulista de 2008 pela direção de Amores Surdos (do grupo Espanca!), também elaborou e dirigiu Dias Felizes, de Samuel Beckett (indicado em cinco categorias do Prêmio Questão de Crítica/RJ) e dirigiu uma porção de outros espetáculos importantes na cena mineira nos últimos anos. Exemplos de Delírio e Vertigem (do Oficinão Galpão Cine Horto), Dias de Verão (do coletivo O Clube), Nesta Data Querida (da Cia. Luna Lunera), O Rinoceronte (do Cefar), dentre outros. Muitos outros.

Além dos notáveis trabalhos citados, seus 25 anos de atividades artísticas estão sendo homenageados no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte – CCBB BH, que desde 21/10 coloca em cartaz quatro trabalhos com sua assinatura: Amanda, Matinê, 19:45!,  …Ricochete!. Um a cada semana. É hora de conferir …Ricochete!, que estreia dia 10/11, e segue em curta temporada até segunda, 14/11, finalizando a mostra comemorativa.

É uma estreia nacional. Nela, Rita assina direção, dramaturgia, cenário, figurinos e está em cena com Ramon Brant e Márcio Monteiro, parceiro constante em alguns dos seus últimos trabalhos. Dura 55 minutos e, em termos dramatúrgicos, mantém parentesco com 19:45! ao frisar o quanto o acaso pode precipitar situações importantes, mesmo definitivas nas vidas dos seus personagens. A Mostra mobiliza 25 artistas da cena local: dois novos diretores, 11 atores recém-formados, seis atores e mais cinco criadores mais experimentados.

Abaixo, Rita fala em entrevista por email sobre teatro, artes, criação, resistência política etc etc, entre outros assuntos. Não perca!!

Quando e onde o teatro (e o seu teatro) lhe parece mais importante, possuir mais virtudes?

O que me move é o desejo: o desejo de inventar, o desejo de me ligar ligar à vida e às pessoas através do trabalho de criação… Minha profissão, e a forma como lido com ela, estão intimamente ligadas às questões existenciais que me acompanham desde sempre.

Que colaborações importantes o teatro poderia propor à redefinição de um país melhor, de uma sociedade mais plural, mais aberta inclusive às variadas realidade, a outros desejos, a mais configurações de gênero?

O teatro é uma plataforma de criação e é absolutamente democrática. Cabe a cada artista identificar-se ou não com causas sociais, políticas, estéticas e existenciais, todas elas com seu grau de importância. O teatro é uma plataforma de criação, usá-lo como ferramenta ideológica é uma escolha, mas não é obrigatório e não resulta necessariamente em bem comum ou em arte. Há quem faça tudo isso junto, sem querer virar herói de nada, e eu gosto. Há quem tenha a criação como ideologia, este é o meu caso. Se eu tiver de falar alguma coisa panfletária em uma obra vou falar, mas não será, com certeza, para convencer ninguém a votar ou a não votar… Hoje vejo ficção como o mais potente dos universos ideológicos.

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Rita Clemente em foto de Paulo Maffei

Como vc se situou em relação à onda de repúdio aos artistas por parte de setores do governo Temer? está segura que a classe não é composta por preguiçosos, bajuladores e oportunistas dos cofres públicos? 

Há gente de todo tipo, em todas as áreas, em todas as funções e até na família de cada um de nós. O julgamento generalizado, sem provas, a condenação compulsória que atinge a todos, sem discriminação, costuma ser tão injusta e criminosa quanto os jogos de poder de usurpadores da coisa pública. Temos que aprender a ler, nem tudo é o que parece. De toda forma, Fora Temer!, com toda certeza.

As tensões e discussões políticas recém-vividas no país merecem mais espaço no teatro ou estariam mais bem contempladas nas redes sociais, por exemplo? 
Acho que estão bem contempladas nas redes sociais e podem mais. Podem sair das redes sociais, pois deveriam ir para as plataformas de criação como ferramenta política e fundamentalmente fazer parte do dia a dia: na hora de ir na padaria, na hora de lidar com o colega de trabalho, na hora de fazer uma curadoria isenta e justa, na hora de aprovar um projeto com isenção partidária, no trânsito, nas relações pessoais… Quer dizer, não adianta só falar, né? O que mais tem é hipocrisia! Sim, falar já é um primeiro caminho que nosso jovem país está aprendendo aos poucos, aos trancos e barrancos. Dar voz e ter voz são fundamentais para avançar, mas me interessa o dia a dia! O segundo passo vai ser ainda mais lindo: saber ler e ouvir!!! A gente tem que aprender a interpretar o post do Facebook, conseguir enxergar o equívoco no pensamento extremista que, generalizador, se esquece, irresponsavelmente, que somos ‘diferença’. A ideia generalizadora de igualdade, por exemplo, é injusta e não contempla o bem comum. Enfim, há tanto para caminharmos, não é?
A classe artística já teria superado a noção, tão difundida após a ditadura militar, que o teatro de ambições políticas seria um gênero datado, esteticamente limitado, artisticamente menor? ou a classe teatral deveria confrontar-se ao golpe e à crise que se esboça no país, inclusive nos palcos? 
Acho que a um artista não cabe o julgamento da arte: talvez a quase ninguém caberia. Tenho pela arte e por quem se propõe a fazer arte um respeito imenso. Então não vejo como dizer que isto ou aquilo é menor ou maior. Não dá! No meu caso, me interesso fundamentalmente pela plataforma de criação e vejo na inventividade uma ferramenta transformadora por si só. Mas transformadora do quê? Sempre vem a pergunta: Quem quer transformar quem ou o quê? Eu gostaria de uma sociedade mais inteligente, criativa, respeitosa e profundamente libertadora, em que fosse possível coexistir com um grau mais elevado de satisfação, respeito e prazer. Mas meus critérios de felicidade e justiça não são mais importantes do que os de outras pessoas: do empresário, do professor, do vendedor, do mecânico, do médico… O bem comum não pode ser determinado por uma classe apenas. Existem questões sócio políticas importantes e graves, no momento, mas existem questões humanas anteriores, arquetípicas e que ainda são muito graves, neste momento: respeito, preconceito, mau caratismo de toda ordem.. Talvez sejam essas questões, as humanas, que movem meu interesse político, mas não me imagino panfletando em cena. Me interessa salvaguardar o ‘lugar’ da arte como plataforma de criação e liberdade, e em nada moralizante. Se abrirmos mão da ‘metafísica”, perdemos, todos!
Nestes 25 anos, em que mudou o seu teatro, sua maneira de enxergar e fazer arte, o lugar que seu trabalho ocupa na sociedade? 
Ocupamos, todos, nossos lugares. Não somos heróis ou deuses. Este imaginário está na obra. A obra de arte tem sua alteridade e fala por si. Este é o lugar que eu quero: o de fazedora de artes, este é meu ofício. Não é o lugar mais importante de toda a sociedade, mas é tão importante quanto qualquer outro.

Vc considera suficientemente compreendido o teatro que pratica? e se ele não fosse, estaria disposta a facilitaria o que pretende dizer para ter mais público?

Sou compreendida, sim. Quem não compreende está procurando entender o que não está ali e desnecessariamente se distrai em sua própria vaidade. Está preocupado, ou seja, está se ocupando da coisa errada na hora errada. E isso é um problema de quem se preocupa. Não precisamos fazer esforços demasiados para sermos compreendidos e nem o contrário. Não se ganha nada em querer parecer hermético. Meu trabalho muda, vai mudando comigo porque estou viva e muito inteira neste ofício. É tudo o que posso: oferecer minhas inteirezas. Sou só artista, ofereço ali minha obra. Como esteta tenho outros planos e pontos a apresentar e não me furto de expandir minha percepção para ser aceita, mas minha expansão inclui estabelecer contato, de alguma forma. Desejo que a plateia seja tocada, mas escolho como. Escolho tudo e quero levar para onde escolhi e não para o lugar que o espectador, supostamente, acha que deveria ir ou está acostumado a ir. Mas quero pactos criativos com a plateia. A presença das pessoas na sala de espetáculo me transforma e acho que estar ali já transforma um pouco as pessoas também. O teatro é poderoso, sim

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Márcio Monteiro, Ramon Brant e Rita em Ricochete. Noutra foto de Paulo Maffei.

Antônio Cícero, o filósofo e letrista, afirmou que o desejo pelo novo é indevido ao ambiente das artes porque o novo sempre é transitário, que os artistas deveriam perseguir o eterno. No caso, o gosto pelo novo também lhe mobiliza? caso sim, que importância o novo traria às artes? 

O novo é sempre bem vindo, a novidade, não. O novo pode estar em tudo, o ineditismo é apenas uma pretensão tola. A novidade é moda. Confunde-se, também, novo com jovem. Mas isso não é tão importante, não. A essa coisa de novo, prefiro o verbo inventar: inventar dá valor a tudo. Envolve tudo, amplia e não dá nome. Abre para a ação.

Vc investe em se reinventar ou sua linguagem, sua assinatura artísticas já estariam consolidados e lhe agradam como são? 

Sou inquieta, sim. Sou inquieta comigo e por causa disso mudo também caminhos no trabalho. Quando mudo , meu trabalho muda. Não há o que consolidar. O viver implica em ter a morte caminhando ao lado da gente e é muito bom porque nos lembra, a toda hora, de nossa vulnerabilidade. É bom ser vulnerável, não há o que consolidar, assim intimamente, honestamente. Espero que meu trabalho fale sobre isso, sobre os sentidos e sobre a falta de sentidos na vida, porque isso é o que me importa.

Transitar mais pelo eixo Rio/SP, sobretudo trabalhando, mexeu com alguma das convicções que vc já possuiu? 

Não há nada de tão diferente noutro estado, noutro país. Por entender que é sobre o ser humano a minha matéria de trabalho, então é sempre pela percepção mais refinada que me guio. Os modos de fazer são ‘culturais’, não necessariamente artísticos.

Vc avalia que os novos coletivos teatrais de BH mantiveram o caminho tão promissor que o Espanca! apontava ao surgir com tanto sucesso com Por Elise? 

Dirigi o Amores Surdos, que foi um sucesso, mas um sucesso naquela hora. O teatro se desfaz… É assim. Eu sou muito bem sucedida porque não fico buscando que alguma coisa vá me catapultar para ‘os píncaros da glória’. Gosto de processo, gosto de carreira, valorizo tudo o que fiz até agora e acho que é isso. Procuro ter muita clareza daquilo que realmente criei e não me escondo no sucesso de ninguém. Isso me dá uma paz, uma segurança! Segurança sobre meu caminho e a legitimidade do que faço!!!! Sobre os novos coletivos, acho que cada um tem a sua configuração. Alguns podem ter sido influenciados por um grupo ou outro, mas isso é natural. Olha, não sei muito. Vejo às vezes grupos de duas pessoas e até de uma pessoa só rs. Mas se dizem grupo e tal… Enfim, que seja, não entendo a lógica. Acho que vale a pena se arregimentar para realizar seus projetos artísticos, isso faz sentido. Não faz sentido é forçar a barra para virar grupo só pra ter visibilidade e entrar em projetos de lei. Oportunistas sempre serão assim e a legitimidade de um trabalho está na carreira e ali, na cena, querendo ou não. Não há nada de errado. E mais: as pessoas mudam, os grupos vão mudando, não é? Acho que sim.

Curiosidade: como vc reagiria a um hipotético convite para dirigir o Galpão: pronta e capaz ou insegura, ou não é um sonho que vc alimente especialmente, ao menos não por agora?

Não tenho nenhuma insegurança especial ou diferenciada. Dirigir ou atuar em qualquer grupo ou com qualquer profissional depende mais do projeto mesmo, das ideias, das propostas que ligam os profissionais. Tenho inseguranças diárias, que dizem respeito às escolhas que o cotidiano da criação vai nos impondo. É assim, inseguranças necessárias. Sobre o Galpão, tenho muito respeito e admiração, pois é uma trajetória de muito trabalho, em todos o sentidos. Eu fiquei impressionada com o Galpão em “Nós”. Impressionada com a obra. Bem impressionada e feliz em vê-los ali.

O ator Leonardo Fernandes lhe formulou esta pergunta: Rita, nesses 25 anos de teatro, tem alguma coisa que você não fez e que gostaria de ter feito ou tempo não permite mais? O que são os anos para uma atriz? 

Para um ator (atriz) a idade pode ser uma dádiva, pra mim é. Estou onde quero estar. Assim de relance não me lembro de nada que estivesse no plano do não realizável. Algumas coisas foram deixadas pelo caminho, mas são tantas, tantas e por serem tantas ficaram assim, meio desimportantes. Deixaria de feito ter algumas coisas, escolheria melhor os parceiros, talvez, mas há perdas maravilhosas: o tempo não me permite mais passar por cima dos meus mais legítimos desejos. Deixei para trás ilusões sobre mim mesma e não as quero de volta, então o que me interessa é só aquilo que me diz respeito.

O que lhe parece mais interessante neste instante: trabalhar mais, ocupar mais frentes e espaços, ou trabalhar menos, depurar melhor o que pretende frisar? 

Ahhhh, depurar, depurar, depurar,  depurar. Com certeza.

A propósito, que tendências o teatro experimentou nos últimos anos lhe soam mais férteis, interessantes? 

Há uma realidade bem instigante que podemos chamar de tendência contemporânea, ou melhor, atual: a dramaturgia experimentada de forma mais aberta, contaminada pelo processo. Muitos autores vão surgindo, são autores da cena. Dramaturgia do espaço, do gesto, do texto, da linguagem teatral propriamente. Atores e diretores como dramaturgos e autores de textos redimensionando também a linguagem literária. Lindo momento!

…RICOCHETE! – Dramaturgia, direção, cenário e figurinos: Rita Clemente. Assistente de direção e fotos: Paulo Maffei. Com Márcio Monteiro, Ramon Brant e Rita Clemente. Assistente de cenografia e figurinos: Mônica Andrade. Visagismo: Gabriela Dominguez. Preparação corporal: Cristiano Reis. Trilha sonora: Márcio Monteiro. Criação de luz: Leonardo Pavanello e Paulo Maffei. Classificação etária: 14 anos. No Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte/CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). De 10 a 14 de novembro de 2016. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Informações CCBB BH: (31) 3431-9503.