FADADA A TER VIDA LONGA!

TIRADENTES* – Poeta, músico, crítico literário e, conforme a Wikipédia, “uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia do início do século XX”, o americano Ezra Pound (1885/1972) afirmou que os artistas são as antenas da raça. Este elogio, lógico, não se aplica a todos os artistas. Só a alguns: a maioria se basta em reproduzir procedimentos que familiarizam, identificam historicamente seu ofício. Raros possuem algo de grande importância a comunicar, e o que fazem, especialmente interessante. Por isso, valeu tanto ter ido a Tiradentes acompanhar a VI edição da Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena. Nela, estreou uma obra fadada a distinguir-se, positivamente, do que é mediano e/ou majoritário em cartaz.

Solo em cena em “Urbana”, sem o auxílio sequer de qualquer objeto, Glaucy Fragoso transcreve impressões e episódios sobre uma condição conflagrada: a extremada violência nas cidades brasileiras. Como uma antena da raça. Catarinense radicada no Rio de Janeiro, tudo leva a crer que se refira à realidade carioca, mas não se restringe ao que lhe é mais próximo. Além de atuar (acionando amplos recursos do teatro físico, do clown e da dança), ela mesma assina a dramaturgia e a direção do espetáculo. Roberto Rodrigues co-dirige. Florencia Santángelo assina o figurino. E Júlio Adrião, de “A Descoberta das Américas”, assina a supervisão geral do trabalho.

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Foto: Marlon de Paula

A cena reporta com sutileza e com nitidez a que níveis de agressões estamos submetidos. Como motivos torpes, banais insuflam a expropriação de bens materiais, a integridade física e a própria vida de outro humano. Até quem nunca presenciou ocorrências semelhantes reconhece e reputa o que é exposto. Jamais é um modo de ver característico do jornalismo, um relato factual, alarmante e fatalista dos danos. É teatro, articulação cênica, domínio (do) artístico. Síntese apropriada aos xamãs (ou pajés), a alguém com dotação sismográfica, capaz de invocar, auscultar, interpretar e reconfigurar o estabelecido. Neste diálogo com a brutalidade, na primeira ou na terceira pessoas, Glaucy Fragoso responde com pulso poético, humor, senso de sobrevivência e solidariedade, nexos surpreendentes, pertinência, bastante trabalho, respeitáveis talentos.

Um espetáculo que merece ser visto, viajar muito, ter vida longa, encontrar todo o reconhecimento que lhe é justo. Ser trazido pela programação do próximo FIT-BH, por exemplo. Além da importância e da urgência com as quais ele se inscreve na cena e no cotidiano – não lembro de outro espetáculo que aborde de maneira mais aguda estes desastres da vida urbana brasileira de hoje;  e é espantoso que tão poucos abordem esta mesma temática com tamanha (e necessária) verticalidade -, “Urbana” integrou a programação numerosa desta edição Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena, que se estendeu de 4 a 12 de maio. O Blog da Cena esteve presente do início até o dia 7.

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Foto: Marlon de Paula

Como outros eventos do gênero, a Mostra reuniu atrações às vezes mais, às vezes menos defensáveis: http://www.tiradentesemcena.com.br. É importantíssimo que exista e continue, ainda que talvez careça edificar um caráter estético ainda mais reconhecível. Homenageou Zezé Motta, mais atuante e destacada na TV e no cinema do que exatamente no teatro. É uma atriz que canta, não mais a cantora tão interessante que logrou ser nos anos 80. Em Tiradentes, amparou-se no repertório que Elizeth Cardoso cantou e nos teclados (e regência) de Ricardo Mac Cord, para realizar um show calorosamente recebido pelo público. Ex-integrante do grupo Primeiro Ato e da companhia da coreógrafa alemã Pina Bausch, a bailarina, professora e coreógrafa Morena Nascimento abriu a edição deste ano com a estreia do solo “Pacha Harvey Mama Zulu”.

Logo em seguida, foi exibido “A Descoberta das Américas”, o solo que mantém em evidência os últimos 13 anos de carreira do carioca Júlio Adrião. O trabalho manteve o frescor dos primeiros anos da vasta circulação que empreende, sobretudo por festivais – esta foi a segunda vez que veio a Tiradentes. Nossa atenção se mantém o tempo todo ligada na interpretação admirável do texto do Prêmio Nobel de Literatura, o italiano Dario Fo, que prescinde de elementos além do domínio da voz, do corpo e de intensidades. É um clássico do teatro brasileiro das últimas décadas.

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Foto: Thyago Andrade

Outros onze monólogos foram escalados na Mostra, reafirmando a importância deles, as facilidades de transporte que permitem, sobretudo em tempos de crise econômica.  Fabiano Persi talvez se sobressaia mais dentre os que se apresentaram até dia 7 – se a participação ligeira de Cláudio Márcio não retira “Sapato Bicolor” da prateleira dos solos. Sua empolgante interpretação de um engraxate de rua, amante devoto da música negra inter/nacional, não alcança a mesma voltagem do discurso de Eduardo Marinho, que o espetáculo se apropria (https://www.youtube.com/watch?v=xGdO7LZJAXg)

Seria pedir demais que conseguisse: é um ponto muitíssimo alto de lucidez sobre a condição cidadã dos pobres na sociedade brasileira. Poderia, entretanto, fazer o público sorrir menos e amar ainda mais o personagem que elegeu. Mas talvez perdesse a condição de comedia, parte da graça e da satisfação da plateia. Belo trabalho. Outro belíssimo trabalho é “Na Esquina”, do coletivo circense homônimo, que já se apresentou algumas vezes em Belo Horizonte e possui qualidades tão inequívocas ao que se pretende que também integra a programação do Palco Giratório deste ano. Do mesmo modo que “Fauna”, qualificadíssima montagem do coletivo QuatrolosCinco.

* o Blog da Cena viajou a Tiradentes a convite da produção da VI Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena.

 

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CAMINHAR ENTRE GIGANTES

Ator, palhaço e crítico, George Holanda já passou por diversos grupos de teatro em Natal/RN. Hoje é mestrando em Artes Cênicas na UFRN. A crítica abaixo foi escrita na passagem do espetáculo Suassuna – O auto do reino do sol por Natal. O Blog da Cena cede espaço e agradece a colaboração.

Após uma trajetória de sucesso com o espetáculo Gonzagão, A Lenda, que viajou bastante pelo país e alcançou um imenso público, a Cia. Barca dos Corações Partidos, do Rio de Janeiro, volta a trabalhar com outro grande nome da cultura brasileira, Ariano Suassuna, em Suassuna – O auto do reino do sol. No intervalo entre estes dois espetáculos o grupo montou Auê e A Ópera do Malandro. Me utilizo de Gonzagão para compreender a trajetória do grupo em Suassuna – O auto do reino do sol, que será apresentado pela 27ª edição do Festival de Teatro de Curitiba, dias 5 e 6 de abril de 2018, às 21h, no Guairão.
Entre os pontos em comum e os que se diferenciam nos dois trabalhos, todos são bastante significativos. As montagens possuem encenadores distintos: o primeiro foi assinado por João Falcão e o outro por Luiz Carlos Vasconcelos, ambos diretores com reconhecida história no teatro nacional. O cuidado com que os encenadores se ocupam do desenho da cena e da limpeza das movimentações revela uma refinada qualidade técnica dos trabalhos, aproximando os dois espetáculos.
No que se refere aos temas, que tratam de nomes importantes da nossa cultura, em Gonzagão há uma preocupação, ainda que inicial, em se contar de modo linear a própria vida de Luiz Gonzaga, além de se apropriar da sua obra na construção do trabalho. Em Suassuna, a vida de Ariano Suassuna se apresenta inserida de forma muito mais difusa, longe de uma preocupação biográfica. Os destaques mais diretos quanto a sua pessoa correspondem ao Funk do Rutherford e Bohr e às pontuais imitações da sua figura, que o transformam em um Dom Quixote, funcionando como inserção cômica, em menção a sua figura tão peculiar.

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Fotos: Marcelo Rodolfo

Assim como em Gonzagão, em Suassuna o grupo se utiliza do recurso dramatúrgico de se inserir na narrativa como personagem. No caso, como um coletivo mambembe. Para além do efeito metalinguístico, a opção aponta para a forma como o grupo se aproxima e se relaciona com a obra do autor na cena. Assim, nos dois trabalhos temos duas linhas narrativas que acontecem paralelamente. Além da história do grupo de teatro, acompanhamos a vida de Luiz Gonzaga (Gonzagão) e a aventura do casal apaixonado Iracema e Lucas (Suassuna).

A Barca dos Corações Partidos nasceu como companhia no decorrer da trajetória de Gonzagão, os atores haviam sido reunidos apenas para esta montagem. Assim, há algo de afirmativo na sua nova transposição à cena em Suassuna. Se antes de virar coletivo no mundo real o grupo foi um coletivo na cena, agora ele é um coletivo na realidade e também na cena.

Em Gonzagão, começamos seguindo a história de Luiz Gonzaga e bem posteriormente somos apresentados à narrativa do grupo mambembe. Já em Suassuna, tudo se inicia com o coletivo e só então vamos nos aproximando do escritor paraibano. Sob o aspecto do peso da participação do grupo na narrativa, este passa de coadjuvante da história de Luiz Gonzaga a (co)protagonista de um espetáculo que se diz voltar para Ariano Suassuna. E isso não se dá apenas na dramaturgia.

A presença dos músicos na cena em Gonzagão cria uma presença de Luiz Gonzaga que paira sobre toda a encenação. Em Suassuna, o próprio grupo assume o repertório musical, tocando e cantando as músicas de Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho. Já os escritos de Ariano e as referências à sua obra se colocam de forma a apoiar a história, seja do casal, seja dos artistas. Enfim, Suassuna é tratado de forma mais diluída que Gonzaga.
Em Suassuna, por vezes, o trabalho parece optar até mais por outras referências literárias do que mais imediatamente pelo autor de O Auto da Compadecida. Apesar da figura de Dom Quixote de Cervantes como Suassuna, Shakespeare é a principal referência do trabalho, quase se equiparando ao escritor paraibano, o que também ressalta para uma influência daquele sobre este.

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Os três retirantes do início remetem às bruxas de Macbeth. O casal apaixonado (que se declara numa espécie de torre e cujas famílias são inimigas) é uma referência direta a Romeu e Julieta. Há ainda uma realeza nos figurinos do patriarca e da matriarca das famílias que lembra os ambientes da corte das peças do autor inglês. Deixando de lado as características históricas do sertão, ele não seria um espaço cuja carga familiar e de disputas que guardaria peculiar correlação com o que Shakespeare elaborou?

O sertão em Suassuna é mais esse lugar que convenientemente pode ser utilizado pelas referências literárias do que como espaço real e geográfico do Nordeste brasileiro. Nesse ponto, a insistente repetição pelas personagens quanto a estarem no sertão desperta para a inconsistência da construção pela evocação, carecendo de elementos a embasar sua concretude. O sertão vira uma referência da fala, mais que do visual, e por isso aponta para o elemento literário que compõe o trabalho e por consequência, um passado.
Tendo em vista um sertão que é mais tempo que espaço, tal ideia ajuda a construir em Suassuna uma romantização do papel do ator e da função do teatro (os mambembes perambulam contando com a sorte para sobreviver). Há uma forte indulgência com os personagens do grupo. Eles são musicais, clownescos, mas também possuem sabedoria suficiente para ajudar o casal apaixonado.

É também no desempenho dos atores que se destacam os momentos da trupe. Esses são momentos de humor, irreverência, leveza… a ponto da trama do casal apaixonado se tornar uma obrigação ao caminhar da narrativa, ainda que não desempenhado com menos virtuose por parte dos atores. É na trama dos saltimbancos que se verifica o maior interesse do espetáculo. Assim como da cenografia, já que o maior elemento cênico do trabalho, o elaborado carro-estandarte, é utilizado principalmente pela trupe.
Os momentos centrados nos artistas mambembes revelam uma certa suspensão nas histórias baseadas em Suassuna, porque simplesmente muitas vezes esquecemos de Suassuna, que é colocado em função do grupo. Se com Gonzagão havia uma necessária utilização do compositor na cena, em Suassuna, o escritor parece um convidado na festa da Barca. E isto não tira a grandiosidade e o respeito conferido ao autor paraibano na peça, mas revela que o grupo deseja falar de si mesmo. Talvez para isso precise soltar a mão dos gigantes com quem tem caminhado. Eles passaram a ser bem-vindos, mas com restrições. O difícil é abandoná-los, pois eles são garantia de que a festa será um sucesso e que teremos convidados.

FICHA TÉCNICA
Direção: Luiz Carlos Vasconcelos. Texto: Bráulio Tavares. Trilha sonora original: Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho. Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros. Atriz convidada: Rebeca Jamir. Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune. Cenografia: Sérgio Marimba. Iluminação: Renato Machado. Figurinos: Kika Lopes e Heloisa Stockler. Design de som: Gabriel D’Angelo. Assistente de direção: Vanessa Garcia. Idealização e Direção de Produção: Andrea Alves.  Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno. Produção Executiva: Rafael Lydio.

A EXPERIÊNCIA BRINCANTE

Bailarina, professora e pesquisadora, Nicole Blach Duarte já foi bailarina da Cia Mário Nascimento entre 2006 e 2008. Depois graduou-se em Licenciatura em Dança pela UFMG e mestranda em Artes da Cena na UNICAMP/SP.  

BRINCA A DANÇA! SOBRE “DANÇA DE BRINQUEDO” DA COMPANHIA MÁRIO NASCIMENTO é a crítica que ela escreveu a propósito da estreia da mais nova criação da Cia, que também comemora os 20 anos de atuação deste importante núcleo de dança contemporânea. O Blog da Cena cede espaço e agradece a colaboração. 

A Companhia Mário Nascimento estreou nos dias 10 e 11 de março, no Teatro Marília,em Belo Horizonte, o espetáculo “Dança de Brinquedo”, com direção e coreografia de Rosa Antuña. A obra comemora os 20 anos da companhia e é o primeiro trabalho do grupo voltado para o público infantil. Para comentar sobre este espetáculo é preciso considerar alguns aspectos, tanto da obra quanto da companhia e do processo de criação do trabalho. Começarei pelas primeiras impressões, aquelas que nos tocam quando estamos na plateia.

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Foto: Makely Ka

As cortinas são abertas, e parece que é possível tocar outra dimensão. Temos origamis coloridos pendurados como móbiles, puffs distribuídos no fundo e nas laterais do palco e um amontoado de “bonecos” no centro. Uma iluminação suave, muito bem desenhada em relação às cores do cenário e do figurino, nos transporta para lugares esquecidos da memória… Estamos em um quarto de criança ou dentro de uma caixa de brinquedos? A música começa e os movimentos surgem ordenadamente e depois aleatoriamente, nos trazendo uma sensação agradável de existir alguma ordem no caos.

As coreografias vão sendo construídas no espaço de forma despretensiosa, quase como por acaso e brinca com nossa inteligência e nossa capacidade de composição. Cada “boneco” está carregado de história, de sentido e personalidade, que pode ser vista tanto no figurino, muito bem elaborado em relação ao cenário, quanto no repertório de movimentos que cada um apresenta. O boneco vira brinquedo.

A temática desse espetáculo, apesar de voltada para o público infantil, é bem complexa. A sinopse do trabalho, que nos indica a relação que a obra tece com a cultura popular, aponta para uma direção um tanto profunda. Fazer brinquedo não é uma artesania qualquer  – e nesse sentido vale chamar atenção para o fato de que o espetáculo não se chama “Dança dos Brinquedos”, mas sim, “Dança de Brinquedo”.

Fazer brinquedo é criar, é imaginar, adentrar em outras dimensões da percepção, transcender o real e dar vida às invenções. Nesse ponto, nos movimentos de cada bailarino/boneco, é possível captar parte de sua subjetividade, do seu contexto criativo e da sua experiência brincante que, por um lado nos revela certa consistência e por outro flutua em meio a tudo que poderia vir a ser. Diante dessas navegações, temos momentos de devaneios quase sombrios e outros que buscam trazer uma comicidade que nos acalenta, nos fazendo lembrar o quanto podemos ser (sim, somos e podemos ser) ridículos e o quanto isso pode ser ótimo, às vezes um alívio da alma!

A Companhia Mário Nascimento, grupo do qual já tive a oportunidade de fazer parte, trabalha dentro de um repertório específico, que é a linguagem do Mário, um “jeito de fazer” dança, pautado pela força, pela resistência, pela capacidade de superação, de cair e levantar, de bater e apanhar e de estar junto, se equilibrando enquanto corpo, imerso em dinâmicas de tensão que permeiam a própria existência na arte e na vida.

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Foto: Makely Ka

Nesse sentido o trabalho da Rosa Antuña, desde a minha época (2006/2008), trazia para o cotidiano leveza e flexibilidade, características tanto da suas habilidades artísticas quanto pessoais (obviamente, não há separação entre uma coisa e outra, ou há?). Esse traço de identidade da Rosa, que consegue agregar certa suavidade à força bruta, é perceptível na composição da obra, nas coreografias e na movimentação dos bailarinos, que a meu ver, tiveram um desafio enorme ao “dar corpo” a brinquedos de corda e seus movimentos entrecortados, por vezes “duros” e “quadrados”. Um trabalho que com certeza merece continuar sendo investigado e explorado, dada a sua potência em dar visibilidade à singularidade de cada bailarino.

É curioso perceber o quanto o processo de criação da obra, compartilhado no blog da companhia, também apresenta sintonia com a cultura popular. Pareceu-me que não aconteceu premeditadamente. Gosto de acreditar nessa força oculta que permeia a obra conduzindo os processos e tornando diretores, coreógrafos e bailarinos “escutadores” do universo.

Na cultura popular é tradição o grupo fazer junto cenário e figurino. É no coletivo que se dá a manifestação e nesse sentido me arrepio só de imaginar a beleza dessa junção. Daquilo que é mestria e que habita nossa cultura em todos os cantos do nosso Brasil, com aquilo que é conhecimento adquirido no linóleo nosso de cada dia. Brinca a Dança e segue o caminho. Podemos muito e juntos fazemos mais!

DANÇA DE BRINQUEDO

Ficha Técnica. Direção e coreografia: Rosa Antuña. Luz: Mário Nascimento. Elenco: Dalton Walisson, Débora Roots, Eliatrice Gischewski, Fabio Costa, Ludmilla Ferrara, Jorge Ferreira, Mari Chalfum e Rayanne Pires. Cenografia: Cia MN. Figurino: Rosa Antuña. Trilha (compilação): Rosa Antuña. Edição da Trilha: Airon Gischewski. Projeto Gráfico: Geraldo Oliveira e Mário Nascimento. Ilustração: Leonardo Fernandes. Montagem de Luz: Sérgio Lúcio. Teaser e Contra-regra: Julião Villas. Assessoria de Imprensa: Duda Las Casas. Fotos: Makely Ka. Produção: Herivelto Campos. Apoio: Studio It e Stef Gráfica.

Temporada de estreia no Teatro Marília (Av. Prof. Alfredo Balena, 586, Centro, Belo Horizonte/MG). Dias 10 e 11 de março, sábado e domingo, às 16 horas. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Duração: 50 minutos Classificação: Livre.

O ENCANTO PARA MUDAR O MUNDO

Um espetáculo absolutamente imperdível entra em cartaz na Campanha: BERENICE E SORIANO cumpre apenas dois finais de semana no CCBB-BH. Corra logo para garantir seus ingressos pois só muito raramente a programação teatral da cidade pode contar com uma obra deste quilate.

Ex-bailarina, preparadora corporal, atriz de cinema, TV e integrante do grupo Galpão desde 1995, Fernanda Vianna estreia na direção com este belo acerto artístico. Conduz um elenco afiado (que além de interpretar, canta e toca uma trilha sonora adorável) por uma trama arrebatadoras. O texto é de Manuela Dias, baiana radicada no Rio de Janeiro, jornalista, escritora e roteirista de cinema e TV.

Dentre outros trabalhos, ela foi roteirista dos longas Deserto Feliz, de Paulo Caldas; Transeunte, de Eryk Rocha; O Céu sobre os ombros, de Sérgio Borges; e A hora e a vez de Augusto Matraga, de Vinícius Coimbra. Na TV, onde a consideram ímpar no que é capaz, já escreveu (ou colaborou) as séries Aline, A grande família, Fama, Ligações Perigosas e Justiça; e as novelas Cordel Encantado e Joia Rara. Todos na Globo.

A diretora fala mais sobre a autora: Manuela Dias é amiga do meu marido, Rodolfo Vaz, desde quando – levada pela atriz carioca Maria Padilha – foi assisti-lo em Salmo 91, no Rio de Janeiro. Depois disso, nos encontramos diversas vezes, em temporadas no Rio ou em BH, quando ela fazia roteiros de cinema para o pessoal da (produtora) Teia. Manuela é uma autora jovem, contemporânea e mais conhecida como roteirista de cinema e TV. Tem algumas peças de teatro, dentre elas Berenice e Soriano. Há alguns anos, nos enviou essa deliciosa peça, e sua vontade era que Rodolfo fizesse a boneca Rosa. Quando conseguimos um patrocínio para montar a peça, Rodolfo achou que seria melhor atuar como diretor, mas quando o recurso efetivamente saiu, já tinha assumido outros compromissos. Como sempre trabalhamos juntos, passou a bola pra mim. Foi a minha primeira direção, mas com esse texto delicioso e uma equipe talentosa, valente e cheia de graça, foi como dirigir o rio para o mar. Eu tenho uma alegria enorme de ser parceira dessa autora da minha geração, tão talentosa, poética e contemporânea

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Foto: Pablo Bernardo/Divulgação

 

Abaixo, Manuela responde perguntas que o Blog da Cena lhe formulou por email.

Berenice e Soriano nos faz pensar que vc tenha forte ligação com a música: pelas cantigas que conduzem a trama, pelo nome de um dos personagens-título (é uma homenagem ao cantor/compositor Waldick Soriano?). E a música, é uma fonte de inspiração muito forte para vc? Nunca tinha pensado no Waldick Soriano! Mas seria uma ótima homenagem a se fazer. Música é um ativo muito importante na minha vida desde sempre. Escuto música todos os dias e na peça temos pérolas que fazem parte do cancioneiro popular e da infância de todos nós.

Curiosidade: o Soriano ser, afinal, uma canária, de alguma maneira alude às questões de gênero vividas e tão discutidas no país? Não.

Não me lembro de outros textos teatrais para crianças que equilibrem tantas citações da realidade imediata (Facebook, hashtag, Ivete Sangalo, Carnaval de Salvador) e personagens tão insólitos (pai bêbado, mãe solteira, barata esnobe falando carioquês, passarinho que bota ovo). quais deles são do texto, quais seriam acréscimos da direção ou do elenco, e, neste caso, o quanto lhe pareceram melhorar o que vc previa? Basicamente são todas citação do texto. O que fizemos para essa montagem foi cortar três personagens e suas respectivas músicas, pois a peça estava ficando muito grande. Eu sou muito apegada às minhas falas, é onde coloco minha atenção e invisto meu tempo. Se por um lado não fico muito confortável com mudanças que são feitas sem mim, estou, como autora viva, muito aberta para todo tipo de diálogo com os outros criadores, atores, direção, arte, etc. Sempre que entro em um projeto quero crescer e me transformar, além de fazer amigos. 

Vc dedicou Berenice e Soriano a sua filha, Helena. o que há de particular na peça que vc gostaria que ela venha a conhecer e, de preferência, ficasse orgulhosa da mãe? Essa é uma pergunta que precisaria de um livro para ser respondida! Rs. Como mãe, o que mais quero passar para minha filha é amor pela vida e pelas pessoas. O storytelling é uma atividade civilizatória poderosa, uma ferramenta para mudar o mundo através do estabelecimento de padrões éticos e de comportamento. Ser mãe afina nosso sistema de valores, hoje em dia meu desejo não está em que ela sinta orgulho de mim, mas sim que ela possa ter uma vida da qual se orgulhar. Eu vou ser apenas um pedaço disso.

O que a sua formação de jornalista lhe acrescentou de fundamental à sua lida de escritora? Como jornalista aprendi a entrevistar. Em uma entrevista o mais importante não são suas perguntas, mas sim as respostas. Para escrever é importante saber ouvir. 

Já que vc escreve para TV, cinema e teatro é legítimo imaginar que vc estabeleça mais nexos entre estas três linguagens ou, ao contrário, enxerga mais distâncias? Vejo toda dramaturgia como uma só, na qual o que importa são as notas existenciais que tocamos. A morte, o nascimento, o amor, os ritos de passagem e a consciência da morte. O suporte que vai aportar a narrativa vai disponibilizar possibilidades específicas dele. O teatro aposta na imaginação do público e no contato ao vivo com o ator – uma ferramenta que só ele oferece e que por isso vai mantê-lo vivo para sempre. Se você recebe uma história no cinema escuro, em casa ou no celular com uma tela pequena, é claro que coisas podem se ajustar. Uma tela maior te oferece paisagens ao passo que um celular pode pedir uma decupagem mais fechada. Mas o assunto é sempre o mesmo: o ser humano e seus ritos de passagem.

O que mais lhe satisfaz haver contado em O Céu Sobre os Ombros? Fazer esse filme me levou para BH, me deu a parceria com Sérgio Borges (o diretor), me colocou em contato com todos os profissionais da Teia (produtora maravilhosa mineira) onde conheci o trabalho de Marília Rocha, Larissa Campolina, Pablo Lobato, Luana Melgaço… Além de acompanhar dia e noite a vida dos personagens que narram o filme. Eu fiz três viagens para BH e depois vim pro Rio, escrevi um roteiro de 110 páginas, buscando os nós dramáticos daquelas vidas reais. Depois o Sergio usou o roteiro para organizar as filmagens, onde se inicia um novo processo, no qual o roteiro é apenas uma das forças em ação.

Vc disse em entrevista ser necessário estreitar mais elos entre cineastas e roteiristas. a quais vc se refere? Não me refiro a nenhum diretor ou roteirista em especial. Estou falando da relação do cinema dito autoral no Brasil e a questão narrativa. Em algum momento parece ter ficado estabelecido no Brasil que os filmes narrativos não são autorais. Afirmação que claramente não procede, basta pensarmos em Coppola, Kubrick, Hitchcock, Bergman, Woody Allen, Charles Chaplin, Truffaut…  

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Foto: Pablo Bernardo/Divulgação

Especialmente no trabalho para a TV, fadado a atrair um público tão grande quanto heterogêneo, vc se cobra mesclar situações familiares, reconhecíveis, e informações que estremeçam as, digamos, zonas de conforto do espectador? Sempre que penso no público vejo pessoas profundas, com questões pessoais, relações familiares, crises amorosas. As pessoas são muito interessantes. Então o “grande público” é formado por pessoas que eu trato e vejo como complexas e instigantes.       

Quando Silvio de Abreu afirmou: ‘Ela tem um enorme talento e uma grande vocação para escrever novelas. Suas ideias são originais e modernas’. Vc imagina que ele se refira a que traços importantes do seu trabalho? Sílvio de Abreu é uma referência para mim. A primeira novela que eu acompanhei foi “Guerra dos Sexos”, na versão original. No último capítulo, quando os personagens dançam, eu chorava copiosamente aos sete anos. Quando minha mãe me perguntou por que eu estava chorando, expliquei que iria sentir saudades daqueles personagens porque nunca mais ia vê-los. Quando o Sílvio leu “Ligações Perigosas” e eu fui ter a primeira reunião com ele fiquei muito nervosa. Só de imaginar que a pessoa que escreveu “Guerra dos Sexos” estava em casa, em algum lugar lendo um texto meu… Foi muito estranho! Mas logo nos primeiros cinco minutos o jeito dele me acalmou. O Sílvio é uma pessoa muito feliz e realizada. Uma pessoa que fez toda diferença naquilo que se propôs a fazer. Ele celebra a vida, tem uma gargalhada leve e é muito objetivo no trabalho. É fantástico trabalhar sob a orientação dele. 

Vc adaptou Ligações Perigosas para a Globo como uma série. E depois afirmou em entrevista estar à vontade para servir-se de qualquer fonte, de um fato real ou de algo já publicado, para a obra que pretenda escrever. O que sua inspiração acrescentou de mais interessante, por exemplo, à obra de Choderlos de Laclos?  A adaptação do Laclos foi bastante inspirada no livro, fora o fato de eu ter mudado o final de alguns personagens. A trama que ele oferece é muito intrincada e muito atual, apesar de ter sido escrita há tanto tempo. Já adaptei Macbeth, no longa ‘A Floresta que se Move”; já adaptei o Rosa, no “Matraga”; adaptei Simone de Beauvoir em uma peça inspirada em toda sua obra… É preciso ser esmagado pela admiração por aquele escritor a ponto de se dedicar à sua obra e aos estudos que ela gerou para em seguida descobrir um certo “desrespeito” que vai me dar liberdade para criar e me manter viva como autora independente da obra original. 

A Globo nunca teve tantas autoras assinando novelas como em 2017. vc deve assinar a sua primeira (afora outras duas, como assessora) em 2019. Demorou para que mulheres tivessem este papel de destaque ou isso lhe soa apenas natural e inevitável? Quando olho a história da teledramaturgia na Globo vejo muitas mulheres: Janete Clair, Glória Perez, Maria Adelaide Amaral, Maria Carmem Barbosa, Duca Rachid, Thelma Guedes… Agora está chegando toda uma nova leva: Thereza Falcão, Claudia Souto, Maria Helena Nascimento… É uma renovação natural.

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Foto: Pablo Bernardo/Divulgação

Ficha técnica. Elenco: Denise Lopes Leal, Evandro Heringer, Jéssica Tamietti, Juliane Guimarães e Sarah Assis. Texto: Manuela Dias. Direção: Fernanda Vianna. Trilha Sonora: Sarah Assis. Preparação Corporal e assistência de direção: Lucas Resende. Preparação Vocal: Andrea Amendoeira. Figurinos, Cenografia e Adereços: Wanda Sgarbi. Assistente de figurino, cenografia e adereços: Debora Drumond. Costureiras: Heloisa Rocha e Nilma de Deus. Confecção de pássaros: Grupo Girino. Maquiagem Rosa: Carol Viveiros. Cenotécnicos: Joaquim e Marcos Lustosa. Iluminador: Wladimir Medeiros. Montagem e operação: Equipe Nutac. Projeto Gráfico: Marlette Menezes. Vídeo e fotografia: Pablo Bernardo. Coordenação administrativo financeira: Marcos Queiroz. Gestão de Projeto: Luiza Vianna. Assessoria de comunicação: Jussara Vieira. Produção Executiva: Miranda Produções. Realização: Oitis Produções Culturais. Duração: 50 minutos. Classificação: livre. Teaser no YouTube: https://youtu.be/hZIKDY06lLg

 BERENICE E SORIANO. Espetáculo infantil inspirado no cancioneiro popular brasileiro e nas cantigas de roda. Em cartaz pela 44ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, dias 24 e 25 de fevereiro, 3 e 4 de março: sábados e domingos, às 11 horas. No CCBB Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, Belo Horizonte). Ingressos: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia) e R$ 8 (online pelo site

DE OLHOS E CORAÇÃO BEM ABERTOS!

O Blog da Cena convidou Claudia Assunção para uma entrevista. Por tudo o que ela representa artisticamente, pelos lugares que soube ocupar tão notavelmente em diversos veículos. E não deu outra: graças exclusivamente a ela, por sua rara trajetória, pelo seu modo tão cristalino de se pronunciar, por sua perspicácia, a entrevista abaixo vale bastante. É ler e crer!

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Para principiar, ela mesma traçou um auto retrato das suas disposições em experimentar habilidades. Depois, respondeu com encanto e consistência às perguntas. E fomos gostando tanto, de tudo, que lhe pedimos mais. É o que podemos ler nos três últimos blocos. O primeiro é sobre o último trabalho no cinema, sua paixão mais recente. E vc, tá esperando o que para desfrutar de tudo isso?

Hoje me assusto em ver, às vezes, como o tempo passa e é potente. Sou artista profissional desde os 16 anos. Minha primeira formação é como bailarina. Fui muito feliz na dança e vivi isso em uma época maravilhosa em BH. Foi sob medida. Eu era feliz  com essa escolha e tinha certeza disso! Da dança carreguei a disciplina e o conhecimento corporal e aprendi a dar aulas e a dividir o que eu sabia com as pessoas. Mais tarde, chegando aos 30 anos, veio o teatro, com música e corpo. Fiz 30 anos no palco do Teatro da Cidade, vivendo Mulheres de Holanda. E segui com o teatro, que me transformou em atriz, que me transformou em assistente de direção. Somando vivências, sempre! O ensino superior veio neste momento da vida. UFMG, curso de teatro!

Depois veio o cinema, que pega a gente de jeito, e eu descobri outro mundo. Outra possibilidade. O cinema me mostrou que eu podia viver mais coisas como atriz! E segui somando. A bailarina, a atriz no teatro, a atriz no cinema! Aí veio a televisão. Outro desafio! E foi instigante!! E somei mais! A bailarina, a atriz no teatro, a atriz no cinema, a atriz na TV! E o que mais surgir para somar eu topo! Ser artista neste país não é fácil. Nunca foi. E neste momento está ainda mais difícil! Não é uma escolha simples, mas é uma escolha do querer.

Quando lhe convidaram para atuar no cinema pela primeira vez, vc já se sentia preparada ou aprendeu fazendo o que sabe hoje? 

Quando fui para o cinema pela primeira vez já foi para um longa inteiro, com uma personagem grande. A linguagem do cinema é muito diferente do teatro, a medida é outra. Eu não me sentia nada preparada. O que eu tinha para usar a meu favor era a minha experiência com o teatro, a minha verdade cênica. A construção da personagem foi meu chão. Acreditava nisso, era o que eu tinha. A outra coisa que me ajudou foi a relação com a diretora. Dei muita sorte de ser a Eliane Caffe, ela é uma diretora que privilegia muito o ator.  Conversávamos muito sobre a minha personagem, sobre o filme. Eu mergulhei nas locações e na cidade. Eu andava a pé, de ônibus, eu ouvia as pessoas conversando na rua. A parceria com os atores que estavam comigo foi preciosa. Atores experientes, já maduros no cinema. Isso foi de grande valia. E a gente sempre aprende fazendo, vivendo a estória. No cinema isso é muito potente. Me apoiei nisso para esse primeiro trabalho. E continuo nesse caminho, acreditando na verdade da construção. E para mim todos são igualmente potentes: não importa se em longas ou curtas, personagens grandes ou pequenas. No cinema tudo é grande! Como a tela que não esconde nada. Cada vez que eu vou pra um filme, eu acho que não sei nada. Cada set é de um jeito, cada diretor imprime um set do seu jeito.

O Sol do meio dia, da Eliane Caffe, foi filmado em 2006 e lançado em 2009, no Festival do Rio e, em seguida, na Mostra Internacional de SP. No Festival do Rio, o Luis Carlos Vasconcelos e o Chico Diaz dividiram o prêmio de melhor ator. Eu fui indicada como melhor atriz, o que foi um susto e uma honra ao mesmo tempo.

Na Mostra Internacional de SP o filme ganhou melhor filme pelo público. Foram muitas críticas boas. Eu ainda fui indicada como melhor atriz no prêmio Sesc/FIESP, onde ganhamos melhor fotografia para o Pedro Farkas. Fui indicada também no prêmio Sesi. Entrou em cartaz em 2010. Não é fácil manter um filme de arte em cartaz no Brasil.
Infelizmente. Fui a Londres em 2011, para a Mostra de Cinema Brasileiro, e foi muito gratificante ir representando o filme. O cinema tem desses presentes.
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Vc acha que esgotou sua relação com o teatro ou ainda lhe parece ter muito a aprender nele, a fazer no palco ou por trás dele?
Eu não vou esgotar a minha relação com o teatro nunca. É o meu chão, é o fazer que não me sai da memória. As temporadas longas, de ter a oportunidade de ficar muito tempo em cartaz – o que hoje em dia está cada vez mais raro -, me deram o aprendizado de buscar qualidade na repetição. Ensaiar, estrear, repetir, repetir. A relação com o público é insubstituível. O que o teatro dá para o ator nada substitui. Eu aprendi muito, muito, também, como assistente de direção. E vi que nada é mais difícil do que estar em cena. Em 2016, voltei para o teatro e me senti enferrujada, fora de forma. Como faz falta, como é potente. A gente tem que fazer. Recarrega a criatividade, as baterias, as emoções. Não vai esgotar nunca, vou aprender e apanhar sempre! E como é difícil!!!!
O que lhe mais lhe estimula a aceitar novas propostas de trabalho? o destaque do seu personagem (e se não participa como atriz, seu lugar na hierarquia do processo de criação), a remuneração combinada ou outras razões? As propostas de trabalho…
hum… Em primeiro lugar, tem os que te enchem os olhos e o coração. Se você lê um roteiro, ou um texto, e se apaixona pela estória, pela personagem, já dá aquela coisa: vou fazer de qualquer jeito. rsrs Claro que a gente tem que sobreviver e quer ser bem remunerado pelo trabalho que faz. Todo mundo quer e precisa,  mas pra mim é um conjunto de coisas. Passa por gostar do trabalho, confiar na equipe, ter uma remuneração no mínimo justa e, no alto das maravilhas, ser um trabalho que te acrescenta profissionalmente e como ser humano. Acho que existem trabalhos que não são os mais sonhados, mas te dão experiência e dinheiro. Fora de cena, a minha experiência é só no teatro como assistente de direção. Gosto muito de  estar nesse lugar também. Ator aprende com ator em qualquer função.
O que vc aprendeu recentemente de mais valioso sobre seu ofício, no teatro, na tv ou no cinema? e que exemplos, que colegas foram decisivos para chegar a este novo patamar de percepção?
Miguel, fiquei muito tempo sem fazer teatro. Não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade. Em 2016, fui convidada pela Lívia Gaudêncio e Marcelo Carrusca, que são amigos queridos, para fazer o Boca Cheia d’Água. Um texto que fala da violência contra a mulher e tem Ravensbruck como ponto de partida, um campo de concentração de mulheres na Segunda Guerra. E a partir daí vem fazendo um caminho sobre a violência feminina até os dias de hoje. Foi um mergulho tão bom, tão profundo! Dolorido, mas muito bom! O tema me interessou muito. É tão absurdo quando fazemos pesquisas a respeito deste assunto e contatamos o quanto é real e muito maior do que a gente imagina. Foi um processo muito verdadeiro, e ainda não está pronto. Fizemos duas pequenas temporadas, infelizmente, e de uma para a outra muita coisa mudou. Tenho certeza que na próxima vai mudar mais ainda.

Há quem diga que os fracassos deixariam ensinamentos ainda mais interessantes que os sucessos. Vc já viveu fracassos? aprendeu algo de muito importante com algum? 

Não sei se fracassos, mas os ‘nãos’ são constantes. As possibilidades são em maior escala do que as respostas positivas. Costumo dizer que são as bolas na trave! O quase, mas não foi dessa vez. Isso acontece o tempo todo. Aí, você é obrigado a se recolher e digerir a negativa, sobretudo quando você desejou muito que acontecesse. Isso deixa sempre claro que você não é indispensável e que o mercado é muito, muito competitivo. Nessas horas, o que me segura é o ‘por que eu quero fazer isso’. O fazer artístico que é maior que o ego. Em tudo na vida é difícil ser preterido por alguém. Como no amor, por exemplo, no trabalho também dói às vezes.  Mas, aí, a gente se recolhe e segue em frente. Já estive incluída em uma produção na TV, contratada, recebendo, e minha personagem não foi pra cena. Isso me gerou uma frustração grande. O trabalho nem era o que mais me enchia os olhos, mas eu queria fazer o meu melhor ali. E não pude. É um fracasso. E faz parte. Nessas situações, eu tento controlar minha ansiedade e não me abater. Mas às vezes é difiiiiiicil!!!

Vc é do tipo que recusa trabalho? que critérios costuma adotar para não aceitar propostas? Se vc tivesse que começar do zero em uma nova área artística, além da atuação, que outro ofício despertaria seu interesse? 
Hum, deixa ver… Fui bailarina, professora de dança, preparadora corporal, assistente de direção. Sou atriz. Gosto muito, muito mesmo de cantar. Não sou cantora, canto como atriz. Taí! Acho que eu teria vontade de investir como cantora, dedicar mesmo. rsrs Adoro a música, acho que cantar é uma forma sensacional de se expressar. A música é muito, muito poderosa, ela está inserida em todas as artes. Na dança, no cinema, no teatro, nas artes plásticas. Em tudo tem música! Quem sabe ainda não viro cantora?!
Vc é do tipo que recusa trabalho? que critérios costuma adotar para não aceitar propostas? 
Esta questão de recusar trabalho é delicada, nem sempre é fácil. A personagem me move muito. Leio o texto, o roteiro e se me encanta normalmente eu vou. Mas a mão de quem conduz, a forma como você é abordado, são importantes também. Se eu percebo que o esquema do trabalho, não é profissional, se a conversa não é clara, já saio fora. Pra mim é muito importante como uma equipe funciona. Ser remunerado é fundamental, mas se eu me apaixono por um projeto, abraço e vou.
Mas se não me toca ou eu sinto um esquema que não é legal, digo ‘não’, e rápido.
Vc supõe que o cinema em Minas avançou, apesar das dificuldades que enfrenta ou estaria aquém do que já deveria ter alcançado? 
O cinema em Minas avançou muito nos últimos tempos. Com a presença de editais que possibilitam a realização de filmes, essa realidade vem mudando e crescendo. Sem falar na presença maravilhosa das  mulheres no cinema de Minas. Os festivais e mostras recentes nos mostraram isso: nossa terra é sempre um celeiro de potências e tem mostrado a cara para o Brasil e para o mundo. Isso também deixa claro o quanto as políticas de leis e projetos culturais são necessárias. Não vejo Minas aquém. Vejo Minas na batalha, na corrida, na tentativa de mudar e fazer crescer esse mercado. Fico muito  feliz com isso. É bom para o Estado, para os atores, para os diretores. Eu morro de vontade de fazer um filme em Minas Gerais! Quer coisa mais bacana do que trabalhar com o que você adora na sua terra? É uma alegria ver filmes de pessoas amigas e queridas de Minas, crescendo e conquistando espaço pelo mundo. Que isso não pare! Apesar de todas as dificuldades que sabemos que o setor cultural enfrenta.
Em SP, RJ, MG e PE talvez estejam os pólos de criação cinematográfica mais produtivos e bem comentados do país. Vc admira especialmente algum deles pelo conjunto da obra? 
Nos últimos anos, presenciamos essa expansão dos incentivos à produção audiovisual. Isso muda o mercado, o que é bom pra todo mundo, e faz expandir as possibilidades de trabalho. Se lá atrás podemos dizer que o primeiro polo cinematográfico do Brasil foi o Rio de Janeiro, hoje felizmente vemos esse cenário expandido. No Rio temos filmes lindos, grandes diretores e, hoje, um mercado já modificado com a nova maneira de fazer cinema. O cinema independente só cresce, até mesmo por necessidade para  seguir. Nem sempre temos o apoio da Globo Filmes, por exemplo. São Paulo também é grandioso, nos diretores, grandes diretoras e muito cinema. Minas vem crescendo, avançando e mostrando a cara com competência e coragem. Pernambuco vem dando um baile de cinema já faz tempo. Um cinema potente, com diretores muito legais e seus filmes muito, muito bons! Tenho um xodó pelo cinema pernambucano. Adoro os diretores e roteiristas e fico sempre curiosa pelo que é produzido lá. Sai fora da badalação, o glamour é o trabalho! Eu gosto disso. E penso que Minas pode seguir a mesma trilha, buscando impacto por essa qualidade.
Vc acredita que o cinema nacional demonstra ainda mais potências? onde e em quais aspectos? 
Acredito que o Brasil sempre tem potencial para mais e mais. O cinema pode existir em todos os lugares. A existência das políticas culturais define isso também. Onde elas não existem, fica quase impossível produzir, apesar de que o jeito de fazer cinema está mudando. Vemos muitos filmes realizados com projetos de colaboração coletiva. A necessidade cria a capacidade de resistência, faz com que as pessoas busquem outra forma de realizar. E a cultura gera dinheiro, emprego e desenvolvimento para o país. Não admite e não enxerga isso quem não quer. Penso que uma boa forma de desenvolvimento pra isso sempre é aliar a cultura com a educação. O cinema tem que estar nas escolas – cria o hábito, aumenta a curiosidade, gera público. Não sei enumerar, mas acredito, sim, que o Brasil tenha ainda mais potências. O Rio Grande do Sul mesmo, que não falamos dele, é uma presença tão forte…
O cinema leva nos leva às vezes para um mundo distante e muito distinto do nosso. Estar em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai, foi muito potente. Um Brasil com outra cara: tem índio, branco, brasileiro, paraguaio, brasilguaios! Um Brasil que tem Bonito preservado, resguardado. Que desmata muito para ter pasto pra o gado e grandes frigoríficos. Muito dinheiro para alguns, pouco dinheiro e servidão para muitos outros. Neste cenário vivi o filme e construí minha Joana (de Não Devore Meu Coração, de Felipe Bragança). Silenciosa, que guarda suas dores, que tem amor e incapacidade de amar, ao mesmo tempo. Um filme que fala de amor, de rivalidade, de ódio, de memória, de genocídio indígena, de violência, da memória da guerra do Paraguai, e de solidão. Um filme de arte do nosso cinema, que segue resistindo sempre. Adoro a vivência em um lugar fora da minha realidade. Entrego a Joana pelo filme, e pelo grito das mulheres (todas), sempre. para mudar a maneira que estão no mundo.Downloads2.jpg
Fazer novela é instigante e difícil,da mesma forma que fazer teatro e cinema são difíceis. No meu entendimento, a novela te exige presteza e estado de atenção igualmente. Se for uma participação ou em um produto já em andamento, mais ainda. Penso que existem produtos bons e ruins em todas as áreas, mas não vejo a novela como um trabalho menor. Já me deparei com atores que pensam assim, talvez eu mesma já tenha tido esse julgamento em algum momento. É trabalho. Bom de fazer, difícil, que traz crescimento e experiência. Acho um excelente exercício para nós, atores. E a possibilidade de ser bem remunerado é muito boa. A questão financeira é sempre árdua pra nós, e tento lidar com isso sem pudor.
A presença feminina no cinema vem crescendo, mas a meu ver, ainda é pequena. Desde os personagens escritos para as mulheres, que não raro são vinculadas a algum personagem masculino ou a estereótipos machistas, as diretoras e roteiristas ainda são poucas. Vemos muitas na direção de arte, figurino, maquiagem. Mas a representatividade como diretoras ainda está tímida. Elas vêm crescendo, e isso, a meu ver, contribui para mudar o olhar sobre o universo feminino também. A presença feminina por trás das câmeras é revolucionária e crescente! O crescimento da presença de jovens diretoras negras reforça isso e é um exemplo de resistência também. Mas elas vão brilhando! Lucrécia Martel, Anna Muylaert, Tata Amaral, Eliane Caffe, Anita Rocha da Silveira, Jessica Queiroz, Juliana Rojas,  Sabrina Fidalgo, Lais Bodansky, Lais Melo, Daniela Thomas! Elas vão filmando. Quem já está, segue se reafirmando, e vão surgindo outras que não conhecemos, mas elas seguem na filmação!!! rsrsrs Movimento é a palavra.  Participar de festivais e mostras é muito potente por isso! Você tem oportunidade de conhecê-las na ativa,  na apresentação e na defesa de seus trabalhos!

OBSTINADAMENTE FIEL AO QUE INSTIGA

Aos 74 anos, Eid Ribeiro ainda não encerrou a aventura que o teatro lhe sugere há mais de 50 anos – a princípio como ator, depois como diretor, dramaturgo, roteirista e curador. Neste instante, ele torna a estar em cartaz na programação teatral da cidade: como codiretor (a quatro mãos com Eduardo Félix) de Macunaíma Gourmet. Com mais esta montagem, o grupo Pigmalião Escultura que Mexe comemora 10 anos de potente presença na cena artística local. O espetáculo dialoga com o clássico de Mário de Andrade, adaptado antes ao cinema e ao teatro, e segue em temporada no Teatro Francisco Nunes até o próximo sábado, dia 30/9, sempre às 20 horas.

 

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Foto: Daniel Moreira

É desnecessário repetir aqui o que já foi (bem) escrito sobre este criador tão fiel ao que lhe parece instigante, destinado a causar impacto no espectador. Algo que lhe pareça artístico, distante dos padrões que orientam o teatro que lhe soa comercial.

Sobre sua longa e tão destacada carreira, leia mais aqui e aqui.

Obstinadamente fiel a si mesmo, além do artista incomum, premiado inúmeras ocasiões, apontado como o mais capaz entre todos os diretores teatrais de Minas, a entrevista abaixo reafirma as lendas que Eid construiu sem calcular: como diretor exigente, de nunca dizer meias palavras, jamais preocupar-se com bom mocismos, simpatias, de preferir o anonimato. Sem com isso diminuir a admiração que lhe (sempre) votam.

Para começar, gostaria de saber como vc percebe e lida com suas vaidades. Acho vc muito pouco vaidoso com o que faz e no trato com a sua imagem. Como não se importasse tanto com isso. Ou vc tem vaidades como todo mundo, só as mantém menos à vista? Sobre vaidade: nem sei o que é isso, me preocupo mais com a humanidade, o destino do homem na Terra,  esse paraíso que aos poucos estamos destruindo, sem remissão. Pode não parecer, mas sou uma pessoa da roça, muito ligado à natureza, pedras, bichos, árvores, água, silêncio e muita compaixão pelo ser humano. Nem me considero um artista, esta palavra ‘artista’ já me incomoda, acho ridícula, parece que somos diferentes, especiais, mas não passa de um rótulo, uma classificação ordinária. Detesto aparecer, ser objeto de atenção, prefiro o anonimato, ser apenas mais um rosto na multidão. Simples assim.

O que costuma lhe mover mais ao avaliar convites para novos trabalhos: a importância artística das pessoas e dos elementos envolvidos no projeto, a pertinência do que se pretende abordar, o afeto aos parceiros ou tudo isso misturado? Acho que é tudo isso misturado: as pessoas envolvidas, o tema a ser abordado, a liberdade de criação, a remuneração. Vivo somente de teatro, não tenho outra fonte de renda e já estou com 74 anos, sem plano de saúde, casa própria. Tenho um sítio, mas não dá pra morar lá e trabalhar em Belo Horizonte.  Mas o que pega mesmo é o TEMPO para a criação, meu tempo é longo, não quero e não sei criar a toque de caixa. Por isso desisti de trabalhar no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também dou cem por cento preferência a trabalhar nos grupos. Produções independentes ou comerciais normalmente fazem do teatro um objeto de pouca profundidade, muita correria e exasperação. Tô fora disso, quero criar no meu tempo, disso não abro mão. Quem tiver disposição para isso já terá meio caminho andado. Necessito também de abordar tudo sempre de maneira diferente, experimentar coisas que nunca experimentei, fazer do teatro uma aventura estética, para o bem ou para o mal. Não estou nem aí para o sucesso ou o fracasso. Gosto é de passar horas numa sala de ensaio, descobrindo coisas com os atores/atrizes. Ainda sinto energia para criar e sempre vou em busca do desconhecido. Pode ser que nada disso o que falei seja real para as pessoas, mas para mim é, é o que me move no sentido da arte e da criação.

Quando vc diz que necessita “abordar tudo de maneira diferente (nos seus trabalhos), experimentar o que nunca experimentou, fazer do teatro uma aventura estética”, de alguma maneira já tem em mente alguns caminhos novos, específicos, que gostaria de percorrer ou se permite esperar que o acaso e/ou as circunstâncias da criação, do momento venham lhe sugerir novas possibilidades? Olha só, sempre procuro acompanhar o que está sendo criado no teatro, brasileiro e internacional. Principalmente quando viajei muito pelo FIT (Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte) e assisti coisas que me marcaram muito. Mas esse olhar pessoal vem desde quando era estudante do Teatro Universitário (TU) e viajava para o Rio ou São Paulo para assistir Bob Wilson, Victor Garcia, um diretor francês que encenou uma Gaivota  (do contista e dramaturgo russo Anton Tchekhov, 19860/1904) maravilhosa, com a Tereza Rachel (atriz e produtora carioca, 1934/2016); os espetáculos do jovem Oficina: Na Selva das Cidades, O Rei da Vela; os espetáculos do grupo Teatro dos Sete, de Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Fernando Torres; o Teatro de Arena, de Flávio Rangel, Cacilda Becker; o Festival Internacional de São Paulo da década de 6O ou início de 70. Enfim, sempre me alimentei de um teatro instigante e novo para minha cabeça. Então estou sempre aberto e correndo atrás, procurando sentir e perceber as mudanças, mas sem perder a minha expressão pessoal, a minha visão, o meu olhar sobre a arte em geral. Agora, por exemplo, estou trabalhando com o grupo Pigmalião Escultura que Mexe, criando com ele o Macunaíma Gourmet, uma experiência nova para mim, essa relação do ator versus boneco, , então estou aprendendo como é isso. Com o Armatrux também estamos envolvidos num novo espetáculo, inspirado nas vozes de Tchernóbil (a usina nuclear), da Svetlana Aleksiévitch (jornalista e escritora bielorrussa, Prêmio Nobel de Literatura em 2015), um tema que está desestabilizando as nossas cabeças, nos provocando esteticamente nesse sentido: como abordá-lo, como levá-lo para a cena, etc. São temas e experiências novas para mim, que me desafiam. Não que me considere “um grande diretor”, apenas uma pessoa preocupada em criar o que considera importante neste momento em que vive. Acho que é por aí.

Vc atribui mais importância ao teatro chamado de linguagem e menos ao chamado teatrão? Sim. Nasci com o teatro de linguagem, os espetáculos mais instigantes que assisti na vida eram todos nessa linha experimental. Gosto de ser impactado quando assisto uma peça, de sentir as infinitas possibilidades de uma encenação. Gosto dessa poesia que percebo em outros diretores, esse olhar inesperado, encenações que nunca imaginava ser possível como leitura de um autor e, de repente, aquilo está acontecendo na sua frente. Mas o teatrão, quando bem encenado e interpretado, também tem seus méritos. Só não curto o teatro comercial, aquela porcaria que pra mim não considero nem teatro. Mas esse teatro existe no mundo todo, o classicão, a comédia, o musical, o de pesquisa, etc. etc., então faz parte conviver com tudo isso e vamos em frente.

Procede que vc não dirige nem recomenda monólogos, por considerá-los ‘vaidade de ator’? Não é verdade. O problema é o seguinte: acho que um monólogo não é para qualquer ator ou atriz, exige antes de tudo muuuuito talento. Assisti em toda a minha vida somente a cinco monólogos que considerei obra de arte: Diário de um Louco e Artaud, com Rubens Corrêa (ator e diretor matogrossense, 1931/1966);  Apareceu a Margarida, com Marília Pêra (atriz, diretora e cantora carioca, 1943/1915), no auge da ditadura; A Descoberta das Américas, com o Julio Adrião, que esteve no FIT; e aquele monólogo sobre uma catadora de papel, acho que o nome era Estamira ou qualquer coisa parecida, feito por uma atriz carioca (Estamira – Na Beira do Mundo, de e com Dani Barros). A merda é que hoje o aluno já sai da escola fazendo monólogo, virou moda fazer monólogo.É muito fácil de produzir, é só decorar a merda do negócio e sair fazendo, falando da mamãe, da vovó, da titia maluca. Me falaram muito bem do monólogo da Grace Passô, Vaga Carne, mas não assisti, os ingressos já estavam esgotados. Em resumo é isso, a arte do monólogo é para poucos, é a solidão do palco te envolvendo por todos os lados e sentidos.

Vc se sente à vontade para apontar quais seriam suas principais lacunas e/ou defasagens como dramaturgo e como encenador? Como encenador ou diretor gosto do teatro que me emociona, que me enleva, que me tira do lugar de conforto pela poesia, que me transporta para outras possibilidades, traga outros olhares sobre a arte e a vida. Esse teatro chamado “interativo” me enche o saco. Não sou ator, e como espectador não quero interagir com ninguém, isso já faço na vida. Teatro não é programa de auditório, pra isso já tem o Faustão e outras merdas do gênero. Quanto ao ator brechtiano, stanislavskiano, artaudiano, grotovskiano ou pós-dramático, o importante é o talento do ator ou atriz de mostrar no palco a sua essência  criativa, o seu magnetismo pessoal, o seu olhar político-social-poético, quando movimenta o corpo e abre a boca para dizer algo.  sobre minha defasagem como dramaturgo: gosto da dramaturgia clássica, uma história com começo, meio e fim, aristotélica. Mesmo quando não uso as palavras, como em No Pirex (montada com o grupo Armatrux), preciso contar uma história ali. Se você já leu todas as minhas peças, vai ver que trafego por vários gêneros. Desde uma peça anárquica como Delito Carnal; como um drama meio rodriguiano, como Uma Noite e Tanto; como um teatro popular, como Alma de Gato, Lágrimas de Guarda-chuva; um musical, como Hollywood Bananas; um teatro do absurdo; como Os Três Patéticos; ou em infanto juvenis, etc. Todos têm história para contar, se são bons ou não é outra coisa. Gostaria de escrever uma peça que se tornasse um clássico da dramaturgia brasileira, ainda vou tentar antes de morrer. Mas também sei dos meus  limites, tanto como diretor como de dramaturgo.

Conversando com (ator e diretor mineiro) Rodolfo Vaz, ele frisou que seus processos de ensaio normalmente duram muito mais tempo que a média. Álbum de Família, do Galpão, por exemplo, absorveu nove meses. Que benefícios vc atribui a não elaborar com rapidez? O tempo me permite errar, ir, voltar, experenciar, cortar, acrescentar, discutir, partir pra outra, duvidar. Apesar de nunca ter certeza do absoluto, de quando chegamos ao final. Sempre pode ser melhor, a estréia também pode ser apenas outro começo. Enfim, um tempo longo sempre permite encontrar outros caminhos, pois nunca sei por onde começar. Sou movido apenas pela intuição, o que importa é se o material ou o assunto te move para algum lugar desconhecido que precisa ser descoberto. E isso o longo tempo te permite, principalmente quando tem o trabalho com os atores, sensibilidades, energias, culturas, formações diferentes. Como lidar com essa constelação humana se o tempo é curto?  Mas isso tudo é problema meu, não dos atores ou de outros diretores. É um tempo pessoal, talvez uma desculpa pelas minhas inseguranças.
Pra encerrar, sua longa experiência como artista lhe diz que o teatro produzido em Minas teria algumas características que lhe seriam exclusivas? Ainda estamos num ponto de interrogação. O Trama acabou, o Invertido parece que está de recesso, o Espanca! atualmente é uma interrogação, o Luna Lunera está sem grana pra trabalhar, a Cia. Clara fechou as portas, o Galpão segura as pontas por causa da Petrobrás, o Armatrux luta sem patrocínio. E um bando de novos grupos, saídos das escolas, tentam se formar, mas sem perspectivas reais. Neste panorama, é muito difícil  dizer que existe uma linguagem própria do teatro feito em Minas ou em qualquer parte do Brasil. São acontecimentos raros, aqui e ali, que logo desaparecem nesta tragédia da cultura brasileira. É um país onde o mecenato praticamente não existe, somente ricos burros, idiotas, gananciosos, assassinos do povo brasileiro.

23 ANOS DE ÍMPETOS E PULSAÇÕES

Restrita apenas a amigos e convidados, a pré-estreia foi ontem, dia 11/5. Agora aberta ao grande público, a temporada de A CORDA começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte. É onde vai permanecer em cartaz até o próximo domingo, dia 14/5, sempre a partir das 19 horas. É o 18º espetáculo do Grupo Trampulim, núcleo de palhaços que este ano completa 23 anos de estrada. Mais de duas décadas de valentias! Veja aqui: http://www.trampulim.com.br/blog/

ACORDA Crédito Bruno Vinelli (33)

Dirigido por Paula Manata e coordenação de dramaturgia de Assis Benevenuto, A CORDA aborda relações entre espaço e tempo. Em casa, quatro palhaços organizam seus mundos e encaram os múltiplos alcances que uma casa pode abrigar: o lar, a rotina, a segurança, o confinamento, a vulnerabilidade. Neste espaço de pausa, eles vivem uma sequência irreversível de eventos e significados. Deparam com novas extensões do medo, de delírio entre sono e vigília e percebem que a vida lhes escapa ao controle.

Ficha Técnica do Espetáculo:

Concepção: Adriana Morales, Tiago Mafra, Poliana Tuchia, Chaya Vazquez e Paula Manata. Direção: Paula Manata. Assistente de direção: Rafael Protzner. Dramaturgia: Assis Benevenuto e Adriana Morales. Elenco: Adriana Morales (Benedita Jacarandá), Chaya Vazquez (Conselhos), Poliana Tuchia (Socorro) e Tiago Mafra (Sabonete). Cenário e Projeto Gráfico: Jônatas Milagres Campos. Direção Musical e Trilha Sonora: Rafael Macedo. Figurinos: Roberta Mesquita. Consultoria de estilo (figurino Conselhos): Júnia Melilo. Iluminação: Flávia Mafra. Produção: Isabela Leite. Comunicação: Poliana Tuchia. Estagiária: Polyane Santos. Assessoria de Imprensa: Doizum Comunicações.  Realização: Grupo Trampulim. Duração: 50 minutos. Classificação indicativa: 12 anos

SERVIÇO:

Em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil/CCBB (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, Belo Horizonte/MG).  Sexta, sábado e domingo, às 19 horas. De 12 a 14 de maio de 2017. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Venda de ingressos na bilheteria do local ou pelo site www.eventim.com.br

Abaixo, o Trampulim conta ao Blog da Cena sobre sua história de ímpetos e pulsações!!

Esta é uma história de palhaços, são 23 anos de grupo Trampulim. Tudo começou com a dupla Tramp e Polino. Aí, Polino virou Pulim, os nomes se somaram (Tramp + Pulim) e o grupo estava batizado. Os dois sabiam que deveriam saltar muito nessa vida. Por isso, convidaram um tanto de artistas, amigos talentosos e pessoas que sabiam saltar e já tinham o que “O Circo”, o primeiro espetáculo do grupo, precisa(va) ter: corpos de atleta e caras de pau.

Os que aceitaram o convite foram fundamentais, trouxeram cimento, cola, suor, corpo, cor e brilho. Muita gente entrou, saiu, chegou, passou, foi e ficou! Muitas idas e vindas. Gente a perder de conta, mas não da memória! Contar tudo daria um livro.

Tramp e Pulim, também conhecidos como Inimá Santos Júnior e Rogério Sette Camara, queriam porque queriam uma sede pro grupo. Apoiados pela palhaça Maroca, também chamada Paula Manata, perceberam que a sede poderia ser uma escola, onde pudessem ensinar e aprender circo. Nasceu assim a Spasso-Escola Popular de Circo. Lugar que deu rumo a muitas vidas, que transformou a história circense em Belo Horizonte.

Foi lá onde começamos a aprender a jogar. E o jogo é fundamental para o palhaço que praticamos. É o jogo do corpo, da cena, da improvisação, do status. O jogo do palhaço. A busca da diversão e da brincadeira, das regras e do rigor. Este jogo é vivo, pulsante e inesgotável.

ACORDA Crédito Bruno Vinelli (62)

O tempo passou e a Spasso já não era mais a sede do Trampulim, mas nunca deixou de ser a nossa casa. A formação do grupo também já não era mais a mesma: Tramp e Pulim já estavam mais Juninho e Rogério, os responsáveis pela primeira escola de circo de BH. Enquanto a Trampulim se tornava a primeira companhia de técnicas aéreas de Belo Horizonte com o espetáculo OraProCircus.

Tiago Mafra e Adriana Morales chegaram ao Trampulim em OraProCircus. Tiago voltava de uma viagem astral pela Índia e despencou (de maiô) num ensaio do grupo. Odiou o figurino, mas ‘transcendeu’. Adriana diplomou-se em Jornalismo, mas não abraçou a profissão. E foi procurar as aulas de aéreas de Roberta Manata e Luciana Menin, que também passaram pelo Trampulim. Já Poliana Tuchia jogava capoeira, levava uma vida pacata em Macacos, onde hospedou o carioca Geraldim Miranda, futuro diretor do OraProCircus.

Para situar tempo e pessoas: em 1994, quando o Trumpulim começava, Adriana Morales treinava incessantemente a coreografia de “FlashDance”, na sala de casa; Tiago Mafra e Poliana Tuchia ainda não se conheciam, mas assistiam Dirty Dancing na Sessão da Tarde. E Isabela Leite fugia de casa, levando uma calcinha sobressalente na mochilinha laranja. Já era muito responsável, apesar de ter apenas sete anos.

Podemos continuar? Durante seis anos, o Ora circulou até. Viajou inúmeros quilômetros, subiu e desceu estrutura, ajustou parafusos, carregou quilos e mais quilos de ferro.

Pela ordem de criação, depois veio A Ponte. O espetáculo foi remontado três vezes. Três é o tempo ideal do palhaço. Porém, a primeira estreia foi um fracasso e o fracasso é o ouro do palhaço.  Seus personagens são moradores de rua – e o palhaço é o que?

Depois disso, Adriana e Tiago montam Uma Surpresa para Benedita, primeiro aventura da dupla. O que é  o maior sucesso do grupo completa 14 anos de estrada agora em 2017.

O espetáculo ganhou o mundo quando Tiago e Adriana decidiram ir a Toronto, Canadá. Foram fazer um curso com Sue Morrison, mestra essencial e referencial da nossa forma de enxergar o palhaço como agente transformador. A dupla retornou a BH com um novo olhar para o jogo do palhaço e importantes descobertas sobre a improvisação.

Na volta, uma surpresa! Sem sede, sem lenço e sem documento, o grupo se dividiu em dois.  Devagar, o Trampulim foi renascendo das cinzas,  aprendendo dia a dia que boa dose de força e de caos são essenciais a qualquer reconstrução. Descobrindo que trabalhos corporativos podem salvar um grupo, sem perder excelência artística. E que a música reforça os laços entre pessoas, é uma energia agregadora e transformadora. Assim nasceu Pratubatê.

ACORDA Crédito Bruno Vinelli(84).

Noutro ÍMPETO de sobrevivência, nasceu a Invasão Mundial de Palhaços E Todos os Outros. Um festival inédito em BH, disposto a fortalecer a cena circense mineira e formar, capacitar e aperfeiçoar artistas. De cara, trouxe a oficina “O Clown Através da Máscara”, de Sue Morrison, oportunidade para palhaços locais experimentarem um novo olhar sobre seu ofício, sobre o estado do palhaço.

Poliana aproveitou para experimentar também: propôs que seu TCC de bacharel em Artes Cênicas, na UFMG, fosse um novo espetáculo do Trampulim. O grupo ainda não tinha sede. E Poliana queria usar a estrutura da Ponte. Uma estrutura linda, que girava igual roda gigante, por isso precisava de um galpão também gigante para ser montada. Aí o E.T. – Espaço Trampulim, desceu da nave e se materializou no bairro Jardim América.

Batizado como “Labirinto”, o TCC foi julgado por uma banca que dava frio na barriga: Rita Gusmão, Fernando Mencarelli e Mônica Medeiros. Mas ganhou 100!!!!!!! Pena, o espetáculo nunca alavancou.

Pulando fatos e aumentando outros, “Manotas Musicais” nasceu meio elefante branco: daqueles trabalhos grandes, de montagem difícil e transporte caro, que empacam no depósito.  Mas o Trampulim é valente, persistente e aprendeu a grande sabedoria da adaptação com tantas mudanças e dificuldades. Para surpresa de todos, “Manotas” chega aos palcos dos principais festivais mineiros, se torna o carro-chefe do grupo.

Depois dos palcos mineiros, era hora de nos lançarmos Brasil afora e precisávamos de uma produtora muito responsável. Aí lembramos que a menina da mochilinha laranja já devia ter crescido, era a pessoa ideal! Isabela Leite!

Por falar em parceiro, sob o teto do Gonguê – sede do Trampulim, da banda  Elefante Groove e do Maracatu Trovão das Minas -, Poliana Tuchia veio substituir uma atriz que estava grávida, em “Cordão do Riso”. Poliana se confunde. Não lembra se era Roberta Manata, Tana Guimarães ou Adriana Morales.

ACORDA Crédito Bruno Vinelli (118)

Anos antes, um encontro especial aconteceu  em São João Del Rei: Lenis Rino entrou na história do grupo. Trazia  um tesouro consigo, o Maracatu.

Socorro e Conselhos nasceram em Diamantina, pelas mãos do Doutor Escrich. Na estreia de “Manotas Musicais”, Adriana Morales liga para Rafael Protzner e é Alfinete, um palhaço cabeçudo, um substituto insubstituível, quem dá as boas vindas e logo vira “da família”. Começa a ‘parição’ no Trampulim: devidamente aconselhada, Milagros deu luz à Maia.

Marcos Henrique já tinha entrado nesta história, mas estava escondido nos bastidores, apertando parafusos. É o nosso cenotécnico oficial.

E Maria Carolina Campos, atual assessora jurídica do grupo, finalmente se aproxima. Não chegou antes porque morria de medo de Benedita Jacarandá! Acredita?

E para quem ainda não sabe, nestes 23 anos de existência o Trampulim já criou 18 espetáculos, mantém cinco em repertório e diversas oficinas de formação. Conquistou prêmios expressivos nas áreas de circo, teatro de rua e artes cênicas. Realizou duas edições do festival ÍMPETO – Invasão Mundial de Palhaços e Todos os Outros. Já se apresentou no Canadá e em Portugal. Em 2016, participou do projeto de circulação Nacional Palco Giratório, realizado pelo SESC Nacional: cumpriu 37 apresentações em 31 cidades de 11 estados brasileiros. Junto com a apresentação de A Ponte, no Festival de Curitiba, foi o que realizou de mais de mais notável em sua já vasta circulação nacional pelo país.