UMA PROPOSTA INQUIETANTE

Bobagem pensar e/ou afirmar que possamos estar sempre prontos para algum enfrentamento, para qualquer espécie de diálogo. Só em alguma medida (maior ou menor) estaremos preparados, disponíveis. É ilusório supor estarmos 100% dispostos, já que a perfeição é uma meta, como dizia a canção de Gilberto Gil. E a condição ideal, decididamente, nunca existe. Assim também ocorre na relação entre espetáculos e espectadores, mesmo entre os aparentemente mais preparados. Como é comum pensar um crítico e sua relação com o teatro, as artes cênicas.
Confirmei outra vez esta limitação inevitável ao rever As Rosas no Jardim de Zula no 24º Encontro Sesi de Artes Cênicas, que oferece 50 programas gratuitos (somando oficinas e espetáculos de teatro, dança e música, em diversos espaços de Araxá), entre sexta, 31/10, e o próximo sábado, 8/11. Ainda que a montagem que inaugura a Zula Cia de Teatro, de Belo Horizonte, venha absorvendo constantes mudanças, alterações – desde a estreia, em 2012, como cena curta programada pelo festival desta modalidade tão em voga, que o Galpão Cine Horto promove há mais de uma década.
Entretanto, minha compreensão sobre o que esta obra tão singular vem propor mudou substancialmente justo quanto aos elementos que não se alteraram desde que a vi pela primeira vez, no Teatro João Ceschiatti, pela edição 2014 do Verão Arte Contemporânea/VAC. A despeito das qualidades que me pareceram evidentes desde sempre, é bem provável que as ressalvas que lhe fiz se devessem a eu não estar apto a perceber o teor de inquietações com que ela se estabelece.
Inquietante tanto no modo insólito que adota ao narrar, por abdicar dos caminhos tradicionais de dramaturgia, que pode fazer o público duvidar da sua capacidade de chegar a bons termos, a se fazer compreender; quanto à história em si que vem tornar pública: a mãe de três filhos que um dia, inesperadamente, abandona a família, por uma existência marginal, marcada por violência, consumo de drogas e prostituição. Uma ocorrência pessoal de ordem íntima, socialmente mal vista, levada ao teatro. Permissão chamada de teatro-documentário, que identifica uma porção de novos trabalhos: como Luiz Antônio Gabriela, montagem de São Paulo, e Carolina de Lorca, solo de Carolina Correa, outra programação do 24º Encontro de Araxá.
Inquietar não é um valor em si: os programas de TV exibem inúmeras cenas que inquietam bastante, mas não transformam nossa percepção. Ao contrário, geralmente reforçam certezas antigas, conservadoras. Já a inquietação proposta por Zula, pela direção de Cida Falabella, desacomoda nossas convicções, nos convoca a repensar. E re/pensar é a condição essencial do processo de aprendizagem, o que nos livra de engessar, de avinagrar. É uma das melhores virtudes que as artes nos oferece. E o que torna As Rosas no Jardim de Zula, esta proposição teatral imperdível, tão incomum e admirável.

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