PÃO, VOCAÇÃO E GRANDES PARCEIROS!

Curta temporada para Cachorro Enterrado Vivo: somente de hoje a domingo no Teatro João Ceschiatti. É imperdível! Produzido com recursos do próprio bolso, este primeiro solo de Leonardo Fernandes já amealhou dividendos artísticos inestimáveis: foi eleito um dos 11 melhores espetáculos de 2016 pelo Estadão; uma das melhores estreias do ano pelo Guia Folha de São Paulo; indicado em seis categorias do recente Prêmio Copasa/Sinparc (Iluminação, Trilha Sonora, Texto, Ator, Diretor e Cenário, premiado), em seis do Prêmio Aplauso Brasil (Iluminação, Trilha, Figurino, Espetáculo e Ator, que coloca Leonardo em disputa contra Caco Ciocler, Ando Camargo, Thiago Fragoso, Eriberto Leão e Fúlvio Stefanini; o resultado será divulgado em meados deste ano). 

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Cachorro Enterrado Vivo rendeu diversos prêmios e indicações a Leonardo Fernandes

Pela interpretação impecável dos três personagens do texto especialmente criado por Daniela Pereira de Carvalho, Leo foi eleito Ator do Ano pelo Blog do Arcanjo – Uol Entretenimento. Segundo o júri da Associação Paulista dos Críticos de Arte, também foi considerado o melhor ator da temporada teatral paulistana em 2016. Na primeira vez que uma produção mineira vence nesta categoria em 60 anos de premiação da APCA.

Carioca,  15 textos teatrais já montados, Daniela Pereira de Carvalho é uma das dramaturgas mais bem mencionadas do país. A materialização deste Cachorro ergue uma ponte de criação e afeições entre ator e autora. É ela quem o Blog da Cena entrevista nesta edição. E Leo faz questão de frisar a qualidade do trabalho da nova parceira, o valor da relação que estabeleceram. A dramaturgia da Daniela propõe sempre vários níveis de profundidade, e o bonito nisso é que ela consegue se comunicar com todo tipo de público. Ela aborda situações limites de forma poética e impactante. Há sempre algo de transgressor na dramaturgia dela que desafia o ator, o encenador, o espectador. Isso é um presente para a criação. Se ela escreve pensando em um ator, ela faz parecer que só aquele ator poderia fazer aquele texto. Seu processo criativo é intenso. Digo isso porque somos amigos, e às vezes ela me liga pra dizer um insight que teve, uma resolução, um título… e eu penso: “a cabeça dela não para”. Quer algo mais bonito numa parceira de trabalho?

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Mais sobre Daniela: https://pt.wikipedia.org/wiki/Daniela_Pereira_de_Carvalho

Logo abaixo, a entrevista.

Pensava que vc fosse uma atriz que derivou para a dramaturgia…

Eu fiz CAL (Centro de Artes de Laranjeiras), mas não considero que tenha sido uma formação de atriz. Foi uma formação em Teatro. Eu era muito nova e naquela época – nos anos 90, no Rio – não tinha nenhum curso de formação em dramaturgia. Na verdade, ainda não tem. Em São Paulo tem. Eu fazia aula com o Domingos Oliveira e fui fazer CAL. Aprendi muito, muito mesmo, sobre Teatro e conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida: o Bruce (Gomlevsky), Os Dezequilibrados, Pedro Garcia Netto, Pedro Osório. Muitos amigos mais! Logo depois, entrei na graduação de Teoria do Teatro na Unirio. Tive uma sorte muito grande nessa faculdade! Um curso muito bacana mesmo! Eu nunca fui, nem nunca vou ser, uma autora afastada da “feitura” da cena, da construção do jogo com o ator, com a linguagem da direção… Isso tem uma certa origem na formação que a CAL me proporcionou.

O que lhe despertou para a dramaturgia, como um hobby ou como uma carreira? Quando vc se convenceu que tinha talento para isso, tinha algo a acrescentar?
Não é hobby de jeito nenhum. É a minha vida. Minha formação é toda em Teatro. Desde 2002, quando estreou a primeira peça que escrevi, “Vida, o filme”, são mais de 15 peças montadas. É meu trabalho, como ganha pão e vocação. Não tenho nenhuma outra “atividade”. O Teatro entrou na minha vida quando eu tinha 12 anos e nunca me direcionei para outros interesses. Naturalmente, porque foram interesses menores. Essa coisa de talento é muito complexa – de “se convencer que tem talento”. É sempre bom pensar em uma medida entre autoconfiança e arrogância. Cedo, o Teatro me deu uma turma. Pessoas como o Tomás Ribas, iluminador, meu grande amigo da vida. Os Dezequilibrados todos. O Bruce. Ir desenvolvendo minha formação ao lado deles foi fundamental  na consolidação da confiança nas minhas palavras escritas. E também parcerias fundamentais que foram acontecendo – com a Xuxa Lopes, por exemplo. Além dos professores que me formaram e me dão muito apoio até hoje. Flora Sussekind, Ângela Materno, Tânia Brandão.
O Movimento NOVA DRAMATURGIA CARIOCA, que o Roberto Alvim, no início
dos anos 2000, realizou na Sala Paraíso do Teatro Carlos Gomes tem que –  obrigatoriamente  – ser citado por muitos dos dramaturgos do Rio de Janeiro como uma espécie de start point ou marco inicial, em alguma medida. Nenhum outro artista trabalhou tanto, em tantas vertentes, quanto o Roberto. Ele é ‘o cara’ – e não digo isso porque ele é meu irmão. Não, ele é mesmo ‘o cara’.
Não tenho qualquer dúvida sobre a minha vocação. E aguento as partes dolorosas da escolha em seguir essa vocação estruturalmente. É uma entrega absoluta. Minha vida é completamente sustentada pelo Teatro em todos os aspectos. Meus afetos estão profundamente ligados ao Teatro. Meus irmãos neste mundo, por exemplo, Roberto Alvim, Daniel Tendler, Marcelo Pedreira, vieram da relação com o Teatro,

Poderia citar quais as partes dolorosas da sua relação com o teatro?

Tem um texto do Caio F(ernando Abreu), chamado “Primeira Carta Para Além dos Muros”,
em que ele diz: “É com terrível esforço que te escrevo. E isso agora não é mais apenas uma maneira literária de dizer que escrever significa mexer com funduras – como Clarice, feito Pessoa. Em Carson McCullers doía fisicamente, no corpo feito de carne e veias e músculos. Pois é no corpo que escrever me dói agora. Nestas duas mãos que você não vê sobre o teclado, com suas veias inchadas, feridas, cheias de fios e tubos plásticos ligados a agulhas enfiadas nas veias para dentro das quais escorrem líquidos que, dizem, vão me salvar. Dói
muito, mas eu não vou parar. A minha não-desistência é o que de melhor posso oferecer a você e a mim neste momento. Pois isso, saiba, isso que poderá me matar, eu sei, é a única coisa que poderá me salvar. Um dia entenderemos talvez.” É lindo esse texto do Caio. Muito lindo!
Escrever, no meu caso, escrever peças de Teatro, potencializa, em alguma medida, um estado de desassossego que dói. No corpo e no espírito. Estar o tempo todo absorvendo ideias, sentimentos. O pensamento nunca para. Não é um trabalho com expediente determinado. Invade todo tempo e espaço da vida, das relações. Você vai tentando
separar – tempo e espaço – dentro do que é possível. Tem que aprender a lidar com as épocas que ganha bastante dinheiro e com aquelas em que ganha pouquíssimo.
Como diz a Nina de “A Gaivota”: “É preciso ter fé e saber carregar a cruz”.

Este texto do Caio é de Pequenas Epifanias (Ed. Agir), né? Adoro este livro, tem uns textos nele que deveriam ser levados à cena…

Eu queria fazer alguma coisa em torno do Caio. O Gawronski, meu parceiro em três espetáculos, era muito próximo a ele. Ano passado nos reunimos parar ler coisas e pensar. Mas acabou não acontecendo, não chegamos a uma conclusão. Mas tem tanta coisa linda do Caio.

Algo lhe estimula em particular ao escrever uma peça? os diálogos, as situações, a trama, o tema, o pensamento que norteia a obra?

Já fui bem mais apegada a diálogos do que sou hoje. Na época do Tudo é Permitido, do Não Existem Níveis Seguros Para o Consumo Destas Substâncias falavam muito bem dos meus diálogos. Mas o Cachorro, por exemplo, é um exercício de não-diálogo… Hoje, o mais importante pra mim, o que mais me move ao escrever, é a questão da peça, o pensamento estrutural dela, escolher a melhor estrutura narrativa. Cada peça acaba sendo uma questão a desenvolver, uma ideia, um pensamento em cima do qual a obra se estrutura. E não tenho nenhum vínculo formal com nenhum tipo de militância específica. A ideia de categorização me incomoda muito e não mantenho esse tipo de perspectiva no meu trabalho. Gosto da liberdade mesmo, cada peça abrindo novas fissuras e/ou possibilidades. Por isso pensei várias vezes antes de aceitar o convite da Marcia Zanelatto para integrar o grupo de autores da Rio Diversidade. Acabei aceitando por conta do horror deste conservadorismo ressurgente, deste ano de franco retrocesso das liberdades! Acho lamentável tudo o que limita e aprisiona o pensamento e o afeto – em qualquer âmbito. É um presente histórico bem perturbador esse que pretende cassar liberdades e penalizar diferenças. Horrível.

Algum diálogo, situação, algum personagem em algum dos seus textos lhe agrada sobremaneira aos demais? E na dramaturgia de outros autores, o que lhe soa insuperável, que vc desejaria ter escrito?

Gosto de várias coisas que escrevi – ficaria auto elogioso dizer especificamente. E acho que não existe nada mais bobo do que o autoelogio. Queria escrever como o Domingos Oliveira. Sempre vou querer. Como o Edward Albee. Como o Jon Fosse. E como o Samuel Beckett, é óbvio, meu objeto de estudo, não ingenuamente.

Como vc costuma lidar com suas percepções? qdo sente que o texto está pronto? é algo racional ou mais intuitivo? ou é o retorno de companheiros para os quais vc está escrevendo?

Nunca vem de fora. Tem uma hora que, de fato, eu percebo que está pronto. Não existe isso – pelo menos para mim – de qualquer tipo de avaliação externa ditar qualquer tipo de “limite” ao meu trabalho.

E o que lhe ocorre quando o texto parece superior a todo o resto de alguma encenação que vc assiste?

Que o texto sempre pode ser remontado! Uma encenação ruim é só uma experiência ruim para aquele texto. Outras seguirão, em outros sentidos. Pessoalmente, nunca me senti assim em relação às minhas peças. Talvez por trabalhar sempre com diretores parceiros. Alguns em mais de uma peça, como o Ivan Sugahara, durante os anos em que integrei a Cia Os Dezequelibrados. O Tato Consorti em Tudo é Permitido e Não Existem Níveis Seguros Para o Consumo Destas Substâncias”. E meu amado e ídolo Gilberto Gawronski em Por Uma Vida Um Pouco Menos Ordinária, As Próximas Horas Serão Definitivas e Nem Um Dia Se Passa Sem Notícias Suas. Mas não acho que apenas a repetição da parceria seja fator determiante nessa harmonia. Minha experiência com o Mauro Mendonça Filho em Renato Russo  – O Musical é o que me dá plena consciência disso. Não nos conhecíamos até começar a trabalhar e foi intenso, muito intenso. E o Maurinho virou uma referência para mim – de trabalho de direção, de pensamento de encenador. Além de um irmão
na vida – de verdade. Mas é injusto não dizer que trabalhar com João Fonseca, Daniel Herz,
Pedro Henrique Neschling e Henrique Tavares também não é uma plenitude! Eles são incríveis. Parceiros incríveis. Tenho orgulho de cada peça que construí com cada um desses diretores. Cachorro Enterrado Vivo me proporcionou um outro tipo de experiência – em
relação à vertente da encenação e à minha relação como autora.  Não conhecia o diretor e não tive qualquer contato com ele até o dia da estreia. Para minha concepção como autora, o grande diálogo foi sempre a construção da interpretação do Leo – que pude assistir passo a passo, mesmo de longe, em leituras via Skype. Fizemos isso desde o começo. Escrevi a primeira parte da peça e lemos. Seguimos assim até o final. Várias vezes. Antes de sequer começar os ensaios e mesmo depois. Nessa peça, nesse processo especificamente, minha relação com a encenação está intrinsecamente vinculada à composição do ator, Leonardo Fernandes. Ao trabalho minucioso, rigoroso, muito, muito apurado dele. Embora, eu adore tudo na peça! Luz, cenários, figurinos, música. A fantástica direção de movimento da
Eliatrice Gischewski. Tudo!

O sucesso de Cachorro Enterrado Vivo em Belo Horizonte e em São Paulo vem consolidar de que maneira as relações pessoais e artísticas que vc passou a manter com Leo e com a cena teatral mineira?

Um encontro muito, muito feliz na minha vida, o Leonardo Fernandes. CACHORRO ENTERRADO VIVO é uma peça que me deu um enorme prazer. Quer dizer… O processo de escrita foi doloroso. Me consumiu, foi duro mesmo. Mas desde que fui a BH para estreia, é só felicidade. O Leo é precioso! A gente tem muita coisa parecida, de pensamento e
referência. Então, jogamos bem juntos. Temos planos para várias coisas, além de continuar com o CACHORRO… Nossa próxima peça, se chama COMPORTAMENTO. É sobre pedofilia. Também está sendo punk trabalhar nela. Desde 2015 tenho tido alguns encontros com Belo Horizonte e espero continuar tendo…Tem sido muito prazeroso.

Que outras relações vc manteve com a cena mineira?

Na verdade, o encontro que se deu, de fato, foi com o Leo. Mas em 2015 ministrei uma oficina muito bacana no CCBB e em 2016 teve a temporada de Contra o Vento, também no CCBB!, também muito bacana!!!!!. Mas o Leo e o Cachorro são o ponto principal. Eu tive um final de semana de “trabalho” com a Rita Clemente. Não fomos em frente, mas foi bacana mesmo assim (sobre este encontro, Rita Clemente falou ao blog: “A princípio não temos nenhum projeto em comum, mas a Daniela é uma grande autora, além de uma artista
profunda, comprometida com aspectos estéticos muito especiais. Um tipo de artista que admiro, pois não está aliada conceitualmente à esse surto de ‘atualidade’ a que temos sido bombardeados e sim em buscar dar um passo à frente”.)

O número de dramaturgOs é nitidamente superior ao de dramaturgAs no Brasil, quem sabe, no mundo. O fato de ser uma das mais atuantes, conhecidas e bem mencionadas sobrecarrega seu senso de responsabilidades? de alguma maneira vc se sente comprometida a falar das opressões às mulheres no Brasil e no mundo?

Comprometida me sinto, sim, é claro. Mas sobrecarregada, não. Há uma boa quantidade de dramaturgas mulheres na minha geração… Marcia Zanelatto, Julia Spadacccini e Carla Faour, por exemplo, minhas grandes amigas. Grace Passô, Verônica Stigger… Só para dizer alguns nomes cujo trabalho acho bem bacana. Tem muitas outras. O número de homens em qualquer cargo – fora do campo doméstico – é sempre superior ao de mulheres. Não é uma questão do teatro ou da dramaturgia, evidentemente. É do mundo como o mundo  – historicamente – se organizou até hoje… Há pouco tempo li uma matéria sobre uma sitcom
americana protagonizada pela Lily Tomlin e pela Jane Fonda – duas grandes estrelas – chamada Grace and Frankie – nome dos personagens delas – e os salários das duas era o mesmo dos personagens coadjuvantes…. Isso não aconteceria se os protagonistas fossem
masculinos certamente….  Robin Wright teve que fazer jogo duro para receber o mesmo que o Kevin Spacey, num seriado em que os dois dividem as narrativas principais. Enfim, muitas questões sobre o feminismos estão sendo revisitadas nesses dias de agora – isso é bem estimulante. E vejo uma produção bem profícua de dramaturgas. Quando eu era jovem e comecei a me interessar por teatro, a única referência que tive foi a Bia Lessa. Uma referência foda, obviamente. O trabalho dela é incrível. Mas, lá pelos anos 90, tinha toda aquela geração de encenadores… E a única artista que – pessoalmente, é claro – foi, e sempre será, muito importante como formação inicial de “espectadora que estava começando a fazer teatro” foi a Bia mesmo.

A situação política e econômica do país permite pensar que cenários para a produção artística? que perspectivas vc alimenta para sua obra em 2017?

O que, nesse momento, se insinua mais imediato é a necessidade de resistência – de luta mesmo. Ainda mais aqui, no Rio. Um Estado falido, a entrada de um prefeito que gera muitas dúvidas… Mas isso não é desanimador. É só a realidade (já conhecida) do país em quase todas as conjunturas. Quem faz teatro tem que lutar. Assim como professores e médicos e garis lutam no serviço público. Não há como fugir desse enfrentamento. Haverá pouco dinheiro – é fato. E um espaço enorme para se pensar e construir e agir. Não é momento para esmorecer, não. Sinto meus amigos e parceiros muito despertos – e isso
dá uma sensação boa apesar do cenário em trevas. Estou concluindo uma dissertação de (…) e isso vai ocupar – intensamente – meu começo de ano. Mas já tenho três projetos para
2017. Uma peça com a Xuxa Lopes. Uma nova parceria com o Leonardo Fernandes e o Adriano Saboya (de Tudo é Permitido e Não Existem Níveis Seguros…) chamada Comportamento. E um novo trabalho com o Bruce Gomlevsky.  Renato Russo – O Musical
voltou agora em janeiro, no Rio, e Cachorro Enterrado Vivo agora em março, em BH. Estas duas peças devem viajar mais durante o ano. E a Mostra de Dramaturgia LGBT, Rio Diversidade, também voltou em janeiro, no Rio. O país está muito complicado… Mas vamos em frente!

O Brasil ficou em sexto lugar no ranking da pesquisa sobre o nível de ignorância da população em 40 países. Seu teatro teria algo a dizer aos ignorantes ou aos que não estão computados nestes números?

Bom, é preciso tentar discernir conceitos diferentes de ignorância. Pensando no Brasil, restritamente. Há uma enorme parcela da população sem acesso à educação – educação básica mesmo. Citando aqui uma matéria do site UOL de um ano atrás:
“Apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. (…) Numa situação ideal, os estudantes que completam o ensino médio deveriam alcançar esse nível — no Brasil, o ensino médio completo corresponde a 12 anos de escolaridade.”  A matéria que citei está aqui: https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/02/29/no-brasil-apenas-8-escapam-do-analfabetismo-funcional.htm
Essa precariedade educacional certamente contribuiu para o alto índice de ignorância apontado nesta pesquisa – onde a Holanda possui o menor grau. Este quadro – de deficiência austera de formação – evidentemente impõe limites severos à recepção das obras de arte e seu efeito estético. Pensamento e sentimento, em alguma medida, estão estruturalmente ligados. Mas – e, talvez, eu esteja seja um pouco ingênua raciocinando
assim – algumas obras de arte enfrentam e detonam essas barreiras criadas pela falta de informação e acesso à cultura – impostas pelo subdesenvolvimento educacional à população brasileira.
A Legião Urbana – para usar um exemplo relacionado a uma peça minha – atravessou os últimos 30 anos, com três acordes básicos, levando gerações a se perguntarem “Que país é esse?”. As letras do Renato Russo são muito elaboradas, sofisticadas mesmo – e tem grande alcance. Nossa peça, Renato Russo – O Musical nos faz viver isso – a cada
apresentação. Num país de analfabetos e analfabetos funcionais, a música forma o pensamento e as emoções . E o teatro também  – que é uma arte oral-visual, em síntese – ajuda a suprir as lacunas, a preencher os vácuos. Há outro modo de ignorância, entretanto. A ignorância da parcela de “letrados” que  – apesar da capacidade de articulação de ideias e
mentalidades – são preconceituosos e intolerantes. O teatro – e toda arte – deve enfrentá-los sempre – com atenção e força. Cada peça que escrevo compactua com esse enfrentamento.

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O espetáculo retorna ao cartaz após dez anos

Sintetize seu envolvimento acadêmico, seu objeto de estudo no mestrado e o que vc objetiva com esta graduação.

Samuel Beckett escreveu em 1930, quando era ainda bem jovem, um ensaio chamado Proust sobre À La Recherche Du Temps Perdu. O crítico alemão Wolfgang Iser – em seu ensaio When Is the End Not the End? The Idea of Fiction in Beckett – levanta a hipótese de que, ao escrever sobre a obra proustiana, Beckett estaria delineando alguns princípios da própria poética que constituiria futuramente em sua obra. Alguns outros estudiosos de Beckett também levantam esta hipótese, como James Knowlson, por exemplo. Meu trabalho é sobre essa relação entre o ensaio Proust, a dramaturgia beckettiana e  procedimentos narrativos usados por Proust em sua À La Recherche Du Temps Perdu. Estou estudando especificamente três peças: A Última Gravação de Krapp, That Time
e Embers (uma peça radiofônica). E a memória é a questão em torno do qual o mote do trabalho se estrutura. Nesse momento, minha aspiração é concluir! É um trabalho pesado, muito pesado, duríssimo. Tenho uma orientadora incrível. Minha professora e amiga muito amada há 20 anos, desde a graduação, Flora Sussekind. O que aumenta consideravelmente minhas responsabilidades. Aliás, na Unirio, os professores do Depto de
Estética e Teoria Teatral são pessoas muitos importantes na minha formação, na minha vida: Ângela Materno, Tânia Brandão, Beti Rabetti, Ana Maria Bulhões, José da Costa.   Ronaldo Brito e Luiz Camilo Osório – que já não estão mais lá. Foi uma graduação e está sendo uma pós-graduação estruturalmente importante. Quero ter forças para ir em
frente – talvez, quem sabe, um dia, dar aulas lá, nesse departamento que me é tão caro. E a intensidade dessa interlocução com a academia causa transformações profundas na minha relação com a escrita dramatúrgica – com toda certeza.

Os títulos dos seus textos teatrais são são especialmente chamativos, instigantes, raros, o próprio processo de criação lhe ‘impõe’ estes títulos ou eles são uma fonte de prazer? demora a encontrá-los?

Tenho uma relação seriamente obsessiva com os títulos das minhas peças. Começo a pensar numa coisa – sobre uma coisa que quero transformar em peça. Uma ideia, uma questão e, desde este ponto, enquanto vou formulando a estrutura narrativa, também vou formulando o título. Às vezes, encontro rápido. Noutras, passo por várias hipóteses até encontrar. Muitos dos meus títulos são referências – a um álbum, aquela frase ao lado das caixinhas de cigarro, um filme. É um prazer – como escrever a peça também é. Mas um prazer desvinculado da ideia de relaxamento, de certo modo. “Um desespero agradável”, citando Caio F.

Se eu lhe pedisse para destacar um grande parceiro em sua carreira, que nome primeiro lhe viria à mente?

Trabalhei com grandes parceiros. Os Dezequilibrados, por exemplo. E a Liliana Castro, com quem fiz três espetáculos muito importantes para mim. Poder chamar a Xuxa Lopes de parceira, hoje em dia, me deixa, atordoadamente, vibrante. E é uma realidade. Estamos, neste momento, construindo um espetáculo novo, A MULHER LARANJA, e temos planos,
muitos planos pela frente. O iluminador Tomás Ribas é um grande parceiro também. Um interlocutor precioso nas peças em que faz e mesmo nas que não faz a luz. Ele é uma
espécie de voz na minha consciência. Está sempre em mim. E tem o Bruce Gomlevsky! Meu cara em cena desde a primeira peça. Talvez até antes disso, porque eu já o amava na época da CAL. É um ator, um artista faminto. Não descansa e não me dá descanso um segundo sequer em sei lá quantos anos de amizade… Mais de 15 certamente! Muito culto, muito
febril, muito comprometido e muito determinado a realizar. A sensação de vê-lo interpretar uma cena de um personagem chamado Andy, na minha primeira peça, Vida, o filme, viverá em mim para sempre. Foi quando aceitei e compreendi o conceito de milagre
como uma subversão extraordinária das possibilidades. É meu irmão. Meu parceiro na vida. Já temos uma história… Renato Russo – O Musical voltou em cartaz dez anos depois de estrearmos pela primeira vez. É uma experiência inebriante, para mim, olhar o Bruce em cena, com o violão, falando e cantando e me transpassando em sua composição do
nosso ídolo Renato. E que sorte!  Temos a vida pela frente – certamente juntos. Uma peça
nova – que já começa a se desenhar na minha cabeça – é/será um solo para ele, que já está sabendo disso… Rs!

Os prêmios e as indicações à sua obra contribuíram de que maneira à sua carreira, à sua vocação de dramaturga?

Os prêmios e as indicações são bacanas porque, em alguma medida, são o reconhecimento de um certo grau de excelência naquela obra, que, certamente, demandou muito esforço, sangue, ar, uma quantidade quase indecente de pensamentos e um abrangente imaginário do autor – e de todos que a compuseram, é claro. Isso é legal. Mas a vocação vem antes
disso. Antes de qualquer outra pessoa te dizer que você é boa no que faz. A vocação é uma víscera que não pode ser extirpada pela vontade ou opinião alheia.

Se costuma afirmar que o nível dos diálogos no teatro e no cinema argentinos é bastante superior ao do teatro e do cinema brasileiros. vc também acha?

Olha, eu não sou nada fã de generalizações… Essa suposição – sobre a superioridade dos diálogos no teatro e no cinema argentinos – me parece uma generalização… Acho bobagem ficar criando ou estimulando uma rivalização exacerbada entre Brasil e Argentina… Até no futebol acho bobagem.

CACHORRO ENTERRADO VIVO – curta temporada no Teatro João Ceschiati do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537, Centro, BH/MG. fone: 3236-7400). De 9 a 12/3/2017. Quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 19h. Ingressos: R$ 30 e 15 (meia). Preparação corporal: Eliatrice Gischewski. Trilha sonora original: Márcio Monteiro. Cenário e figurino: Cícero Miranda. Criação de luz: Wladmir Medeiros. Técnico de luz: Daniel Hazan. Voz off: Bruna Chiaradia. Produção executiva: Eliatrice Gischewski. Produção: Marcelo Carrusca e Leonardo Fernandes. Texto: Daniela Pereira de Carvalho. Direção: Marcelo do Vale. Atuação: Leonardo Fernandes.

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